Seder Zeraim · Massechet Kilayim · Perek Dalet · Mishná 3

"O muro do vinhedo"

אֵין זֶה אֶלָּא גֶדֶר הַכֶּרֶם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Yehudá redefine mechol hakerem e gader hakerem

Rabi Yehudá diz: isto não é senão o muro do vinhedo. E o que é o espaço de contorno do vinhedo? Entre dois vinhedos. O que é o muro? Aquele que permite deixar o vinhedo de um lado e semear do outro. E igualmente uma vala.

רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵין זֶה אֶלָּא גֶדֶר הַכֶּרֶם. וְאֵיזֶה הוּא מְחוֹל הַכֶּרֶם, בֵּין שְׁנֵי כְרָמִים. אֵיזֶהוּ גָדֵר, הַמַּפְסִיק בֵּין הַכֶּרֶם וּלְהָבִיא זֶרַע מִצַּד אֶחָד. וְכֵן חָרִיץ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Rabi Yehudá discorda da terminologia da Mishná anterior, propondo uma redefinição dos termos "mechol hakerem" e "gader" (muro).

Devarim (Deuteronômio) 22:9
לֹא־תִזְרַע כַּרְמְךָ כִּלְאָיִם, פֶּן־תִּקְדַּשׁ הַמְלֵאָה הַזֶּרַע אֲשֶׁר תִּזְרָע וּתְבוּאַת הַכָּרֶם.
"Não semearás tua vinha com semente diversa, para que não se torne proibido o produto pleno da semente que semeares e o fruto da vinha" (Devarim 22:9).

Uma segunda opinião sobre o vocabulário técnico. Enquanto a Mishná anterior (segundo o tana anônimo) chamava de "mechol hakerem" o espaço entre o vinhedo e o muro que o cerca, Rabi Yehudá discorda dessa terminologia: para ele, o espaço entre o vinhedo e um muro já constitui, ele mesmo, uma espécie de "muro do vinhedo" — pois o muro, ainda que físico, já demarca visualmente onde o vinhedo termina, dispensando uma medida especial de doze côvados. O verdadeiro "mechol hakerem", segundo Rabi Yehudá, é outra coisa: o espaço entre dois vinhedos distintos — onde não há um muro físico separando-os, apenas a distância entre as fileiras de um e as fileiras do outro. E o "muro" (gader), para Rabi Yehudá, é qualquer estrutura — inclusive uma simples vala — que permita, de modo visível e inequívoco, distinguir onde o vinhedo acaba e o campo de sementes começa.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Kilaim 7:12–13
בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים בְּכֶרֶם גָּדוֹל. אֲבָל בְּקָטָן אֵין לוֹ מָחוֹל אֶלָּא מַרְחִיק אַרְבַּע אַמּוֹת מִסּוֹף הַגְּפָנִים וְזוֹרֵעַ עַד הַגָּדֵר. וְכֵן כֶּרֶם גָּדוֹל שֶׁהָיָה בֵּין כָּל שׁוּרָה וְשׁוּרָה שְׁמוֹנֶה אַמּוֹת אוֹ יֶתֶר אֵין לוֹ מָחוֹל.
A que se refere isto? A um vinhedo grande. Mas a um vinhedo pequeno não se aplica a regra do espaço de contorno; em vez disso, afasta-se quatro côvados do fim das videiras e semeia-se até o muro. E igualmente um vinhedo grande em que havia entre cada fileira e a outra oito côvados ou mais não tem a regra do espaço de contorno.

O Rambam decide a halachá segundo o tana anônimo — mantendo o termo mechol hakerem para o espaço entre o vinhedo e o muro (como na Mishná 4:2) — e não segundo a redefinição de Rabi Yehudá; sua discussão em Hilchot Kilaim 7:12–13 usa exatamente a terminologia da mishná anônima, sinal de que a halachá segue essa opinião, e não a de Rabi Yehudá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná. O Rambam não redigiu comentário para esta mishná em seu Perush HaMishná; trazemos apenas o Bartenura.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Kilayim 4:3
אֵין זֶה אֶלָּא גֶדֶר הַכֶּרֶם. מָקוֹם שֶׁבֵּין גָּדֵר לַכֶּרֶם גֶּדֶר הַכֶּרֶם הוּא קָרוּי, וַאֲפִלּוּ אֵין שָׁם אֶלָּא שֵׁשׁ אַמּוֹת מַרְחִיק אַרְבַּע אַמּוֹת וְזוֹרֵעַ אֶת הַמּוֹתָר: וְאֵיזֶהוּ מְחוֹל הַכֶּרֶם. שֶׁצָּרִיךְ שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה אַמּוֹת, מָקוֹם שֶׁבֵּין שְׁנֵי כְרָמִים.

"Isto não é senão o muro do vinhedo": o lugar entre o muro e o vinhedo é chamado de "muro do vinhedo" — e mesmo que haja ali apenas seis côvados, afasta-se quatro côvados e semeia-se o restante (diferentemente da mishná anterior, que exigia doze côvados para poder semear ali).

"E o que é o mechol hakerem, que exige doze côvados": é o lugar entre dois vinhedos. E o primeiro tana entende que o lugar entre dois vinhedos tem a mesma lei do vinhedo que devastou em seu meio (a karachat hakerem, exigindo dezesseis côvados). E no Talmud Yerushalmi se demonstra que Rabi Yehudá não disse que o mechol hakerem fica entre dois vinhedos senão quando as fileiras dos dois vinhedos não estão alinhadas uma com a outra — por exemplo, quando as fileiras do vinhedo de um lado do mechol vão de leste a oeste, e as do outro lado vão de norte a sul; pois se estivessem alinhadas, Rabi Yehudá concordaria que pareceria uma calva do vinhedo (karachat hakerem) e exigiria dezesseis côvados. E não é halachá como Rabi Yehudá.

"O que é o muro": o que separa o vinhedo de modo que se pode deixar o vinhedo de um lado e semear do outro; e igualmente uma vala.

Massechet Kilayim não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.