Seder Zeraim · Massechet Kilayim · Perek Dalet · Mishná 2

"O espaço de contorno do vinhedo"

אֵיזֶה הוּא מְחוֹל הַכֶּרֶם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A medida do espaço entre o vinhedo e o muro que o cerca

E o que é o espaço de contorno do vinhedo? Entre o vinhedo e o muro. Se não há ali doze côvados, não se deve trazer semente para lá. Rabi Yehudá diz: dá-se ao campo, quanto ele tiver, o cultivo do vinhedo — quatro côvados.

אֵיזֶה הוּא מְחוֹל הַכֶּרֶם. בֵּין כֶּרֶם לַגָּדֵר. אִם אֵין שָׁם שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה אַמָּה, לֹא יָבִיא זֶרַע לְשָׁם. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, נוֹתְנִין לַשָּׂדֶה כְּדֵי עֲבוֹדָתוֹ, אַרְבַּע אַמּוֹת:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta Mishná dá continuidade à anterior, tratando de um segundo tipo de espaço vazio junto ao vinhedo — desta vez, na sua borda externa, entre as últimas videiras e o muro que o circunda.

Devarim (Deuteronômio) 22:9
לֹא־תִזְרַע כַּרְמְךָ כִּלְאָיִם, פֶּן־תִּקְדַּשׁ הַמְלֵאָה הַזֶּרַע אֲשֶׁר תִּזְרָע וּתְבוּאַת הַכָּרֶם.
"Não semearás tua vinha com semente diversa, para que não se torne proibido o produto pleno da semente que semeares e o fruto da vinha" (Devarim 22:9).

Um espaço menor, exigindo uma faixa menor. Diferentemente da calva do vinhedo — cercada de videiras em todos os lados, e por isso exigindo dezesseis côvados —, o espaço de contorno (mechol hakerem) tem a proibição apenas de um lado, o lado das videiras; do outro lado há apenas o muro, que não planta nada. Por essa razão sua medida mínima é menor: doze côvados, dos quais quatro se destinam ao cultivo do vinhedo junto às videiras, e outros quatro são considerados terreno "perdido" por estarem junto ao muro (necessário para a manutenção de sua base), restando quatro côvados livres para semear — o mínimo que a Mishná considera "um campo" que não se anula perante o vinhedo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Kilaim 7:12–13
וְכֵן מָקוֹם שֶׁנִּשְׁאַר פָּנוּי בְּלֹא גְּפָנִים בֵּין סוֹף הַכֶּרֶם וּבֵין הַגָּדֵר שֶׁלּוֹ וְהוּא הַנִּקְרָא מְחוֹל הַכֶּרֶם אִם יֵשׁ בּוֹ שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה אַמָּה מַרְחִיק מִן הַגְּפָנִים אַרְבַּע אַמּוֹת וְזוֹרֵעַ אֶת הִשָּׁאֵר. הָיָה בּוֹ פָּחוֹת מִשְּׁתֵּים עֶשְׂרֵה אַמָּה לֹא יָבִיא זֶרַע לְשָׁם. וְאִם הֵבִיא הוֹאִיל וְהִרְחִיק אַרְבַּע אַמּוֹת הֲרֵי זֶה לֹא קִדֵּשׁ.
E do mesmo modo, um lugar que restou vazio, sem videiras, entre o fim do vinhedo e o muro que o cerca — chamado de espaço de contorno do vinhedo: se há nele doze côvados, afasta-se das videiras quatro côvados e semeia-se o restante. Se havia nele menos de doze côvados, não se deve trazer semente para lá; mas, se trouxe, uma vez que se afastou quatro côvados, isso não tornou o produto proibido.

O Rambam decide a halachá segundo a mishná anônima (doze côvados), e não segundo Rabi Yehudá, que dispensava qualquer medida mínima. O texto do Rambam corresponde diretamente a esta Mishná, mantendo a mesma medida de doze côvados citada aqui.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Kilayim 4:2
מחול הכרם הוא מקום הפנוי מן הכרם שאין שם גפנים והוא מדבריהם מענין מחילה ר"ל עזיבת הדבר, נותנין לו עבודתו להרחיק מן האילנות ד"א שהוא עבודת הכרם ויזרע עד הגדירות שהוא ח' אמות. ומה שאמר שכשישאר בין האילנות והגדירות פחות מי"ב אמה לא יביא זרע לשם מפני שהנשאר אצל הגדירות הוא הפקר ובלבו לעזוב אותו.

O mechol hakerem é o lugar vazio afastado do vinhedo, onde não há videiras, e é um termo dos Sábios, relacionado à palavra "mechilá" — isto é, o abandono da coisa. Dá-se-lhe o seu cultivo: afasta-se das árvores quatro côvados, que é o cultivo do vinhedo, e semeia-se até os muros, o que perfaz oito côvados. E o que disse — que quando resta entre as árvores e os muros menos de doze côvados não se deve trazer semente para lá — é porque o que resta junto aos muros é considerado abandonado, tendo o proprietário em mente deixá-lo de lado.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Kilayim 4:2
מְחוֹל הַכֶּרֶם. מָקוֹם פָּנוּי בֵּין כֶּרֶם לַגָּדֵר סָבִיב, כְּמוֹ מְחוֹלוֹת הַנָּשִׁים כְּשֶׁמְּרַקְּדוֹת בְּסִבּוּב, לְשׁוֹן אָז תִּשְׂמַח בְּתוּלָה בְּמָחוֹל (ירמיה לא): אִם יֵשׁ שָׁם שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה אַמָּה. כְּדִבְרֵי בֵית הִלֵּל, נוֹתֵן אַרְבַּע אַמּוֹת לַעֲבוֹדַת כֶּרֶם וְזוֹרֵעַ הַשְּׁאָר.

"Mechol do vinhedo": um lugar vazio entre o vinhedo e o muro que o cerca por todos os lados — a palavra é do mesmo campo semântico das "danças em roda" (mecholot) das mulheres, quando dançam girando, como em "então a jovem se alegrará na dança" (Jeremias 31).

"Se há ali doze côvados": conforme as palavras de Bet Hilel, dá-se quatro côvados para o cultivo do vinhedo e semeia-se o restante. Mas se não há ali doze côvados, não se deve trazer semente para lá — pois as quatro côvados junto ao vinhedo são o seu cultivo, e as quatro côvados junto ao muro, como não são semeadas por causa da manutenção do muro (para que uma pessoa possa caminhar sobre o solo próximo ao muro, pisando a terra e fortalecendo seus alicerces), são consideradas abandonadas por seu dono. E, se as quatro côvados centrais existirem, são consideradas relevantes; se não, anulam-se perante o vinhedo. E aqui não se exige dezesseis côvados, pois a proibição existe apenas de um lado. E todas essas medidas são em côvados de seis palmos.

Massechet Kilayim não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.