Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Dalet · Mishná 12 de 14

Reclusão (yichud): um homem não se reclui com duas mulheres

לֹא יִתְיַחֵד אָדָם עִם שְׁתֵּי נָשִׁים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná estabelece a proibição de reclusão (yichud) entre um homem e duas mulheres, contrastando-a com o caso permitido de uma mulher a sós com dois homens, e registra a posição de Rabi Shimon sobre a exceção de um homem acompanhado de sua própria esposa.

Não se reclui um homem com duas mulheres, mas uma mulher se reclui com dois homens. Rabi Shimon diz: também um homem se reclui com duas mulheres, quando sua esposa está com ele, e dorme com elas numa hospedaria, porque sua esposa o vigia.A mishná estabelece uma assimetria: um único homem não pode ficar reclus com duas mulheres, por preocupação de que venha a pecar com uma delas sem que a outra o impeça — mas uma única mulher pode ficar reclusa com dois homens, pois presume-se que cada um dos dois se envergonharia diante do outro caso tentasse algo impróprio. Rabi Shimon discorda quanto ao primeiro caso e permite que um homem se recluda com duas mulheres, mas apenas quando sua própria esposa está presente com ele — até o ponto de poderem dormir juntos na mesma hospedaria —, pois a presença vigilante da esposa é suficiente para impedir qualquer transgressão.

לֹא יִתְיַחֵד אָדָם עִם שְׁתֵּי נָשִׁים, אֲבָל אִשָּׁה אַחַת מִתְיַחֶדֶת עִם שְׁנֵי אֲנָשִׁים. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אַף אִישׁ אֶחָד מִתְיַחֵד עִם שְׁתֵּי נָשִׁים בִּזְמַן שֶׁאִשְׁתּוֹ עִמּוֹ וְיָשֵׁן עִמָּהֶם בְּפֻנְדְּקִי, מִפְּנֵי שֶׁאִשְׁתּוֹ מְשַׁמַּרְתּוֹ:
A mishná acrescenta a exceção para parentes de primeiro grau — mãe e filha —, permitindo reclusão e até contato corporal enquanto crianças, mas exigindo separação por vestimenta a partir de certa idade.

Um homem se reclui com sua mãe e com sua filha, e dorme com elas em contato corporal. E, se cresceram, esta dorme em sua própria roupa e aquele dorme em sua própria roupa.Diferentemente da proibição geral, um homem pode ficar reclus com sua própria mãe ou com sua própria filha, e mesmo dormir ao lado delas em contato físico direto, sem roupa entre eles, pois não há preocupação de relação incestuosa nesses vínculos tão próximos enquanto ainda são crianças pequenas. Mas, uma vez que a filha ou o filho crescem — atingindo idade de maturidade sexual —, essa proximidade física deixa de ser apropriada: cada um passa a dormir vestido em sua própria roupa, ainda que continuem a poder dividir o mesmo espaço.

מִתְיַחֵד אָדָם עִם אִמּוֹ וְעִם בִּתּוֹ, וְיָשֵׁן עִמָּהֶם בְּקֵרוּב בָּשָׂר. וְאִם הִגְדִּילוּ, זוֹ יְשֵׁנָה בִכְסוּתָהּ וְזֶה יָשֵׁן בִּכְסוּתוֹ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 4:12
לֹא יִתְיַחֵד אָדָם עִם שְׁתֵּי נָשִׁים כוֹ': פְּסַק הַהֲלָכָה, וַאֲפִלּוּ אִשָּׁה אַחַת לֹא תִתְיַיחֵד, וְכָל שֶׁכֵּן שְׁתֵּי נָשִׁים וְאִישׁ אֶחָד, אֶלָּא אִם כֵּן הָיוּ שְׁתֵּי הַנָּשִׁים שְׁתֵּי צָרוֹת אוֹ שְׁתֵּי יְבָמוֹת, אוֹ אִשָּׁה וַחֲמוֹתָהּ, אוֹ אִשָּׁה וּבַת בַּעְלָהּ... לְפִי שֶׁאֵלּוּ שׂוֹנְאוֹת זוֹ אֶת זוֹ. וְאֵין מַלְקִין אֵשֶׁת אִישׁ עַל הַיִּחוּד, גְּזֵרָה שֶׁמָּא תּוֹצִיא לַעַז עַל בָּנֶיהָ. וּמֻתָּר לְהִתְיַחֵד עִם הַבְּהֵמָה וְהַזָּכוּר, לְפִי שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל עַל מִשְׁכַּב זָכוּר וְעַל הַבְּהֵמָה.

Rambam decide que, em geral, nem mesmo uma única mulher deveria se recluir com um único homem que não seu marido — e, com maior razão, duas mulheres com um único homem —, salvo em casos especiais como coesposas, cunhadas ligadas por levirato, ou uma mulher com sua sogra ou com a filha de seu marido, pois tais pares se vigiam mutuamente por rivalidade natural. Explica também que não se aplica açoite a uma mulher casada apenas por reclusão indevida, por receio de que isso lance suspeita sobre a legitimidade de seus filhos. E confirma que é permitida a reclusão com um animal ou com outro homem, pois o povo de Israel não foi suspeito, como norma, de relações com animais ou de pederastia.

Bartenura · Kidushin 4:12
לֹא יִתְיַחֵד אִישׁ אֶחָד עִם שְׁתֵּי נָשִׁים. מִפְּנֵי שֶׁדַּעְתָּן קַלָּה וּשְׁתֵּיהֶן נוֹחוֹת לְהִתְפַּתּוֹת: אֲבָל אִשָּׁה אַחַת מִתְיַחֶדֶת עִם שְׁנֵי אֲנָשִׁים. שֶׁהָאֶחָד בּוֹשׁ מֵחֲבֵרוֹ. וּפְסַק הַהֲלָכָה, לֹא תִתְיַחֵד אִשָּׁה אַחַת עִם שְׁנֵי אֲנָשִׁים, וְכָל שֶׁכֵּן אִישׁ אֶחָד עִם שְׁתֵּי נָשִׁים... וּמֻתָּר לְהִתְיַחֵד עִם הַבְּהֵמָה וְעִם הַזָּכָר, שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל עַל הַזָּכוּר וְעַל הַבְּהֵמָה: הִגְדִּילוּ זוֹ יְשֵׁנָה בִכְסוּתָהּ וְכוּ'. וְהוּא שֶׁתִּהְיֶה הַבַּת מִשְּׁתֵּים עֶשְׂרֵה שָׁנָה וְיוֹם אֶחָד, וְהַבֵּן מִשְּׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה שָׁנָה וְיוֹם אֶחָד.

Bartenura explica o fundamento da assimetria da mishná: duas mulheres reclusas com um único homem são consideradas mais vulneráveis à sedução, enquanto dois homens reclusos com uma única mulher se contêm mutuamente por vergonha um do outro. Observa que, na prática, a halachá acabou sendo ainda mais restritiva do que o texto simples da mishná sugere — nem mesmo uma única mulher deveria se recluir com dois homens —, ressalvados os pares que naturalmente se vigiam por rivalidade. Confirma que a reclusão com um animal ou com outro homem permanece permitida, pois o povo de Israel nunca foi suspeito dessas transgressões. E fixa a idade exata da “maturidade” que exige vestimenta separada entre pai e filha, ou mãe e filho: doze anos e um dia para a menina, treze anos e um dia para o menino.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Kiddushin 81b, sobre o episódio talmúdico de Plimo e o Satã, narrado pela Guemará logo após esta mishná
תִּיב שַׁפִּיר — שֵׁב כַּהוֹגֵן שֶׁלֹּא תְּמָאִיסֶנּוּ: הָבוּ לִי כָּסָא — מִזְגוּ לִי כּוֹס: שְׁמָעוּ דְּקָאָמְרֵי פְּלֵימוֹ קָטַל גַּבְרָא — הִשְׁמִיעוּ לְאַנְשֵׁי בֵיתוֹ קוֹל יוֹצֵא מִבַּחוּץ וְאוֹמְרִים פְּלֵימוֹ קָטַל גַּבְרָא: עָרַק — פְּלֵימוֹ כִּסְבוּר שֶׁבָּאִים עָלָיו נוֹגְשֵׂי הַמֶּלֶךְ לְהָרְגוֹ: מַאי טַעְמָא אָמַרְתְּ הָכִי — לָמָּה הֻרְגַּלְתָּ לְקַלְּלֵנִי:

Logo após esta mishná, a Guemará narra o episódio de Plimo, que tinha por hábito desafiar o Satã em voz alta, dizendo-lhe “uma flecha no olho do Satã” — até que, certa véspera de Yom Kipur, o Satã se disfarçou de mendigo à sua porta e o atraiu, sob pretexto de hospitalidade, a uma situação de quase-transgressão, da qual Plimo só escapou reconhecendo, no último instante, que se tratava do próprio Satã. Rashi esclarece os termos aramaicos do relato — o convite para “sentar-se apropriadamente”, o pedido de uma taça, o tossir insistente que serve de pretexto, o grito de “Plimo matou um homem” que ecoa de fora e faz Plimo fugir em pânico, temendo os oficiais do rei, até se esconder numa latrina fora da cidade, onde o Satã, percebendo sua angústia, finalmente revela quem era e pergunta por que Plimo insistia em desafiá-lo daquela forma. A Guemará situa esse episódio precisamente como ilustração viva do perigo da reclusão inadvertida e da confiança excessiva na própria virtude — o pano de fundo moral sobre o qual se apoia toda a cautela desta mishná quanto ao yichud.