Seder Kodashim · Massechet Keritot · Perek Vav · Mishná 7 de 9

O filho não continua a chatat do pai, e ninguém traz uma chatat de um pecado para outro

הַמַּפְרִישׁ חַטָּאתוֹ וּמֵת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná muda de assunto: da mecânica do dinheiro do asham para o princípio de que cada oferenda de chatat deve corresponder exatamente ao seu próprio pecado, sem substituição possível

Aquele que separa sua chatat e morre — não a trará seu filho depois dele. E não a trará de um pecado para outro pecado — mesmo sobre a gordura proibida que comeu ontem à noite não a trará sobre a gordura proibida que comeu hoje, pois foi dito (Vayicrá 4): “seu sacrifício sobre sua chatat” — que seu sacrifício seja em nome do seu pecado.

— A primeira cláusula desta mishná, esclarece o Rambam, não trata do caso óbvio de que a chatat separada pelo pai não pode mais ser oferecida em nome do próprio pai depois de sua morte — isso já é sabido, pois uma chatat cujo dono morreu deve simplesmente morrer com ele, sendo deixada para perecer sem uso. O caso aqui é distinto e mais sutil: mesmo que o próprio filho, por coincidência, tenha cometido inadvertidamente exatamente o mesmo tipo de transgressão pela qual o pai havia separado sua chatat, ele não pode aproveitar o animal já consagrado do pai para expiar seu próprio pecado — cada obrigação de chatat nasce e se liga unicamente à pessoa e ao pecado específico que a gerou, sem transferência possível, mesmo entre pai e filho e mesmo diante de identidade de circunstância. A segunda cláusula generaliza esse princípio para qualquer pessoa em relação a si mesma: mesmo que tenha sobrado, por algum motivo, uma chatat já separada para um pecado anterior, ninguém pode redirecioná-la para expiar um pecado posterior e distinto — e a mishná escolhe deliberadamente o exemplo mais extremo possível para ilustrar o rigor da regra: mesmo que se trate da mesmíssima categoria de transgressão, gordura proibida, comida em dois momentos consecutivos, uma noite e o dia seguinte, a chatat separada para a primeira ingestão não pode ser redirecionada para expiar a segunda. A base textual, extraída do versículo sobre a chatat do indivíduo comum, ensina que a expressão redundante “seu sacrifício sobre sua chatat” vem precisamente para exigir que cada sacrifício seja trazido em nome exato do pecado que o originou — sem generalidade nem substituição, por mais próxima que a nova transgressão pareça da antiga.

הַמַּפְרִישׁ חַטָּאתוֹ, וּמֵת, לֹא יְבִיאֶנָּה בְנוֹ אַחֲרָיו. וְלֹא יְבִיאֶנָּה מֵחֵטְא עַל חֵטְא, אֲפִלּוּ עַל חֵלֶב שֶׁאָכַל אֶמֶשׁ לֹא יְבִיאֶנָּה עַל חֵלֶב שֶׁאָכַל הַיּוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר (ויקרא ד), קָרְבָּנוֹ עַל חַטָּאתוֹ, שֶׁיְּהֵא קָרְבָּנוֹ לְשֵׁם חֶטְאוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikra 4:28
אוֹ הוֹדַע אֵלָיו חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא וְהֵבִיא קׇרְבָּנוֹ שְׂעִירַת עִזִּים תְּמִימָה נְקֵבָה עַל חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא׃

“Ou lhe for conhecido o seu pecado que pecou, e trará seu sacrifício, uma cabra sem defeito, fêmea, sobre seu pecado que pecou” — a mishná lê a repetição aparentemente redundante, “seu sacrifício... sobre seu pecado”, como exigência de correspondência exata: que o sacrifício de cada pessoa seja trazido especificamente em nome do pecado que o gerou, sem que uma chatat já separada para um pecado possa servir, ainda que por semelhança de categoria, para expiar outro.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keritot 6:7

המפריש חטאתו ומת לא יביאנה בנו אחריו כו': מה שאמר לא יביאנה בנו אחריו אינו ר"ל שלא יקריבנה על אביו לפי שזה פשוט שחטאת שמתו בעליה תמות וכבר בארנו זה אבל רוצה לומר שלא יקריבנו בנו על חטאת עצמו:

Bartenura · Keritot 6:7
לֹא יְבִיאֶנָּה בְנוֹ אַחֲרָיו. אִם שָׁגַג הַבֵּן בְּשִׁגְגַת חַטָּאת, לֹא יָבִיא חַטָּאת שֶׁהִפְרִישׁ אָבִיו כְּדֵי שֶׁיְּכֻפַּר בָּהּ עַל שִׁגְגָתוֹ:

Bartenura explica: “não a trará seu filho depois dele” — se o filho pecou inadvertidamente com um pecado de chatat, não trará a chatat que seu pai havia separado, para que se expie com ela sua própria transgressão.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

A Guemará em Keritot 27b comenta diretamente o texto desta mishná, esclarecendo por que o caso do filho não é meramente óbvio.
Rashi רַשִׁ״י
Keritot 27b, sobre a abertura desta mishná
מַתְנִי' לֹא יְבִיאֶנּוּ בְּנוֹ אַחֲרָיו — עַל חִיּוּב שֶׁלּוֹ, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר עַל חֵטְא הָאָב, דְּאֵין כַּפָּרָה לְאַחַר מִיתָה.
Comentando diretamente a abertura desta mishná, Rashi esclarece por que sua regra não é trivial: o caso não é o óbvio — de que o filho não pode oferecer a chatat separada pelo pai em nome do próprio pai, já falecido, pois é evidente que não há expiação depois da morte — mas sim o caso mais surpreendente de que o filho não pode aproveitar o mesmo animal para expiar sua própria obrigação, mesmo quando esta é idêntica em natureza à do pai.