Rabi Shimon Shezuri e Rabi Shimon dizem: não discordaram quanto a algo que é de um único nome, que é obrigado. E sobre o que discordaram? Sobre algo que é de dois nomes, que Rabi Eliezer obriga a chatat e Rabi Yehoshua isenta. Disse Rabi Yehuda: mesmo que tenha pretendido colher figos e colheu uvas, uvas e colheu figos, pretas e colheu brancas, brancas e colheu pretas — Rabi Eliezer obriga a chatat, e Rabi Yehoshua isenta. Disse Rabi Yehuda: admira-me se Rabi Yehoshua isentaria nesse caso. Se assim é, por que se diz (Vayikra 4): daquilo que pecou nele? Para excluir o mitassek.
— A última mishná do Perek Dalet retoma a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua da mishná anterior e a delimita ainda mais. Rabi Shimon Shezuri e Rabi Shimon esclarecem que os dois tanaim não discordam quando a dúvida envolve uma única categoria — um único “nome” halachico — de proibição: por exemplo, colheu uma uva em Shabat e não sabe de qual videira a colheu; nesse caso ambos concordam que ele é obrigado, pois, seja qual for a videira, o ato transgressor foi sempre o mesmo, “colher uvas em Shabat”. A disputa real surge quando a dúvida abrange duas categorias distintas: colheu fruta de uma árvore em Shabat, mas não sabe se era uma videira ou uma figueira — ou seja, não sabe sequer que tipo de trabalho cometeu. Aí Rabi Eliezer ainda obriga (pois, de qualquer modo, houve transgressão), e Rabi Yehoshua ainda isenta (por faltar identificação do pecado). Rabi Yehuda radicaliza o caso: mesmo que a pessoa tivesse a intenção plena e consciente de colher determinado tipo de fruta em Shabat — sabendo perfeitamente que aquilo era proibido — e sua mão, por engano de execução, colheu outro tipo (pretendeu figos e colheu uvas, ou pretendeu uvas escuras e colheu claras), ainda assim, segundo ele, a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua se mantém nos mesmos termos, porque o resultado final não coincide com a intenção original. E então Rabi Yehuda expressa sua própria perplexidade: “admira-me se Rabi Yehoshua isentaria nesse caso” — afinal, a pessoa tinha plena intenção de transgredir o Shabat, apenas errou o objeto específico da colheita, o que soa mais grave do que a simples ignorância sobre qual videira. A mishná resolve a perplexidade voltando ao próprio texto bíblico: por que a Torá disse “daquilo que pecou nele”, exigindo identificação precisa do pecado, se bastaria a intenção geral de transgredir? A resposta: essa exigência serve precisamente para excluir o mitassek — aquele cuja mão executa um resultado diferente do que a mente pretendia, mesmo que a intenção geral fosse transgressora — da obrigação da chatat. É com essa distinção fina, entre intenção e execução, que se encerra o Perek Dalet e a série de dúvidas do asham talui.
“Ou lhe for conhecido o seu pecado, aquilo em que pecou...” — a expressão “asher chata bah”, “aquilo em que pecou”, é a base textual de toda a mishná, tanto na disputa anterior (4:2) quanto nesta: dela, Rabi Yehoshua deriva a exigência de que o pecador saiba precisamente qual foi seu pecado antes de se obrigar à chatat; e dela, Rabi Eliezer deriva, por outra leitura, a exclusão do mitassek — quem age sem que sua mão execute o que sua mente pretendia.
Rambam explica “de um único nome”: por exemplo, duas mulheres nidot com ele na casa, ou duas irmãs, e teve relação inadvertida com uma delas sem saber com qual — e já explicamos, mais de uma vez, que a Torá só proibiu o trabalho pensado deliberadamente; e sempre que a pessoa pretendeu colher figos e colheu uvas, está isenta, tanto segundo Rabi Yehoshua quanto segundo Rabi Eliezer. E o que disse Rabi Yehuda, de que os dois discordam também nesse caso, é conforme explico: Rabi Yehuda diz que, se a pessoa pretendeu colher primeiro figos e depois uvas, e sua mão se inverteu, colhendo primeiro as uvas e depois os figos, Rabi Eliezer obriga à chatat, pois de todo modo ela colheu tudo o que havia pensado colher; e Rabi Yehoshua isenta, pois ela não colheu na ordem que havia pensado. E Rabi Shimon contestou essa posição, dizendo admirar-se se Rabi Yehoshua isentaria nesse caso; e Rabi Yehuda levantou uma segunda objeção sobre isso, dizendo: por que vocês se admiram de Rabi Yehoshua, que isenta, se a Torá diz “daquilo que pecou nele”? Se assim é, por que se diz “daquilo que pecou nele”? Respondeu-lhe Rabi Shimon que “daquilo que pecou nele” não veio senão para excluir o mitassek — por exemplo, quem não teve intenção alguma de colher, ou pretendeu colher apenas figos e colheu uvas, caso em que sua intenção não se realizou de modo algum. E a halachá segue Rabi Yehoshua, conforme a explicação de Rabi Yehuda; e por isso se decidiu que, mesmo quem tem relação inadvertida com duas esposas nidot, que são de um único nome, é obrigado ao asham talui segundo Rabi Yehoshua, e à chatat segundo Rabi Eliezer; e nisso também a halachá segue Rabi Yehoshua.
Bartenura explica “de um único nome”: por exemplo, duas mulheres nidot com ele na casa e teve relação inadvertida com uma delas. “Que é obrigado”: pois sabia em que havia pecado. “Sobre algo que é de dois nomes”: por exemplo, dúvida se colheu ou se moeu. “Mesmo que tenha pretendido colher figos e colheu uvas”: a Guemará explica a posição de Rabi Yehuda como referindo-se a quem pretendia colher primeiro figos e depois uvas, e sua mão se inverteu para o que vinha depois, colhendo uvas primeiro e figos depois; e o mesmo se aplica a quem pretendia colher primeiro escuras e depois brancas, e o resultado se inverteu, colhendo brancas primeiro e escuras depois. “Rabi Eliezer obriga à chatat”: pois, já que teve intenção quanto a ambas, não importa a ordem, se antes ou depois. “E Rabi Yehoshua isenta”: pois, no momento da colheita de cada uma delas, não teve intenção quanto àquela especificamente, sendo equiparado ao mitassek, e por isso isento. “Assim lemos: disse Rabi Shimon, admira-me se Rabi Yehoshua isentaria nesse caso”: se assim é, por que se diz “daquilo que pecou nele”? A mishná, sem atribuição, expressa espanto diante da perplexidade de Rabi Shimon: se, de fato, Rabi Yehoshua não isentaria nesse caso, por que então se diz “daquilo que pecou nele”? E responde: para excluir o mitassek — ou seja, para excluir quem não teve intenção alguma de colher, ou quem pretendia colher apenas figos e colheu apenas uvas, casos em que sua intenção original não se realizou de nenhum modo. E a halachá segue Rabi Yehoshua, conforme a explicação que Rabi Yehuda deu de sua posição.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Dalet de Massechet Keritot, o mais breve do tratado até aqui. O capítulo abriu com o catálogo das cinco dúvidas que obrigam ao asham talui — sobre o fato, a medida, o item, a pessoa, o dia (4:1) — e prosseguiu com o duplo paralelo entre a soma de porções e a multiplicação por espécies distintas, aplicado à gordura e à sobra ritual, à esposa nidá e à irmã, e ao crepúsculo entre Shabat e Yom Kipur, com a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre a exigência de identificação precisa do pecado (4:2). Por fim, Rabi Shimon Shezuri, Rabi Shimon e Rabi Yehuda refinaram essa mesma disputa até seu limite mais estreito — a diferença entre a intenção geral de transgredir e a execução precisa do ato — fechando o capítulo com a exclusão do mitassek a partir do próprio texto de Vayikra (4:3).
O tratado prossegue no Perek Hei, com os casos de quem come sangue e as diferentes fontes de sangue proibido e permitido no abate ritual.