Seder Kodashim · Massechet Keritot · Perek Alef · Mishná 6 de 7

A que aborta na noite do octogésimo primeiro dia

הַמַּפֶּלֶת אוֹר לִשְׁמוֹנִים וְאֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O debate entre Beit Shamai e Beit Hilel: a mulher que já deu à luz uma filha e aborta de novo na noite do octogésimo primeiro dia — deve trazer uma segunda oferenda?

A que aborta na noite do octogésimo primeiro dia — Beit Shamai isentam da oferenda, e Beit Hilel obrigam. Disseram Beit Hilel a Beit Shamai: qual a diferença entre a noite do octogésimo primeiro dia e o dia octogésimo primeiro? Se é igual quanto à impureza, não seria igual quanto à oferenda? Disseram-lhes Beit Shamai: não; se dissestes a respeito da que aborta no dia octogésimo primeiro, é porque ela saiu numa hora apta a trazer nela oferenda; diríeis o mesmo da que aborta na noite do octogésimo primeiro, que não saiu numa hora apta a trazer nela oferenda? Disseram-lhes Beit Hilel: mas prove a que aborta no dia octogésimo primeiro que caiu em Shabat, que não saiu numa hora apta a trazer nela oferenda, e está obrigada à oferenda! Disseram-lhes Beit Shamai: não; se dissestes a respeito da que aborta no dia octogésimo primeiro que caiu em Shabat, é porque, ainda que não seja apto para oferenda individual, é apto para oferenda comunitária; diríeis o mesmo da que aborta na noite do octogésimo primeiro, em que a noite não é apta nem para oferenda individual nem para oferenda comunitária? E os sangues não provam, pois a que aborta dentro dos dias de plenitude, seu sangue é impuro, e é isenta da oferenda.

— Esta mishná, a mais longa e dialeticamente elaborada do capítulo, examina um caso técnico dentro do calendário da pureza pós-parto (Vayicrá 12): a mulher que deu à luz uma filha permanece impura como na menstruação por catorze dias, e depois passa sessenta e seis dias em “sangue de purificação”, ao fim dos quais, no octogésimo primeiro dia, deve trazer sua oferenda. Se ela aborta um segundo feto dentro desses oitenta dias de plenitude, é isenta de uma segunda oferenda, pois este aborto é tratado como parte do primeiro parto. A questão da mishná é o caso-limite: o aborto ocorrido precisamente na noite que antecede o octogésimo primeiro dia — já depois de completados os oitenta dias, mas ainda de noite, antes que amanheça o dia em que ela se tornaria apta a trazer sua oferenda. Beit Shamai isentam, pois consideram que o critério decisivo é ter a mulher “saído” para um momento apto à oferenda — e a noite nunca é apta a sacrifícios, individuais ou comunitários. Beit Hilel obrigam, argumentando que, quanto à impureza, a noite do octogésimo primeiro dia já se equipara ao dia octogésimo primeiro (o sangue visto naquela noite já é impuro, como o de fora do período de purificação) — e, se as duas datas se equiparam quanto à impureza, deveriam equiparar-se também quanto à obrigação da oferenda. O debate segue com réplicas de ambos os lados: Beit Hilel trazem o caso do dia octogésimo primeiro que cai em Shabat — nele também não há hora apta para oferenda individual, e mesmo assim há obrigação; Beit Shamai respondem que o Shabat, ainda que inapto para oferenda individual, permanece apto para a oferenda comunitária diária, enquanto a noite não é apta a nenhuma das duas. A mishná fecha com a réplica final de Beit Shamai ao argumento da impureza: o paralelo não prova nada, pois mesmo a que aborta dentro dos próprios dias de plenitude tem sangue impuro (como sangue de parto) e ainda assim é isenta da segunda oferenda — mostrando que a equivalência quanto à impureza não determina, por si só, a equivalência quanto à obrigação do sacrifício.

הַמַּפֶּלֶת אוֹר לִשְׁמוֹנִים וְאֶחָד, בֵּית שַׁמַּאי פּוֹטְרִין מִן הַקָּרְבָּן, בֵּית הִלֵּל מְחַיְּבִים. אָמְרוּ בֵית הִלֵּל לְבֵית שַׁמַּאי, מַאי שְׁנָא אוֹר לִשְׁמוֹנִים וְאֶחָד מִיּוֹם שְׁמוֹנִים וְאֶחָד. אִם שָׁוֶה לוֹ לַטֻּמְאָה, לֹא יִשְׁוֶה לוֹ לַקָּרְבָּן. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, לֹא, אִם אֲמַרְתֶּם בְּמַפֶּלֶת יוֹם שְׁמוֹנִים וְאֶחָד, שֶׁכֵּן יָצְאָה בְשָׁעָה שֶׁהִיא רְאוּיָה לְהָבִיא בָהּ קָרְבָּן, תֹּאמְרוּ בְמַפֶּלֶת אוֹר לִשְׁמוֹנִים וְאֶחָד, שֶׁלֹּא יָצְאָה בְשָׁעָה שֶׁהִיא רְאוּיָה לְהָבִיא בָהּ קָרְבָּן. אָמְרוּ לָהֶן בֵּית הִלֵּל, וַהֲרֵי הַמַּפֶּלֶת יוֹם שְׁמוֹנִים וְאֶחָד שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת תּוֹכִיחַ, שֶׁלֹּא יָצְאָה בְשָׁעָה שֶׁהִיא רְאוּיָה לְהָבִיא בָהּ קָרְבָּן וְחַיֶּבֶת בַּקָּרְבָּן. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, לֹא, אִם אֲמַרְתֶּם בְּמַפֶּלֶת יוֹם שְׁמוֹנִים וְאֶחָד שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ רָאוּי לְקָרְבַּן יָחִיד, רָאוּי לְקָרְבַּן צִבּוּר, תֹּאמְרוּ בְמַפֶּלֶת אוֹר לִשְׁמוֹנִים וְאֶחָד, שֶׁאֵין הַלַּיְלָה רָאוּי לֹא לְקָרְבַּן יָחִיד וְלֹא לְקָרְבַּן צִבּוּר. הַדָּמִים אֵינָן מוֹכִיחִין, שֶׁהַמַּפֶּלֶת בְּתוֹךְ מְלֹאת, דָּמֶיהָ טְמֵאִין, וּפְטוּרָה מִן הַקָּרְבָּן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keritot 1:6

Rambam explica que todos concordam que, se abortou no dia oitenta, é isenta da oferenda por este feto, porque se considera como se tivesse vindo junto com o primeiro filho, por estar dentro dos dias de plenitude — e os dias de plenitude chamam-se quarenta para o macho e oitenta para a fêmea, pois se diz “e ao completarem-se os dias de sua purificação”. E, se abortou no octogésimo primeiro dia depois de ter dado à luz uma fêmea, é obrigada à oferenda por este feto, segundo todos, pois é um segundo parto, já que abortou depois da plenitude, tendo já cessado o primeiro parto. E a disputa entre eles é apenas sobre a que aborta na noite do octogésimo primeiro dia: se é obrigada, por este feto, a uma oferenda própria, ou se ele se considera junto com o primeiro parto. Beit Hilel a obrigam a uma oferenda pelo feto, por ter abortado depois da plenitude, e trazem prova disto, dizendo: assim como, se ela viu sangue na noite do octogésimo primeiro dia, este é sangue de impureza segundo todos, como se tivesse visto no dia octogésimo primeiro — pois não se chamou sangue puro senão até o fim dos quarenta para o macho e oitenta para a fêmea, como a Escritura explicou, e tudo que ela vê depois deste tempo é sangue de impureza, seja que o tenha visto de noite, seja de dia — e não há diferença entre dar à luz na noite do octogésimo primeiro ou no dia octogésimo primeiro, já que cessou o sangue puro, cessou o primeiro parto. E este é o sentido do que disseram: se é igual quanto à impureza, não seria igual quanto à oferenda? E disseram-lhes Beit Shamai: o sangue de impureza não a obriga à oferenda por este feto, pois a que aborta dentro dos dias de purificação é isenta da oferenda segundo todos, como explicamos, ainda que seu sangue seja impuro na hora em que aborta aquele feto, pois é sangue de parto, não sangue puro, e ninguém discorda disto; mas Beit Shamai dizem que ela não cessa do primeiro parto, e por isso não é obrigada por este feto isoladamente, até que saia numa hora apta a trazer a oferenda de seu primeiro parto — e isto só é possível no dia octogésimo primeiro, pois na noite do octogésimo primeiro é impossível trazer sua oferenda, como já explicamos no início desta composição, que a noite não é apta a oferenda alguma, nem individual nem comunitária. E a razão pela qual discordaram sobre a que aborta na noite do octogésimo dia para a fêmea, e não discordaram sobre a noite do quadragésimo primeiro dia para o macho, ainda que a lei de ambos seja a mesma, é porque isto é impossível de ocorrer de nenhuma forma, pois a que dá à luz um macho é proibida a seu marido por sete dias, e se ele vier a ela depois disso e ela abortar, por exemplo, no dia quarenta e um, o feto teria trinta e três dias, e dentro deste prazo não se reconheceria nele a forma humana, nem ela seria obrigada por ele a uma oferenda, como já antecipamos; mas a que dá à luz uma fêmea permanece, depois dos dias de plenitude durante os quais é proibida a seu marido, sessenta e seis dias em que é permitida a ele, e é possível que, neste intervalo, engravide e aborte um feto que tenha mais de quarenta dias; e, sendo isto possível na que dá à luz fêmea, falaram a respeito dela nesta lei e nas outras.

Bartenura · Keritot 1:6
הַמַּפֶּלֶת לְאוֹר שְׁמוֹנִים וְאֶחָד. שֶׁיָּלְדָה נְקֵבָה, וְלֵיל שְׁמוֹנִים וְאֶחָד שֶׁהָיְתָה רְאוּיָה לְמָחָר לְהָבִיא כַּפָּרָתָהּ הִפִּילָה: בֵּית שַׁמַּאי פּוֹטְרִים מִן הַקָּרְבָּן. מִלֵּידָה שְׁנִיָּה. אַף עַל גַּב דִּלְאַחַר מְלֹאת הוּא, הוֹאִיל וְלַיְלָה הִיא וְלֹא יָצְתָה שָׁעָה רְאוּיָה לְקָרְבָּן, דְּלַיְלָה מְחֻסַּר זְמַן קָרְבַּן הִיא, דִּכְתִיב “בְּיוֹם צַוֹּתוֹ”, הִלְכָּךְ לְעִנְיַן קָרְבָּן כְּתוֹךְ מְלֹאת דָּמֵי: מַאי שְׁנָא אוֹר לִשְׁמוֹנִים וְאֶחָד מִיּוֹם שְׁמוֹנִים וְאֶחָד. דְּוַדַּאי חַיֶּבֶת קָרְבָּן עַל הַנֵּפֶל שֶׁהִפִּילָה לְדִבְרֵי הַכֹּל הוֹאִיל וְאַחַר מְלֹאת הִפִּילָה: אִם שָׁוֶה לוֹ לַטֻּמְאָה. שֶׁהֲרֵי אַתֶּם מוֹדִים שֶׁבִּשְׁקִיעַת הַחַמָּה שֶׁל יוֹם שְׁמוֹנִים כָּלוּ יְמֵי טֹהַר שֶׁלָּהּ וְאִם רָאֲתָה בְּלֵיל שְׁמוֹנִים וְאֶחָד טְמֵאָה: הַדָּמִים אֵינָם מוֹכִיחִים. וְהַדָּם שֶׁאַתֶּם אוֹמְרִים אִם שָׁוֶה לוֹ לַטֻּמְאָה, אֵינוֹ רְאָיָה, שֶׁהֲרֵי הַמַּפֶּלֶת תּוֹךְ מְלֹאת דָּמָהּ טָמֵא מִפְּנֵי הַלֵּידָה, וְאֵינָהּ חַיֶּבֶת קָרְבָּן שֵׁנִי, לְפִי שֶׁכָּל שֶׁבָּא בְּתוֹךְ מְלֹאת נֶחְשָׁב כְּאִלּוּ בָּא עִם הַוָּלָד הָרִאשׁוֹן. וּבְהָא מוֹדוּ בֵּית הִלֵּל:

Bartenura explica que “a que aborta na noite do octogésimo primeiro dia” refere-se a quem deu à luz uma fêmea, e na noite do octogésimo primeiro dia, quando estaria apta no dia seguinte a trazer sua expiação, abortou. Sobre “Beit Shamai isentam da oferenda”: do segundo parto. Ainda que seja depois da plenitude, sendo que é noite e não saiu a hora apta ao sacrifício — pois a noite é considerada como faltando o tempo do sacrifício, como está escrito “no dia em que ordenou” — portanto, quanto ao sacrifício, considera-se como dentro da plenitude. Sobre “qual a diferença entre a noite do octogésimo primeiro e o dia octogésimo primeiro”: pois certamente é obrigada à oferenda pelo feto que abortou segundo todos, sendo que abortou depois da plenitude. Sobre “se é igual quanto à impureza”: pois vós mesmos admitis que, ao pôr do sol do dia oitenta, terminaram seus dias de pureza, e se ela viu sangue na noite do octogésimo primeiro dia, é impura. Sobre “os sangues não provam”: e o sangue que vós dizeis, se é igual quanto à impureza, não é prova, pois a que aborta dentro da plenitude, seu sangue é impuro por causa do parto, e não é obrigada a uma segunda oferenda, porque tudo que vem dentro da plenitude é considerado como se tivesse vindo com o primeiro filho — e nisto Beit Hilel concordam.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Keritot 7b, sobre a Guemará desta mishná
מתני' לאור פ"א — שֶׁיָּלְדָה נְקֵבָה, לְאוֹר פ"א שֶׁהָיְתָה רְאוּיָה לְמָחָר לְהָבִיא כַּפָּרָתָהּ הִפִּילָה: ב"ש פוטרין מן הקרבן — מִלֵּידָה ב', אַף עַל גַּב דְּלְאַחַר מְלֹאת הוּא, הוֹאִיל וְלַיְלָה הוּא וְלֹא יָצְתָה שָׁעָה רְאוּיָה לְקָרְבָּן, דְּלַיְלָה מְחוּסַּר זְמַן קָרְבַּן הוּא, דִּכְתִיב “בְּיוֹם צַוֹּתוֹ”, הִלְכָּךְ לְעִנְיַן קָרְבָּן כְּתוֹךְ מְלֹאת דָּמֵי: מ"ש אור פ"א מיום פ"א — דְּוַדַּאי חַיֶּבֶת, כִּדְמְפָרֵשׁ לְקַמָּן בְּפֶרֶק אַרְבָּעָה מְחוּסְּרֵי כַפָּרָה: אם שיוה לו לטומאה — שֶׁהֲרֵי אַתֶּם מוֹדִים שֶׁמִּשְּׁקִיעַת הַחַמָּה שֶׁל יוֹם פ' כָּלוּ יְמֵי טוֹהַר שֶׁלָּהּ, וְאִם רָאֲתָה בְּלֵיל פ"א טְמֵאָה: והדמים — שֶׁאַתָּה אוֹמֵר אִם שָׁוֶה לוֹ לְטֻמְאָה כוּ' אֵינָן מוֹכִיחִין לְקָרְבָּן, שֶׁהֲרֵי הַמַּפֶּלֶת תּוֹךְ מְלֹאת דָּמֶיהָ טְמֵאִין מִפְּנֵי הַלֵּידָה וְאֵינָהּ חַיֶּבֶת קָרְבָּן שֵׁנִי:

Rashi explica que “na noite do octogésimo primeiro” refere-se a quem deu à luz uma fêmea, e na noite do octogésimo primeiro dia, quando estaria apta no dia seguinte a trazer sua expiação, abortou. Sobre “Beit Shamai isentam da oferenda”: do segundo parto; ainda que seja depois da plenitude, sendo que é noite e não saiu a hora apta ao sacrifício, pois a noite é considerada como faltando o tempo do sacrifício, como está escrito “no dia em que ordenou”; portanto, quanto ao sacrifício, considera-se como dentro da plenitude. Sobre “qual a diferença entre a noite do octogésimo primeiro e o dia octogésimo primeiro”: pois certamente é obrigada, como se explica adiante no capítulo “Quatro que faltam expiação”. Sobre “se é igual quanto à impureza”: pois vós mesmos admitis que, do pôr do sol do dia oitenta, terminaram seus dias de pureza, e se viu sangue na noite do octogésimo primeiro, é impura. Sobre “e os sangues”: o que dizes, se é igual quanto à impureza etc., não prova quanto ao sacrifício, pois a que aborta dentro da plenitude, seu sangue é impuro por causa do parto, e não é obrigada a uma segunda oferenda.