Seder Kodashim · Massechet Keritot · Perek Alef · Mishná 5 de 7

As que não trazem oferenda

אֵלּוּ שֶׁאֵינָן מְבִיאוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A terceira categoria: sacos fetais sem forma, criaturas sem semelhança humana, o aborto do quadragésimo dia e o nascimento por cesariana; a divergência de Rabi Shimon

Estas não trazem: a que aborta um saco fetal cheio de água, cheio de sangue, cheio de tons variados; a que aborta algo semelhante a peixes, gafanhotos, répteis abomináveis e coisas rastejantes; a que aborta no quadragésimo dia; e a que sai pelo flanco. Rabi Shimon obriga no caso da que sai pelo flanco.

— A terceira e última categoria da série completa o esquema aberto em 1:3: os casos em que não há obrigação alguma de trazer oferenda de parturiente, porque o que saiu do corpo da mulher não é reconhecido pela Torá como nascimento. O primeiro grupo são os sacos fetais sem forma alguma de feto dentro deles — cheios apenas de líquido, de sangue, ou de matéria de cores variadas, sem estrutura de membros. O segundo grupo são as criaturas cuja forma se assemelha a peixes, gafanhotos, répteis abomináveis ou coisas rastejantes — formas de vida que, mesmo tendo alguma organização corporal, não se aproximam da forma humana exigida pelos Sábios em 1:3, nem mesmo da forma animal aceita por Rabi Meir, pois estas categorias ficam fora até da lista de Rabi Meir. O terceiro caso é o aborto ocorrido antes de completados quarenta dias de gestação, período em que o embrião ainda é considerado “mera água”, sem status de feto. O quarto caso é o parto por cesariana, no qual a criança nasce sem passar pelo canal natural — a opinião anônima da mishná isenta, pois a Torá fala em “parir” a partir do lugar de onde a mulher concebe; Rabi Shimon, porém, obriga, lendo o versículo “e se parir fêmea” como incluindo um segundo tipo de parto além do usual, precisamente a cesariana.

אֵלּוּ שֶׁאֵינָן מְבִיאוֹת. הַמַּפֶּלֶת שָׁפִיר מָלֵא מַיִם, מָלֵא דָם, מָלֵא גְנִינִים, הַמַּפֶּלֶת כְּמִין דָּגִים וַחֲגָבִים שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים, הַמַּפֶּלֶת יוֹם אַרְבָּעִים, וְיוֹצֵא דֹפֶן. רַבִּי שִׁמְעוֹן מְחַיֵּב בְּיוֹצֵא דֹפֶן:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Vayikrá (Levítico) 12:2–5
אִשָּׁה כִּי תַזְרִיעַ וְיָלְדָה זָכָר... וְאִם נְקֵבָה תֵלֵד, וְטָמְאָה שְׁבֻעַיִם כְּנִדָּתָהּ, וְשִׁשִּׁים יוֹם וְשֵׁשֶׁת יָמִים תֵּשֵׁב עַל דְּמֵי טָהֳרָה.
Quando uma mulher conceber e parir varão... e se parir fêmea, será impura duas semanas como em sua menstruação, e sessenta e seis dias permanecerá nos dias de seu sangue de purificação.
A leitura da Guemará — A opinião anônima da mishná deriva a exigência de um “parto usual” da própria expressão de abertura, “quando uma mulher conceber e parir”: só se considera parto, para efeitos da oferenda, aquele que ocorre pelo mesmo local por onde a mulher concebeu — excluindo, assim, o nascimento por cesariana. Rabi Shimon, por sua vez, lê a aparente redundância de “e se parir fêmea” (quando bastaria dizer “e se for fêmea”) como um acréscimo textual, destinado a incluir um segundo tipo de parto além do já mencionado — precisamente o que sai pelo flanco.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keritot 1:5

Rambam explica que todo feto que a mulher aborta dentro dos quarenta dias desde que foi fecundada não é feto, pois nele não se completou a forma humana; e no terceiro capítulo de Nidá disseram: a que aborta no dia quarenta é isenta, e, ainda que seja o último dos quarenta, sua lei é como a do dia anterior. E os Sábios dizem “e parir”, até que dê à luz pelo lugar do nascimento. E Rabi Shimon traz prova do que se disse “e se parir fêmea”, dizendo: “e se” para incluir outro tipo de parto, e qual é? O que sai pelo flanco. E a lei segue os Sábios. E “gueninim” são sanguessugas, vermes e semelhantes.

Bartenura · Keritot 1:5
גְּנִינִים. גְּוָנִים. וַאֲנִי שָׁמַעְתִּי כְּמִין תּוֹלָעִים: הַמַּפֶּלֶת יוֹם אַרְבָּעִים. דְּעַד שֶׁיַּעַבְרוּ אַרְבָּעִים יוֹם לְהֶרְיוֹנָהּ הָוֵי מַיָּא בְּעָלְמָא: רַבִּי שִׁמְעוֹן מְחַיֵּב בְּיוֹצֵא דֹפֶן. דִּכְתִיב “וְאִם נְקֵבָה תֵלֵד”, וַהֲוָה לֵיהּ לְמִכְתַּב “וְאִם נְקֵבָה הִיא”, אֶלָּא רִבָּה לָהּ לֵידָה אַחֶרֶת, וּמַאי הִיא, יוֹצֵא דֹּפֶן. וְתַנָּא קַמָּא סָבַר, אָמַר קְרָא “אִשָּׁה כִּי תַזְרִיעַ וְיָלְדָה”, עַד שֶׁתֵּלֵד מִמָּקוֹם שֶׁמַּזְרַעַת:

Bartenura explica que “gueninim” são tons variados; mas eu ouvi que são como vermes. Sobre “a que aborta no dia quarenta”: pois até que passem quarenta dias de sua gravidez, é mera água. Sobre “Rabi Shimon obriga no caso da que sai pelo flanco”: pois está escrito “e se parir fêmea”, quando deveria ter escrito “e se for fêmea”; mas acrescentou-lhe outro tipo de parto, e qual é? O que sai pelo flanco. E o primeiro Tana entende que o versículo diz “quando uma mulher conceber e parir”, até que dê à luz pelo lugar de onde concebe.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Keritot 7b, sobre a Guemará desta mishná
גנינין — גְּוָנִים: המפלת יום ארבעים — בְּמַסֶּכֶת נִדָּה בְּפֶרֶק הַמַּפֶּלֶת: עַד שֶׁיַּעַבְרוּ מ' יוֹם לְהֵרָיוֹן הֲוֵי מַיָּא בְּעָלְמָא: ואם נקבה תלד — הֲוָה לֵיהּ לְמִכְתַּב “וְאִם נְקֵבָה הִיא”:

Rashi explica que “gueninim” são tons variados. Sobre “a que aborta no dia quarenta”: em Massechet Nidá, no capítulo “A que aborta”, ensina-se que até que passem quarenta dias da gestação, é mera água. Sobre “e se parir fêmea”: deveria ter escrito “e se for fêmea”.