Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Vav · Mishná 4 de 4 — última do capítulo

Duas pedras impuras, e as pedras acrescentadas de cada lado, e o encerramento do Perek Vav

שְׁתֵּי אֲבָנִים שֶׁעֲשָׂאָם כִּירָה וְנִטְמְאוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o capítulo com duas pedras impuras que formavam uma kirá, às quais se acrescenta, de cada lado, uma pedra nova — dividindo cada uma das originais em metade impura e metade pura —, e a regra de que, removidas as pedras novas e puras, as originais retornam à sua impureza plena

Duas pedras que se fizeram [em] kirá e se tornaram impuras: apoiou-se a esta uma pedra daqui, e a essa uma pedra dali — a metade desta é impura e a metade é pura, e a metade dessa é impura e a metade é pura. Retiraram-se as puras, estas retornaram à sua impureza.

Fecha o capítulo um caso que retoma, de modo inverso, o raciocínio da mishná anterior. Partimos de duas pedras que já formavam uma kirá impura — unidas com barro, como se ensinou na primeira mishná deste perek. Se, a cada uma dessas duas pedras originais, se acrescenta uma pedra nova de um dos lados externos, formam-se, na prática, três kirot lado a lado: a original, no meio, permanece impura por inteiro; e cada uma das duas pedras originais passa a servir, ao mesmo tempo, à kirá impura do meio e a uma nova kirá externa, ainda pura, formada com a pedra recém-acrescentada. Por isso, cada uma das duas pedras originais se divide funcionalmente ao meio: a metade voltada para o centro, que continua a servir à kirá impura original, permanece impura; a metade voltada para fora, que passa a servir à nova kirá externa, ainda não contaminada, torna-se pura — exatamente pelo mesmo princípio de divisão funcional da pedra do meio explicado na mishná anterior. Mas, se as duas pedras novas e puras forem removidas, desfazem-se as kirot externas, e as duas pedras originais deixam de ter qualquer parte que sirva a uma estrutura pura; elas retornam, então, à sua impureza plena e original, como no início — encerrando, assim, o conjunto de leis sobre pedras, pitputin e kirot improvisadas com que se abriu o Perek Vav.

שְׁתֵּי אֲבָנִים שֶׁעֲשָׂאָם כִּירָה וְנִטְמְאוּ, סָמַךְ לָזוֹ אֶבֶן אַחַת מִכָּאן, וְלָזוֹ אֶבֶן אַחַת מִכָּאן, חֶצְיָהּ שֶׁל זוֹ טְמֵאָה וְחֶצְיָהּ טְהוֹרָה, וְחֶצְיָהּ שֶׁל זוֹ טְמֵאָה וְחֶצְיָהּ טְהוֹרָה. נִטְּלוּ טְהוֹרוֹת, חָזְרוּ אֵלּוּ לְטֻמְאָתָן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 6:4
שתי אבנים, זה מבואר, וזה שהוא בעבור ששם בצדה אחת טהורה…

“Duas pedras” — isto está explicado; e é porque, por ter colocado ao seu lado uma [pedra] pura, a metade dela que se volta para a pura é pura, e a metade que se volta para a impura é impura, como já precedeu; e o mesmo vale para a outra pedra, por causa da [pedra] pura que se acrescentou ao seu lado. E todas essas pedras estão rebocadas com barro, como já precedeu no início do capítulo, quando disse: “uma com barro e uma sem barro, é pura.”

Bartenura · Keilim 6:4
סָמַךְ לָזוֹ אֶבֶן אַחַת מִכָּאן וְלָזוֹ אֶבֶן אַחַת מִכָּאן. וְנִמְצְאוּ עַכְשָׁיו שָׁלֹשׁ כִּירוֹת…

Sobre “apoiou-se a esta uma pedra daqui, e a essa uma pedra dali”: e agora se formaram três kirot — a do meio é impura, e as externas são puras. Por isso, das duas pedras do meio, a metade desta e a metade dessa, do lado que dá para a pura, é pura, pois serve à pura.

Sobre “retiraram-se as puras externas”: as [pedras] do meio retornam à sua impureza como no início, e todas elas são impuras, pois já não há aqui nada que sirva à pura.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Vav · סִיּוּם הַפֶּרֶק

סָמַךְ לָזוֹ אֶבֶן אַחַת מִכָּאן, וְלָזוֹ אֶבֶן אַחַת מִכָּאן

Com esta quarta mishná, encerra-se o Perek Vav de Massechet Keilim, um capítulo breve mas tecnicamente denso, dedicado a estruturas improvisadas de apoio à panela — pitputin, pregos e pedras avulsas — que complementam as leis do forno e da kirá propriamente ditos, já tratadas no Perek Hei.

O capítulo abriu (6:1) com os pitputin de barro fincados na terra, sempre impuros por serem unidos com barro; com os pregos de metal, sempre puros por equivalerem ao próprio solo; e com a kirá de duas pedras unidas com barro, impura segundo a lei aceita, mas que Rabi Yehudá considerava pura até que se lhe somasse uma terceira pedra ou o apoio de uma parede. A mishná 6:2 tratou da pedra avulsa usada junto a um forno, a uma kirá ou a um kupach — sempre impura por unir-se a um vaso suscetível —, e da mesma pedra usada junto a outra pedra, a uma rocha ou a uma parede — sempre pura, por unir-se a algo sem “demolição”; trouxe ainda os exemplos históricos da kirá dos nazireus, junto à rocha, no pátio das mulheres do Templo, e da kirá contínua dos açougueiros, em que a impureza de uma pedra não contamina as demais. A mishná 6:3 desenvolveu o caso mais elaborado do capítulo: três pedras que formam duas kirot compartilhando uma pedra central, com a divisão funcional dessa pedra entre impura e pura, as regras de sua confirmação plena para um lado ou outro, e o processo de remoção e devolução da pedra do meio, que pode exigir novo aquecimento se for rebocada com barro. E esta última mishná (6:4) fechou o capítulo com o caso inverso: duas pedras já impuras, às quais se somam, de cada lado, pedras novas e puras, dividindo cada pedra original ao meio — e a regra de que, removidas as pedras novas, as originais retornam à sua impureza plena.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Zayin, que continuará a explorar, com o mesmo rigor casuístico, as leis dos vasos de barro e de outros materiais — ao longo dos vinte e quatro perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.