Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Dalet · Mishná 4 de 4 — última do capítulo

O vaso de três bordas, e desde quando o barro cozido recebe impureza

כְּלִי חֶרֶשׂ שֶׁיֶּשׁ לוֹ שָׁלֹשׁ שְׂפָיוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o capítulo com o vaso de três bordas de alturas diferentes, cuja borda mais alta define o limite do interior suscetível à impureza, e com a regra geral do início da suscetibilidade dos vasos de barro, a partir da cozedura no forno

Um utensílio de barro que tem três bordas: se a interna se sobressai, tudo é puro. Se a externa se sobressai, tudo é impuro. Se a do meio se sobressai: dela para dentro, é impuro; dela para fora, é puro. Se eram iguais: Rabi Yehudá diz que se divide a [borda] do meio; e os sábios dizem que tudo é puro. Utensílios de barro: a partir de quando recebem impureza? A partir de quando são cozidos no forno — e esse é o término de sua fabricação.

Esta última mishná do Perek Dalet trata de um vaso de barro cuja boca não termina numa borda única, mas em três bordas concêntricas e sucessivas — como sucede em certos vasos de fabricação mais elaborada —, com um pequeno espaço de ar entre cada uma delas. Como um vaso de barro só se torna impuro pelo seu espaço interno, e não pelo lado externo, a regra depende de qual das três bordas é a mais alta, pois é ela que determina até onde vai o “interior” do vaso: se a mais alta é a borda interna, tudo o que fica além dela, para fora, é tratado como exterior do vaso e permanece puro, ainda que a impureza atinja o ar acima dele; apenas o espaço dentro da borda interna é suscetível. Se, ao contrário, a mais alta é a borda externa, todo o espaço entre as três bordas passa a ser considerado interior do vaso, e tudo se torna impuro quando a impureza alcança esse ar. Se é a borda do meio a mais alta, o limite passa por ela: o que está dela para dentro é impuro, e o que está dela para fora é puro. Por fim, se as três bordas têm exatamente a mesma altura, não havendo nenhuma mais alta que as demais, Rabi Yehudá propõe dividir a questão, considerando apenas a borda do meio como fronteira; mas os sábios discordam e purificam tudo, exceto a borda específica em cujo ar caiu a impureza — e a lei segue os sábios. A mishná fecha o capítulo, e todo o bloco iniciado no Perek Guimel sobre a suscetibilidade dos vasos de barro, com uma regra geral e fundamental: um vaso de barro só se torna suscetível à impureza a partir do momento em que é cozido no forno, pois antes disso é mero barro modelado, sem o estatuto de vaso; e essa cozedura, e não os retoques posteriores de acabamento, é que constitui o verdadeiro término de sua fabricação.

כְּלִי חֶרֶשׂ שֶׁיֶּשׁ לוֹ שָׁלֹשׁ שְׂפָיוֹת, הַפְּנִימִית עוֹדֶפֶת, הַכֹּל טָהוֹר. הַחִיצוֹנָה עוֹדֶפֶת, הַכֹּל טָמֵא. הָאֶמְצָעִית עוֹדֶפֶת, מִמֶּנָּה וְלִפְנִים, טָמֵא. מִמֶּנָּה וְלַחוּץ, טָהוֹר. הָיוּ שָׁווֹת, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, חוֹלְקִין הָאֶמְצָעִית. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, הַכֹּל טָהוֹר. כְּלֵי חֶרֶס, מֵאֵימָתַי מְקַבְּלִין טֻמְאָה, מִשֶּׁיִּצָּרְפוּ בַכִּבְשָׁן, וְהִיא גְמַר מְלַאכְתָּן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 4:4
דע ששפיות וזר ולזביז ודופן ענין כולן בזאת המסכת שוה…

Rambam explica que “sfayot” (“bordas”), “zer”, “lizbez” e “dofen” designam, todos, no âmbito deste tratado, a mesma coisa: são aros elevados sobre a superfície do vaso, isto é, sobre a superfície da borda do recipiente; e seus nomes variam conforme o formato inicial do vaso — a borda de um vaso quadrado se chama “lizbez”; a de formato redondo se chama “sfá” (“borda”); e nos demais formatos, “dofen” (“parede”); e a borda pequena em altura se chama “zer”. E já se sabe que um vaso de barro só se torna impuro pelo seu ar interno, isto é, por dentro, e não por fora. Quando a borda interna era a mais alta, e o sheretz alcançava seu interior, torna-se impuro apenas tudo o que está dentro dela; e tudo o que fica fora dela, entre essas duas bordas, é puro — e é esse o sentido de “tudo é puro”: tudo o que está fora dela. E se a borda externa era a mais alta, então, quando o sheretz alcança seu ar, torna-se impuro tudo o que está entre todas as bordas, tanto alimentos quanto líquidos. Se a borda do meio se sobressaía, e o sheretz alcançava seu ar, já se torna impuro o que está dentro dela, mas não o que está fora dela. E quanto a “a partir de quando são cozidos no forno”: quer dizer, a partir de quando são cozidos e saem da condição de barro cru; pois antes de cozidos, são vasos de terra e não recebem impureza, como se explicará (Shabat 58a). E disse ainda “e esse é o término de sua fabricação”: pois, nos demais vasos, há etapas que constituem o término de sua fabricação, e eles só se tornam suscetíveis à impureza quando essas etapas se completam, como no caso dos vasos de metal, seu polimento e seu exame; mas os vasos de barro, assim que são cozidos, já se tornam suscetíveis, e nisso se completa sua fabricação — e ainda que, depois disso, se reboque o vaso com barro, se nivele sua borda, e se remova, com um instrumento de ferro, o excesso de barro formado durante a cozedura, nada disso impede que ele receba impureza, pois sua fabricação já se completou apenas com a cozedura, e tudo o que se faz depois disso é um acréscimo de que ele não necessita. E a lei não segue Rabi Yehudá, que diz que se divide a borda do meio, mas sim: tudo cujo ar se tornou impuro é impuro, e o restante é puro.

Bartenura · Keilim 4:4
שְׂפָיוֹת · מִלְּשׁוֹן שָׂפָה. שֶׁיֵּשׁ לוֹ שָׁלֹשׁ שְׂפָתוֹת לְפִיו…

Sobre “sfayot”: do termo “safá” (borda); o vaso tem três bordas em sua boca, com espaço de ar entre uma borda e outra.

Sobre “se a interna se sobressai, tudo é puro”: tudo o que fica fora dela é considerado como o exterior do vaso, e um vaso de barro não se torna impuro por seu exterior; mas o que está dentro da borda interna é impuro.

Sobre “se a externa se sobressai, tudo é impuro”: porque o que fica fora dela é como o exterior do vaso, e o que fica dentro dela é considerado interior; e da mesma forma, se a do meio é a mais alta, dela para fora é considerado exterior, e para dentro é considerado interior — pois o vaso se enche até a borda mais alta.

Sobre “se eram iguais”: quando nenhuma das bordas se sobressai sobre a outra.

Sobre “e os sábios dizem que tudo é puro”: apenas a borda em cujo ar caiu a impureza é impura, e todo o restante é puro; e assim é a lei.

Sobre “a partir de quando são cozidos no forno”: antes de serem cozidos, são apenas vasos de terra e não se tornam impuros.

Sobre “e esse é o término de sua fabricação”: ainda que, após a cozedura no forno, precisem de reparo — rebocá-los, alisá-los e nivelar suas bordas —, mesmo assim, a partir de quando são cozidos no forno, já se considera concluída sua fabricação, e tornam-se suscetíveis à impureza.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Dálet · סִיּוּם הַפֶּרֶק

מִשֶּׁיִּצָּרְפוּ בַכִּבְשָׁן, וְהִיא גְמַר מְלַאכְתָּן

Com esta quarta mishná, encerra-se o Perek Dálet de Massechet Keilim, dedicado às fronteiras físicas do vaso de barro rompido — o que ainda conta como “ficar em pé”, o que separa uma gistrá de um vaso reconhecível, e, por fim, o momento exato em que um vaso de barro passa a existir como tal perante a lei da impureza.

O capítulo abriu (4:1) com o caco impedido de ficar em pé por causa de sua alça ou de uma ponta aguda — puro mesmo depois de removidos esses defeitos, segundo a opinião anônima, contra Rabi Yehudá — e com o jarro rompido que ainda recebe apoiado sobre as paredes, ou partido como duas gamelas, disputado entre Rabi Yehudá e os sábios. A mishná 4:2 fixou a medida exata de fragilidade que torna puro o jarro abalado — a incapacidade de ser transportado com meio-cav de figos secos —, e explicou, pelo princípio de que “não há remanescente de remanescente”, por que a gistrá que perdeu a capacidade de reter líquidos permanece pura mesmo retendo ainda alimentos sólidos. A mishná 4:3 definiu formalmente a gistrá como toda peça sem alças, e desenvolveu a regra da medida de azeitona entre pontas salientes, determinando quando essas pontas se tornam impuras por contato e quando também pelo ar — regra igualmente válida quando a gistrá está apoiada sobre o fundo ou tombada de lado —, encerrando com os fundos pontiagudos de korfiot e copos sidônios, suscetíveis à impureza por terem sido fabricados assim desde o início. Por fim, esta mishná fechou o capítulo com o vaso de três bordas de alturas distintas, cuja borda mais alta define o limite do “interior” suscetível à impureza — com a disputa entre Rabi Yehudá e os sábios quando as três bordas são iguais —, e com a regra geral e fundamental de que todo vaso de barro só se torna suscetível à impureza a partir do momento em que é cozido no forno, o verdadeiro término de sua fabricação.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Hei, que continuará a explorar, com o mesmo rigor casuístico, as leis dos vasos de barro e de outros materiais — ao longo dos vinte e cinco perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.