Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Yud-Alef · Mishná 9 de 9 — última do capítulo

O brinco em forma de panela e lentilha, e o encerramento do Perek Yud-Alef

נֶזֶם שֶׁהוּא עָשׂוּי כִּקְדֵרָה מִלְּמַטָּן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

Encerra o capítulo com o brinco composto de duas partes — uma em forma de panela, outra em forma de lentilha — que, ao se separarem, permanecem impuras cada uma por razão distinta; o ganchinho de fixação é puro; e o brinco em forma de cacho de uvas, ao se desmontar em grãos, torna-se inteiramente puro

Um brinco feito como panela por baixo e como lentilha por cima, e se separou: [a parte] como panela é impura por ser vaso com receptáculo, e [a parte] como lentilha é impura por si mesma. O ganchinho é puro. [O brinco] feito à semelhança de um cacho, e se separou, é puro.

A última mishná do capítulo retorna aos ornamentos femininos, detalhando dois modelos de brincos compostos. O primeiro tem duas partes distintas: uma inferior, oca à semelhança de uma panela — com verdadeiro receptáculo —, e uma superior, um caroço sólido de ouro ou prata em forma de lentilha. Quando essas duas partes se separam, ambas permanecem impuras, mas por razões diferentes: a “panela” por ter, ela mesma, um receptáculo — e não por ser ornamento de mulher, pois desmontada já não serve como adorno —, e a “lentilha” por ter nome próprio como peça reconhecível. O tzinorá — a haste curva, em forma de gancho, que atravessa o furo da orelha ou do nariz para prender o brinco — é puro, por não ter nome próprio independente. O segundo modelo, o brinco em forma de cacho de uvas, é composto de quatro ou cinco pequenos grãos de ouro empilhados uns sobre os outros; quando esses grãos se separam, todos se tornam puros, pois nenhum grão isolado tem nome próprio, nenhum serve mais como ornamento desmontado, e nenhum possui receptáculo que justifique a impureza — encerrando assim o capítulo com o princípio recorrente de que um vaso de metal só recebe impureza sob as condições já estabelecidas: ter nome próprio, ou ter receptáculo, ou servir de fato ao uso humano.

נֶזֶם שֶׁהוּא עָשׂוּי כִּקְדֵרָה מִלְּמַטָּן וְכָעֲדָשָׁה מִלְמַעְלָן, וְנִפְרַק, כִּקְדֵרָה טָמֵא מִשּׁוּם כְּלִי בֵית קִבּוּל, וְכָעֲדָשָׁה טָמֵא בִפְנֵי עַצְמוֹ. צִנּוֹרָא, טְהוֹרָה. הֶעָשׂוּי כְּמִין אֶשְׁכּוֹל, וְנִפְרַק, טָהוֹר:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 11:9
כקדירה מלמטה. שיהיה לו בנין חלול כמו הקדרה ועל ראשו גרעין אחד מקשיי דומה לעדשה…

Sobre “como panela por baixo”: que tenha uma construção oca como a panela, e em sua parte superior um único caroço rígido, semelhante a uma lentilha, nesta forma; e quando essa “lentilha” se separa da “panela”, a “panela” se torna um vaso que tem receptáculo, sem dúvida, e ela é impura por ser vaso — não por ser ornamento de mulher — e também a “lentilha” será impura, por ter nome próprio.

E o tzinorá é a extremidade da haste do brinco que entra no furo da orelha ou do nariz; e por ser torta, chamam-na tzinorá — traduzido “seus garfos, seus tzinorot”.

E disse “feito como um cacho”: quer dizer um brinco feito à semelhança de um cacho, isto é, quando há caroços de ouro reunidos à semelhança de um cacho de uvas; e quando esses caroços se separam, não se tornam impuros, pois já não são ornamento de mulher, e nenhum desses caroços tem nome próprio, e tampouco há neles receptáculo por causa do qual se tornassem impuros — e nenhum vaso de metal se torna impuro senão nas condições já mencionadas.

Bartenura · Keilim 11:9
כִּקְדֵרָה מִלְּמַטָּה. רָחָב מִלְּמַטָּה וְיֵשׁ לוֹ בֵית קִבּוּל…

Sobre “como panela por baixo”: largo por baixo, e tem receptáculo.

Sobre “e como lentilha por cima”: no alto do brinco há um caroço de ouro ou de prata, feito como lentilha.

Sobre “e se separou”: a lentilha, da panela.

Sobre “a panela é impura”: pois tem receptáculo — e não por ser ornamento de mulher, pois ela não é própria para ornamento tal como está.

Sobre “e a lentilha é impura”: pois tem nome próprio.

Sobre “tzinorá”: a extremidade do brinco que entra no furo da orelha ou no furo do nariz. E por ser feito como um garfo, chama-se tzinorá; traduzido “seus garfos”, “seus tzinoriata”.

Sobre “é pura”: pois não tem nome próprio.

Sobre “feito como um cacho”: um brinco feito de quatro ou cinco grãos, um sobre o outro, à semelhança de um cacho.

Sobre “e se separou, é puro”: pois nenhum dos grãos tem nome próprio, e ele já não serve para uso depois de separado.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Yud-Alef · סיום הפרק

כְּלֵי מַתָּכוֹת

Com esta nona mishná, encerra-se o Perek Yud-Alef de Massechet Keilim, o primeiro capítulo dedicado inteiramente aos vasos de metal — a segunda grande divisão do tratado, após os dez capítulos sobre vasos de barro que abriram Seder Tehorot.

O capítulo abriu (11:1) com o princípio geral que distingue o metal do barro: tanto os vasos simples quanto os receptáculos de metal recebem impureza, com base no versículo sobre o espólio de Midian; e estabeleceu a regra da refusão, pela qual vasos de metal quebrados e refeitos retornam à impureza antiga, restrita por Rabban Shimon ben Gamliel à impureza do cadáver. A mishná 11:2 acrescentou o critério do nome próprio, excetuando as peças fixas à porta e ao chão. A mishná 11:3, a mais longa do capítulo, distinguiu os “esboços” de vasos de metal — lingotes, discos, chapas, restos de fabricação — dos vasos feitos de fragmentos já usados, com a disputa de Bet Shamai e Bet Hilel sobre pregos de origem incerta. A mishná 11:4 tratou da mistura de ferro puro e impuro pela regra da maioria, do trinco da porta e da disputa entre Rabi Yehoshua e Rabi Tarfon sobre seu manuseio em Shabat. As mishnayot 11:5 a 11:7 percorreram os arreios de animais, os instrumentos de fiação e de música, e o chifre-trombeta e a candeia articulados, sempre voltando ao mesmo eixo: nome próprio, receptáculo, e a união de partes que devolve a impureza ao conjunto. A mishná 11:8 reuniu o elmo, as armas de guerra e os ornamentos femininos, com o caso detalhado do colar de contas metálicas. E esta última mishná, 11:9, fechou o capítulo com o brinco composto de panela e lentilha, e o brinco em cacho de uvas que se desmancha em grãos puros.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Yud-Bet, que continuará explorando as leis dos vasos de metal — joias, selos e outros pequenos objetos — ao longo dos dezenove perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.