Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Yud-Alef · Mishná 1 de 9

Vasos de metal, a quebra e a refundição

כְּלֵי מַתָּכוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

Abre o Perek Yud-Alef com a regra geral dos vasos de metal — simples e receptáculos são igualmente suscetíveis à impureza; a quebra os purifica, mas se voltam a ser vaso, retornam à impureza antiga por decreto dos sábios, restrito por Rabban Shimon ben Gamliel apenas à impureza do cadáver

Vasos de metal — tanto os simples quanto os que recebem — são impuros. Se se quebraram, tornaram-se puros. Se voltou e fez deles um vaso, voltaram à sua impureza antiga. Rabban Shimon ben Gamliel diz: não para toda impureza, mas apenas para a impureza do cadáver.

Encerrados os dez primeiros perakim, dedicados aos vasos de barro e aos materiais que se lhes assemelham, a Mishná abre agora a segunda grande parte de Massechet Keilim: as leis dos vasos de metal (kelei matachot). A diferença fundamental em relação ao barro aparece já na primeira frase: enquanto o vaso de barro só recebe impureza quando tem um receptáculo (bet kibul), o vaso de metal recebe impureza tanto na forma de pashut — utensílio simples, chato, sem cavidade, como uma faca ou um espeto — quanto na forma de mekabel, que contém algo. Essa equiparação decorre do versículo sobre o espólio de Midian (Bamidbá 31:23): “todo objeto que passa pelo fogo” — a expressão “todo objeto” inclui ambos os tipos. A mishná segue com a lei da quebra: o vaso de metal quebrado torna-se puro, pois deixou de ser vaso; mas se, a partir de seus fragmentos fundidos, se fizer um vaso novo, os sábios decretaram que ele retorna à impureza que tinha antes de se quebrar — um decreto preventivo, para que ninguém pense que a quebra e a refusão purificam como a imersão no mikvê, a ponto de usar esses vasos, no próprio dia, para teruma e coisas sagradas, sem aguardar o pôr do sol exigido de todo objeto que se purifica. Rabban Shimon ben Gamliel restringe esse decreto: para ele, só se aplica à impureza contraída do cadáver, que exige a aspersão das águas de purificação no terceiro e no sétimo dia — pois só nesse caso haveria risco de as pessoas, impacientes com a espera, preferirem quebrar e refundir o vaso a aguardar o processo completo; a lei, porém, não segue Rabban Shimon ben Gamliel.

כְּלֵי מַתָּכוֹת, פְּשׁוּטֵיהֶן וּמְקַבְּלֵיהֶן טְמֵאִין. נִשְׁבְּרוּ, טָהָרוּ. חָזַר וְעָשָׂה מֵהֶן כְּלִי, חָזְרוּ לְטֻמְאָתָן הַיְשָׁנָה. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, לֹא לְכָל טֻמְאָה, אֶלָּא לְטֻמְאַת הַנָּפֶשׁ:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 11:1
בעבור שדבר בדיני כלי חרס ובדומה להן בחלק הראשון והן העשרה פרקים הקודמים התחיל בזה החלק בדיני כלי מתכות…

Por ter tratado das leis dos vasos de barro e do que se lhes assemelha na primeira parte — que são os dez capítulos precedentes —, começou nesta parte as leis dos vasos de metal. E porque o Altíssimo disse, sobre os vasos de metal (Bamidbá 31:23): “todo objeto que passa pelo fogo”, aprendemos de sua expressão “todo objeto” que inclui tanto os simples quanto os que recebem; por isso, seus utensílios simples se tornam impuros, como as facas, os espetos e o que se lhes assemelha.

E que eles voltam à sua impureza depois de quebrados, quando foram fundidos e deles se fizeram vasos novos, e não se purificaram pela imersão no mikvê — e isto é um decreto rabínico, para que não se torne impuro um vaso a partir de vasos de metal, e o fundam e façam dele outro vaso nesse mesmo dia, sendo ele puro pela Torá sem dúvida alguma, pois, com a perda do vaso, a impureza foi removida dele, e usem esse vaso nesse mesmo dia para a teruma e para as coisas sagradas — o que é permitido.

E o que pensa poderia pensar e dizer que a quebra do vaso o purifica, e que a imersão também o purifica, de modo que veríamos: quando o vaso se quebra e se faz dele outro vaso, eis que ele é puro nesse mesmo dia; e também, quando um vaso se purifica no mikvê, é puro nesse mesmo dia, e o usaria para a teruma e para as coisas sagradas — sem saber que o vaso precisaria do pôr do sol, como todo impuro que se purifica no mikvê. E este é o sentido de dizerem: decreto, para que não digam que a imersão do mesmo dia é válida.

E Rabban Shimon ben Gamliel não decreta este decreto senão nos vasos que se tornaram impuros por impureza do cadáver, por esta exigir a aspersão do terceiro e do sétimo dia — e não é lei como Rabban Shimon ben Gamliel.

Bartenura · Keilim 11:1
כְּלֵי מַתָּכוֹת פְּשׁוּטֵיהֶן טְמֵאִים. דְּלֹא אִתַּקַּשׁ לְשַׂק…

Sobre “vasos de metal, seus utensílios simples são impuros”: porque não se equipara [o vaso de metal] ao saco [de pano, cuja impureza a Torá restringe aos que recebem].

Sobre “voltaram à sua impureza antiga”: os sábios decretaram sobre os vasos de metal que foram fundidos e deles se fizeram vasos novos, que voltassem à sua impureza antiga — decreto para que não digam que a quebra dos vasos os purifica e que a imersão os purifica. Assim como a quebra deles não requer o pôr do sol, pois usam-nos no mesmo dia em que se tornaram impuros — quebraram-nos e voltaram a fazê-los novos —, também a imersão deles não requereria o pôr do sol, e chegar-se-ia a usar teruma e coisas sagradas com vasos cujo sol ainda não se pôs.

Sobre “não para toda impureza, mas apenas para a impureza do cadáver”: Rabban Shimon ben Gamliel entende que a razão pela qual decretaram sobre os vasos de metal que voltassem à sua impureza antiga é apenas um decreto para que não se esqueça a lei das águas de purificação (mei chatat) a respeito dos vasos — pois não há pessoa que espere sete dias, mas antes os quebra imediatamente e volta a fazê-los novos; por isso, não decretaram senão para a impureza do cadáver somente, que requer a aspersão do terceiro e do sétimo dia. E não é lei como Rabban Shimon ben Gamliel.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.