Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Alef · Mishná 8 de 9

De dentro da muralha até o átrio dos sacerdotes

לִפְנִים מִן הַחוֹמָה מְקֻדָּשׁ מֵהֶם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Seis novos graus de santidade concêntricos, cada um excluindo uma categoria adicional de pessoas: dentro da muralha de Jerusalém, o Monte do Templo, o Chel, o átrio das mulheres, o átrio de Israel, e o átrio dos sacerdotes

Dentro da muralha [de Jerusalém] é mais sagrado que elas, pois ali se come as coisas sagradas leves e o segundo dízimo. O Monte do Templo é mais sagrado que ele, pois zavim e zavot, menstruadas e parturientes não entram ali. O Chel é mais sagrado que ele, pois nem gentios nem impuros por morto entram ali. O átrio das mulheres é mais sagrado que ele, pois o tvul yom não entra ali, ainda que não seja obrigado a oferenda por isso. O átrio de Israel é mais sagrado que ele, pois quem carece de expiação não entra ali, e é obrigado a oferenda por isso. O átrio dos sacerdotes é mais sagrado que ele, pois israelitas não entram ali senão em suas necessidades: para a imposição de mãos, para o abate, e para o movimento ritual.

Esta mishná, a mais extensa do capítulo, percorre seis círculos concêntricos de santidade crescente dentro de Jerusalém e do Templo, cada um deles definido pela categoria de impuros que dele é excluída. Dentro da muralha da própria Jerusalém já se pode comer as “coisas sagradas leves” (kodashim kalim) e o segundo dízimo — alimentos que não podem ser consumidos em nenhum outro lugar. Subindo um grau, o Monte do Templo exclui zavim, zavot, menstruadas e parturientes. Mais adentro, o Chel (a área entre o soreg e o pátio) exclui também os gentios e os impuros por contato com um morto. Depois vem o átrio das mulheres, do qual o tvul yom é excluído — ainda que sua entrada indevida não acarrete a obrigação de trazer uma oferenda expiatória (chatat). Mais adentro ainda, o átrio de Israel exclui o mechusar kipurim, cuja entrada indevida já acarreta essa obrigação. E, no grau mais elevado desta série, o átrio dos sacerdotes é vedado até aos israelitas comuns, exceto quando sua presença ali é estritamente necessária para os três atos rituais que a lei lhes reserva mesmo nesse espaço sacerdotal: a imposição das mãos sobre a cabeça de seu sacrifício, o abate do animal, e o gesto de movimentação (tenufá) de certas oferendas.

לִפְנִים מִן הַחוֹמָה מְקֻדָּשׁ מֵהֶם, שֶׁאוֹכְלִים שָׁם קָדָשִׁים קַלִּים וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי. הַר הַבַּיִת מְקֻדָּשׁ מִמֶּנּוּ, שֶׁאֵין זָבִים וְזָבוֹת, נִדּוֹת וְיוֹלְדוֹת נִכְנָסִים לְשָׁם. הַחֵיל מְקֻדָּשׁ מִמֶּנּוּ, שֶׁאֵין גּוֹיִם וּטְמֵא מֵת נִכְנָסִים לְשָׁם. עֶזְרַת נָשִׁים מְקֻדֶּשֶׁת מִמֶּנּוּ, שֶׁאֵין טְבוּל יוֹם נִכְנָס לְשָׁם, וְאֵין חַיָּבִים עָלֶיהָ חַטָּאת. עֶזְרַת יִשְׂרָאֵל מְקֻדֶּשֶׁת מִמֶּנָּה, שֶׁאֵין מְחֻסַּר כִּפּוּרִים נִכְנָס לְשָׁם, וְחַיָּבִין עָלֶיהָ חַטָּאת. עֶזְרַת הַכֹּהֲנִים מְקֻדֶּשֶׁת מִמֶּנָּה, שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל נִכְנָסִים לְשָׁם אֶלָּא בִשְׁעַת צָרְכֵיהֶם, לִסְמִיכָה לִשְׁחִיטָה וְלִתְנוּפָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 1:8
לפנים מן החומה. ירמוז אל חומת ירושלים…

Rambam explica que “dentro da muralha” refere-se à muralha de Jerusalém, e que ali se come o primogênito de rebanho (que é uma das coisas sagradas leves), conforme “perante o Eterno teu Deus o comerás, ano após ano, no lugar que o Eterno escolher”, e o segundo dízimo, conforme “e darás o dinheiro por tudo o que tua alma desejar — em gado, em rebanho, em vinho, em bebida forte, e em tudo o que tua alma pedir; e comerás ali”.

Rambam então expõe a estrutura tripla que organiza toda esta mishná, remontando ao acampamento de Israel no deserto: o acampamento de Israel (as quatro tribos ao redor), o acampamento dos levitas (“e ao redor do tabernáculo acamparão”), e o acampamento da Divina Presença (o átrio da Tenda da Reunião e seu interior). Em graus correspondentes para as gerações posteriores: da porta de Jerusalém até o Monte do Templo é o acampamento de Israel; da porta do Monte do Templo até a porta do átrio, isto é, o portão de Nicanor, é o acampamento dos levitas; e da porta do átrio para dentro é o acampamento da Divina Presença. Rambam cita a Tosefta, que estabelece essa correspondência tríplice explicitamente, e então desenvolve o raciocínio talmúdico: do versículo sobre o metzora, zav e impuro por morto (“e enviarão do acampamento todo leproso, e todo zav, e todo impuro por pessoa [morta]”), poder-se-ia pensar que os três seriam enviados para o mesmo lugar; mas, como se ensina especificamente sobre o metzora “só habitará, fora do acampamento será sua morada”, e o metzora tem impureza mais grave que o zav (pois contamina por entrada), aprende-se que, quanto mais grave a impureza de alguém, mais distante é seu envio. Por essa regra, afastou-se o metzora para fora dos três acampamentos, isto é, para fora de Jerusalém; zav, zavá, menstruada e parturiente, para fora de dois acampamentos, isto é, do Monte do Templo; e o impuro por morto apenas do acampamento da Divina Presença, isto é, do Monte do Templo para dentro — pois a impureza de morto não contamina sob pedra pesada, enquanto zav, zavá, menstruada e parturiente contaminam sob pedra pesada.

Sobre a distinção entre o tvul yom (excluído do átrio das mulheres, mas sem culpa de chatat) e o mechusar kipurim (excluído do átrio de Israel, com culpa de chatat), Rambam explica que a razão é a diferença de gravidade: o tvul yom está proibido na teruma, e o mechusar kipurim é permitido nela — por isso a exclusão do mechusar kipurim, sendo em relação a um espaço mais sagrado (o átrio de Israel), é mais grave e acarreta a obrigação de oferenda. Cita ainda a Tosefta: se metzoraim entram dentro da muralha [de Jerusalém], recebem quarenta chicotadas; se zavim, zavot, menstruadas e parturientes entram no Monte do Templo, recebem oitenta chicotadas (isto é, duas violações).

Bartenura · Keilim 1:8
לִפְנִים מִן הַחוֹמָה. מֵחוֹמַת יְרוּשָׁלַיִם…

Bartenura explica: “dentro da muralha” refere-se à muralha de Jerusalém. Sobre “que ali se comem as coisas sagradas leves e o segundo dízimo”, cita os versículos correspondentes de Devarim.

Sobre “o Monte do Templo”: media quinhentos côvados por quinhentos côvados, e nele estava construído o Templo; dali começa o acampamento dos levitas, estendendo-se até o portão de Nicanor; do portão de Nicanor para dentro é o acampamento da Divina Presença; e do Monte do Templo para fora, até a muralha de Jerusalém, é o acampamento de Israel. Sobre “pois zavim e zavot, menstruadas e parturientes não entram ali”, Bartenura desenvolve o mesmo raciocínio de Rambam sobre a fonte bíblica “e enviarão do acampamento”, concluindo: o metzora, cuja impureza é a mais grave, é enviado para fora de Jerusalém (equivalente ao acampamento de Israel); zav, zavá, menstruada e parturiente, cuja impureza é mais grave que a de morto (pois formam objeto de deitar e de sentar, e contaminam sob pedra pesada), são enviados do Monte do Templo, equivalente ao acampamento dos levitas; e o impuro por morto é permitido no Monte do Templo, sendo enviado apenas a partir do portão de Nicanor para dentro, equivalente ao acampamento da Divina Presença.

Sobre “o Chel”: dentro da muralha do Monte do Templo havia um muro de dez palmos de altura, chamado soreg, e para dentro dele, o Chel, de dez côvados. Sobre “pois nem gentios nem impuros por morto entram ali”: ainda que os sábios tenham decretado que os gentios sejam como zavim para todos os efeitos, quanto ao envio dos acampamentos não decretaram sobre eles senão como impuros por morto; e essa exclusão dos impuros por morto a partir do Chel é apenas por decreto rabínico, pois, pela lei da Torá, seria permitido até mesmo no átrio das mulheres, já que toda essa área, até o átrio de Israel onde fica o portão de Nicanor, é equivalente ao acampamento dos levitas.

Sobre “o átrio das mulheres”: ficava dentro do Chel, com cento e trinta e cinco côvados de comprimento por cento e trinta e cinco de largura. Sobre “pois o tvul yom não entra ali”: Yehoshafat e seu tribunal decretaram que o tvul yom não entrasse no átrio das mulheres, apoiando-se num versículo de Divrei HaYamim interpretado no Talmud como referência a essa nova disposição. E decretaram sobre o tvul yom, mas não sobre o mechusar kipurim, porque o tvul yom está proibido na teruma e o mechusar kipurim é permitido nela — e quanto mais grave a impureza de alguém, mais grave seu envio.

Sobre “o átrio de Israel”: ficava dentro do átrio das mulheres, com cento e trinta e cinco côvados de comprimento por onze de largura; e o átrio dos sacerdotes tinha as mesmas medidas, separados por fileiras de degraus. Sobre “pois quem carece de expiação não entra ali”: poderia ter dito também que nenhuma pessoa pura entra ali sem antes se imergir, como se ensina em Tamid. Sobre “e é obrigado a oferenda por isso”: os impuros que ali entraram por engano.

Sobre “para a imposição de mãos”: colocar a mão sobre a cabeça de seu sacrifício, o que só é possível pelo próprio dono, não por seu enviado. Sobre “para o abate”: pois o abate é válido mesmo feito por um leigo; e, embora fosse possível fazê-lo por sacerdotes, ou mesmo permitir ao leigo abater no átrio de Israel, ainda assim não proibiram o israelita de entrar no átrio dos sacerdotes para abater seu sacrifício. Sobre “e para o movimento ritual”: quando o sacerdote coloca sua mão sob a mão do dono e realiza o movimento (tenufá).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.