Dentro da muralha [de Jerusalém] é mais sagrado que elas, pois ali se come as coisas sagradas leves e o segundo dízimo. O Monte do Templo é mais sagrado que ele, pois zavim e zavot, menstruadas e parturientes não entram ali. O Chel é mais sagrado que ele, pois nem gentios nem impuros por morto entram ali. O átrio das mulheres é mais sagrado que ele, pois o tvul yom não entra ali, ainda que não seja obrigado a oferenda por isso. O átrio de Israel é mais sagrado que ele, pois quem carece de expiação não entra ali, e é obrigado a oferenda por isso. O átrio dos sacerdotes é mais sagrado que ele, pois israelitas não entram ali senão em suas necessidades: para a imposição de mãos, para o abate, e para o movimento ritual.
Esta mishná, a mais extensa do capítulo, percorre seis círculos concêntricos de santidade crescente dentro de Jerusalém e do Templo, cada um deles definido pela categoria de impuros que dele é excluída. Dentro da muralha da própria Jerusalém já se pode comer as “coisas sagradas leves” (kodashim kalim) e o segundo dízimo — alimentos que não podem ser consumidos em nenhum outro lugar. Subindo um grau, o Monte do Templo exclui zavim, zavot, menstruadas e parturientes. Mais adentro, o Chel (a área entre o soreg e o pátio) exclui também os gentios e os impuros por contato com um morto. Depois vem o átrio das mulheres, do qual o tvul yom é excluído — ainda que sua entrada indevida não acarrete a obrigação de trazer uma oferenda expiatória (chatat). Mais adentro ainda, o átrio de Israel exclui o mechusar kipurim, cuja entrada indevida já acarreta essa obrigação. E, no grau mais elevado desta série, o átrio dos sacerdotes é vedado até aos israelitas comuns, exceto quando sua presença ali é estritamente necessária para os três atos rituais que a lei lhes reserva mesmo nesse espaço sacerdotal: a imposição das mãos sobre a cabeça de seu sacrifício, o abate do animal, e o gesto de movimentação (tenufá) de certas oferendas.
Rambam explica que “dentro da muralha” refere-se à muralha de Jerusalém, e que ali se come o primogênito de rebanho (que é uma das coisas sagradas leves), conforme “perante o Eterno teu Deus o comerás, ano após ano, no lugar que o Eterno escolher”, e o segundo dízimo, conforme “e darás o dinheiro por tudo o que tua alma desejar — em gado, em rebanho, em vinho, em bebida forte, e em tudo o que tua alma pedir; e comerás ali”.
Rambam então expõe a estrutura tripla que organiza toda esta mishná, remontando ao acampamento de Israel no deserto: o acampamento de Israel (as quatro tribos ao redor), o acampamento dos levitas (“e ao redor do tabernáculo acamparão”), e o acampamento da Divina Presença (o átrio da Tenda da Reunião e seu interior). Em graus correspondentes para as gerações posteriores: da porta de Jerusalém até o Monte do Templo é o acampamento de Israel; da porta do Monte do Templo até a porta do átrio, isto é, o portão de Nicanor, é o acampamento dos levitas; e da porta do átrio para dentro é o acampamento da Divina Presença. Rambam cita a Tosefta, que estabelece essa correspondência tríplice explicitamente, e então desenvolve o raciocínio talmúdico: do versículo sobre o metzora, zav e impuro por morto (“e enviarão do acampamento todo leproso, e todo zav, e todo impuro por pessoa [morta]”), poder-se-ia pensar que os três seriam enviados para o mesmo lugar; mas, como se ensina especificamente sobre o metzora “só habitará, fora do acampamento será sua morada”, e o metzora tem impureza mais grave que o zav (pois contamina por entrada), aprende-se que, quanto mais grave a impureza de alguém, mais distante é seu envio. Por essa regra, afastou-se o metzora para fora dos três acampamentos, isto é, para fora de Jerusalém; zav, zavá, menstruada e parturiente, para fora de dois acampamentos, isto é, do Monte do Templo; e o impuro por morto apenas do acampamento da Divina Presença, isto é, do Monte do Templo para dentro — pois a impureza de morto não contamina sob pedra pesada, enquanto zav, zavá, menstruada e parturiente contaminam sob pedra pesada.
Sobre a distinção entre o tvul yom (excluído do átrio das mulheres, mas sem culpa de chatat) e o mechusar kipurim (excluído do átrio de Israel, com culpa de chatat), Rambam explica que a razão é a diferença de gravidade: o tvul yom está proibido na teruma, e o mechusar kipurim é permitido nela — por isso a exclusão do mechusar kipurim, sendo em relação a um espaço mais sagrado (o átrio de Israel), é mais grave e acarreta a obrigação de oferenda. Cita ainda a Tosefta: se metzoraim entram dentro da muralha [de Jerusalém], recebem quarenta chicotadas; se zavim, zavot, menstruadas e parturientes entram no Monte do Templo, recebem oitenta chicotadas (isto é, duas violações).
Bartenura explica: “dentro da muralha” refere-se à muralha de Jerusalém. Sobre “que ali se comem as coisas sagradas leves e o segundo dízimo”, cita os versículos correspondentes de Devarim.
Sobre “o Monte do Templo”: media quinhentos côvados por quinhentos côvados, e nele estava construído o Templo; dali começa o acampamento dos levitas, estendendo-se até o portão de Nicanor; do portão de Nicanor para dentro é o acampamento da Divina Presença; e do Monte do Templo para fora, até a muralha de Jerusalém, é o acampamento de Israel. Sobre “pois zavim e zavot, menstruadas e parturientes não entram ali”, Bartenura desenvolve o mesmo raciocínio de Rambam sobre a fonte bíblica “e enviarão do acampamento”, concluindo: o metzora, cuja impureza é a mais grave, é enviado para fora de Jerusalém (equivalente ao acampamento de Israel); zav, zavá, menstruada e parturiente, cuja impureza é mais grave que a de morto (pois formam objeto de deitar e de sentar, e contaminam sob pedra pesada), são enviados do Monte do Templo, equivalente ao acampamento dos levitas; e o impuro por morto é permitido no Monte do Templo, sendo enviado apenas a partir do portão de Nicanor para dentro, equivalente ao acampamento da Divina Presença.
Sobre “o Chel”: dentro da muralha do Monte do Templo havia um muro de dez palmos de altura, chamado soreg, e para dentro dele, o Chel, de dez côvados. Sobre “pois nem gentios nem impuros por morto entram ali”: ainda que os sábios tenham decretado que os gentios sejam como zavim para todos os efeitos, quanto ao envio dos acampamentos não decretaram sobre eles senão como impuros por morto; e essa exclusão dos impuros por morto a partir do Chel é apenas por decreto rabínico, pois, pela lei da Torá, seria permitido até mesmo no átrio das mulheres, já que toda essa área, até o átrio de Israel onde fica o portão de Nicanor, é equivalente ao acampamento dos levitas.
Sobre “o átrio das mulheres”: ficava dentro do Chel, com cento e trinta e cinco côvados de comprimento por cento e trinta e cinco de largura. Sobre “pois o tvul yom não entra ali”: Yehoshafat e seu tribunal decretaram que o tvul yom não entrasse no átrio das mulheres, apoiando-se num versículo de Divrei HaYamim interpretado no Talmud como referência a essa nova disposição. E decretaram sobre o tvul yom, mas não sobre o mechusar kipurim, porque o tvul yom está proibido na teruma e o mechusar kipurim é permitido nela — e quanto mais grave a impureza de alguém, mais grave seu envio.
Sobre “o átrio de Israel”: ficava dentro do átrio das mulheres, com cento e trinta e cinco côvados de comprimento por onze de largura; e o átrio dos sacerdotes tinha as mesmas medidas, separados por fileiras de degraus. Sobre “pois quem carece de expiação não entra ali”: poderia ter dito também que nenhuma pessoa pura entra ali sem antes se imergir, como se ensina em Tamid. Sobre “e é obrigado a oferenda por isso”: os impuros que ali entraram por engano.
Sobre “para a imposição de mãos”: colocar a mão sobre a cabeça de seu sacrifício, o que só é possível pelo próprio dono, não por seu enviado. Sobre “para o abate”: pois o abate é válido mesmo feito por um leigo; e, embora fosse possível fazê-lo por sacerdotes, ou mesmo permitir ao leigo abater no átrio de Israel, ainda assim não proibiram o israelita de entrar no átrio dos sacerdotes para abater seu sacrifício. Sobre “e para o movimento ritual”: quando o sacerdote coloca sua mão sob a mão do dono e realiza o movimento (tenufá).