A diferença de onde o Sumo Sacerdote e o sacerdote comum rasgam suas vestes em luto, e a diferença entre eles quanto a oferecer e comer sacrifícios no dia da morte de um parente próximo.
O Sumo Sacerdote rasga por baixo, e o homem comum por cima. O Sumo Sacerdote oferece como enlutado do dia, mas não come; e o homem comum não oferece nem come.
— Depois de mencionar, na mishná anterior, que ambos os Sumos Sacerdotes — o em serviço e o que já passou do cargo — estão igualmente proibidos de rasgar as vestes como sinal comum de luto, esta mishná esclarece que essa proibição não é absoluta: existe, sim, uma forma de rasgo permitida ao Sumo Sacerdote, mas distinta da forma usada por todos os demais. O sacerdote comum, como qualquer pessoa em luto, rasga sua veste pela parte de cima, próximo ao peito e ao ombro, de modo visível; o Sumo Sacerdote, para não violar o mandamento de não rasgar suas vestes “como pessoa comum”, rasga apenas pela parte de baixo, junto à barra próxima aos pés — um gesto discreto, quase simbólico, que ainda assim satisfaz a obrigação de rasgar em luto. A segunda parte da mishná trata de uma distinção ainda mais delicada: no próprio dia em que perde um parente próximo (o chamado “אוֹנֵן”, antes do sepultamento), o Sumo Sacerdote continua a oferecer sacrifícios no Templo — sua posição não pode ser interrompida por um único dia de luto pessoal —, mas não pode comer das carnes sagradas nesse dia, pois a proibição de comer em estado de onen aplica-se também a ele. Já o sacerdote comum, nesse mesmo dia, está impedido tanto de oferecer quanto de comer — sua condição de enlutado o afasta completamente do serviço até o sepultamento.
כֹּהֵן גָּדוֹל פּוֹרֵם מִלְּמַטָּה, וְהַהֶדְיוֹט מִלְמַעְלָה. כֹּהֵן גָּדוֹל מַקְרִיב אוֹנֵן וְלֹא אוֹכֵל, וְהַהֶדְיוֹט לֹא מַקְרִיב וְלֹא אוֹכֵל:
Rambam · Perush HaMishná, Horayot 3:5
כהן גדול פורם מלמטה וכו': פורם מלמטה הוא שיקרע כנף בגדו סמוך לרגליו, כשמת לו מת שהוא חייב עליו לקרוע, וההדיוט מלמעלה בעליון הבגד כשאר העם, כמו שנתבאר בדיני הקריעות במסכת מועד קטן. וכבר בארנו פעמים שאנינות דאורייתא הוא ביום המיתה בלבד... ואם היה יום מיתה ויום קבורה יום אחד בעצמו הוא באותו היום אונן מדאורייתא, ובלילה אונן מדרבנן... מצאנו שאמר, יום מות נדב ואביהו: והוא אונן, ואכלתי חטאת היום הייטב בעיני ה', הנה כי הוא לא ראה עבירה לעצמו זולתי אכילתה כשהוא אונן, לא הקרבתה, והוא בלבד שהוא כ"ג יש בו זה הדין, אבל בניו לא מקריבין ולא אוכלין:
Rambam explica que “rasgar por baixo” significa rasgar a barra da veste junto aos pés, quando morre alguém pelo qual ele é obrigado a rasgar; o homem comum rasga pela parte superior da veste, como todo o povo, conforme se explica nas leis de rasgo do luto no tratado Moed Katan. Explica também o conceito de onen (enlutado do dia): a obrigação da Torá aplica-se apenas ao dia da própria morte; se a morte e o sepultamento ocorrem no mesmo dia, a obrigação da Torá vale nesse dia, e a obrigação rabínica estende-se à noite seguinte. Traz a fonte do caso de Aharon: no dia em que morreram Nadav e Avihu, ele disse “e se eu tivesse comido a oferenda de pecado hoje, seria bem aos olhos do Eterno?” — mostrando que sua preocupação era apenas quanto a comer estando enlutado, não quanto a oferecer; e essa lei especial aplica-se apenas ao próprio Sumo Sacerdote, não a seus filhos, sacerdotes comuns, que naquele dia não podiam nem oferecer nem comer.
Bartenura · Horayot 3:5
כֹּהֵן גָּדוֹל פּוֹרֵם מִלְּמַטָּה. אִם מֵת לוֹ מֵת שֶׁחַיָּב לִקְרֹעַ עָלָיו, קוֹרֵעַ מִלְּמַטָּה בִּכְנַף בִּגְדוֹ הַסָּמוּךְ לְרַגְלָיו. וְהַאי דִכְתִיב וּבְגָדָיו לֹא יִפְרֹם, שֶׁאֵינוֹ פּוֹרֵם כִּשְׁאָר כָּל אָדָם:
מִלְּמַעְלָה. כְּנֶגֶד הֶחָזֶה סָמוּךְ לַכָּתֵף, כִּשְׁאָר הָעָם:
אוֹנֵן. מִי שֶׁמֵּת לוֹ אֶחָד מִשִּׁבְעָה קְרוֹבִים שֶׁחַיָּב לְהִתְאַבֵּל עָלָיו... יוֹם הַמִּיתָה כֻּלּוֹ... אוֹנֵן דְּאוֹרַיְתָא:
כֹּהֵן גָּדוֹל מַקְרִיב אוֹנֵן וְלֹא אוֹכֵל. מִן הַקָּדָשִׁים. שֶׁכֵּן מָצִינוּ בְּאַהֲרֹן בַּיּוֹם שֶׁמֵּתוּ נָדָב וַאֲבִיהוּא, אָמַר וְאָכַלְתִּי חַטָּאת הַיּוֹם הֲיִיטַב בְּעֵינֵי ה' [ויקרא י], עַל הָאֲכִילָה הָיָה מַקְפִּיד, לֹא עַל הַהַקְרָבָה. וְדַוְקָא אַהֲרֹן שֶׁהוּא כֹּהֵן גָּדוֹל, אֲבָל בָּנָיו שֶׁהָיוּ כֹּהֲנִים הֶדְיוֹטִים הָיוּ אֲסוּרִים אוֹתוֹ הַיּוֹם בֵּין לְהַקְרִיב בֵּין לֶאֱכֹל:
Bartenura explica que o Sumo Sacerdote, ao perder um parente pelo qual é obrigado a rasgar, rasga por baixo, na barra da veste próxima aos pés — pois o versículo “e suas vestes não rasgará” ensina apenas que ele não rasga como todas as demais pessoas, e não que esteja isento de rasgar por completo. O homem comum rasga na altura do peito, próximo ao ombro, como todo o povo. Define onen como aquele que perdeu um dos sete parentes pelos quais é obrigado a fazer luto, sendo o dia inteiro da morte considerado onen por lei da Torá. E traz, como o Rambam, o versículo sobre Aharon: sua preocupação, no dia da morte de seus filhos Nadav e Avihu, era especificamente sobre comer, não sobre oferecer — e esta lei especial aplica-se apenas a ele, como Sumo Sacerdote, e não a seus outros filhos, sacerdotes comuns, proibidos naquele dia tanto de oferecer quanto de comer.