Seder Nezikin · Massechet Horayot · Perek Guimel · Mishná 6 de 8

O mais frequente e o mais santo precedem

כָּל הַתָּדִיר מֵחֲבֵרוֹ, קוֹדֵם אֶת חֲבֵרוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os dois princípios gerais que regem qual ato religioso é realizado primeiro quando dois se apresentam ao mesmo tempo — o mais frequente e o mais santo — aplicados ao caso do touro do sacerdote ungido e do touro da congregação.
Todo o que é mais frequente que seu companheiro precede seu companheiro. E todo o que é mais santificado que seu companheiro precede seu companheiro. O touro do ungido e o touro da congregação estando pendentes: o touro do ungido precede o touro da congregação em todos os seus atos.

— Com esta mishná, o tratado inicia sua seção final, dedicada não mais às leis específicas dos sacrifícios de erro, mas aos princípios gerais de precedência que regem toda a vida religiosa — um tema natural para encerrar Horayot, já que o próprio nome do tratado (“decisões”) sugere a questão de quem decide, quem age primeiro, e a quem se dá prioridade. A mishná estabelece dois critérios independentes de precedência. O primeiro: entre duas mitzvot que competem pela mesma oportunidade, a mais frequente é realizada primeiro — por exemplo, a oferenda diária, que ocorre todos os dias, precede uma oferenda adicional que só ocorre ocasionalmente. O segundo: entre duas mitzvot, a que envolve maior grau de santidade é realizada primeiro — por exemplo, uma leitura da Torá feita por um sacerdote precede a de um levita. A mishná aplica então esses princípios a um caso concreto e já familiar ao leitor do tratado: quando tanto o touro do sacerdote ungido (por sua própria decisão errada) quanto o touro da congregação (pelo erro coletivo do tribunal) estão pendentes ao mesmo tempo no pátio do Templo, o touro do sacerdote ungido é processado primeiro, em todas as suas etapas rituais — da matança até a aspersão do sangue — antes do touro da congregação.
כָּל הַתָּדִיר מֵחֲבֵרוֹ, קוֹדֵם אֶת חֲבֵרוֹ. וְכָל הַמְקֻדָּשׁ מֵחֲבֵרוֹ, קוֹדֵם אֶת חֲבֵרוֹ. פַּר הַמָּשִׁיחַ וּפַר הָעֵדָה עוֹמְדִים, פַּר הַמָּשִׁיחַ קוֹדֵם לְפַר הָעֵדָה בְּכָל מַעֲשָׂיו:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Horayot 3:6
כל התדיר מחבירו קודם וכו': אמר הכתוב מלבד עולת הבקר אשר לעולת התמיד, רצונו לומר שעולת התמיד קודמת, ולמדנו מזה כל התדיר מחבירו קודם את חבירו. ונאמר גם כן וקדשתו כי את לחם אלהיך הוא מקריב וגו', ולמדנו מפי הקבלה לכל דבר שבקדושה לפתוח ראשון ולברך ראשון וליטול מנה יפה ראשון... ולפי שכ"ג הוא שיכפר על עצמו ואחר כך יכפר על זולתו, והוא אמרם דין הוא שיקדים המכפר למתכפר, כמו שצוה יתברך בצום כפור... ומעיקרנו כל החטאות קודמות לכל עולות הבאות עמה, אפילו חטאת העוף קודמת לעולת הבהמה, כמו שנאמר אשר לחטאת ראשונה:

Rambam localiza a fonte bíblica do princípio da frequência no versículo “além da oferenda ascendente da manhã que é para a oferenda contínua”, do qual se aprende que a oferenda diária, sendo mais frequente, precede as demais; e a fonte do princípio da santidade no versículo “e o santificarás, pois oferece o pão de teu Deus”, do qual a tradição extrai que, em qualquer assunto sagrado, quem é mais santo abre primeiro a leitura, abençoa primeiro e recebe a melhor porção primeiro. Explica que, como o Sumo Sacerdote precisa expiar por si mesmo antes de expiar pelos outros — assim como Deus ordenou quanto ao jejum de Yom Kipur —, é justo que quem expia preceda quem é expiado; e, por princípio geral, todas as oferendas de pecado precedem todas as oferendas ascendentes que as acompanham, mesmo a oferenda de pecado de uma ave precedendo a oferenda ascendente de um animal maior.

Bartenura · Horayot 3:6
הַתָּדִיר מֵחֲבֵרוֹ הוּא קוֹדֵם. דְּאָמַר קְרָא (במדבר כח) מִלְּבַד עֹלַת הַבֹּקֶר אֲשֶׁר לְעֹלַת הַתָּמִיד. מִכְּדֵי כְתִיב עֹלַת הַבֹּקֶר, אֲשֶׁר לְעֹלַת הַתָּמִיד לָמָּה לִי? אֶלָּא אָמַר רַחֲמָנָא, הַאי מִשּׁוּם דְּתָדִיר, קָדֵים בְּרֵישָׁא:

וְכָל הַמְקֻדָּשׁ מֵחֲבֵרוֹ וְכוּ'. דְּהָכִי אַשְׁכְּחָן בַּכֹּהֵן, דִּכְתִיב בֵּיהּ וְקִדַּשְׁתּוֹ, וְאָמְרִינַן לִפְתֹּחַ רִאשׁוֹן וּלְבָרֵךְ רִאשׁוֹן וְלִטֹּל מָנָה יָפָה רִאשׁוֹן:

פַּר מָשִׁיחַ קוֹדֵם. הוֹאִיל וּמָשִׁיחַ מְכַפֵּר וְעֵדָה מִתְכַּפֶּרֶת, בְּדִין הוּא שֶׁיַּקְדִּים מְכַפֵּר לַמִּתְכַּפֵּר. וְכֵן הוּא אוֹמֵר (ויקרא טז) וְכִפֶּר בַּעֲדוֹ וּבְעַד בֵּיתוֹ, וְאַחַר כָּךְ וּבְעַד כָּל קְהַל יִשְׂרָאֵל:

Bartenura explica o raciocínio talmúdico por trás do princípio da frequência: se o versículo já disse “oferenda ascendente da manhã”, por que precisaria acrescentar “que é para a oferenda contínua”? Apenas para ensinar que, por ser mais frequente, ela precede. Sobre o princípio da santidade, encontra sua fonte na lei do sacerdote, do qual está escrito “e o santificarás”, de onde se extrai que ele abre primeiro a leitura da Torá, abençoa primeiro e recebe a melhor porção primeiro. E explica o caso do touro do ungido: como o próprio sacerdote ungido é quem realiza a expiação, enquanto a congregação é quem recebe a expiação, é justo que quem expia preceda quem é expiado — assim como no serviço de Yom Kipur, onde o Sumo Sacerdote primeiro expia por si e por sua casa, e só depois por toda a congregação de Israel.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Horayot, 12b–13a
למה לי למכתב אשר לעולת התמיד — אלא לכל דתדירא, בכל מקום היא קדמה, דזה בנה אב, דבכל מקום תדיר קודם, דמשמע אשר לעולת התמיד שהיתה כבר:

לפתוח ראשון — לקרות בתורה:

[פרשת פר כהן משיח כתיבא ברישא, והדר כתיבא פר העלם דבר של צבור, ועשה לפר כאשר עשה לפר החטאת, דהיינו לפר כהן משיח, למה ליה למיהדר וכתב “כאשר שרף את הפר הראשון”:]

שעיר יחיד קודם לכבשת יחיד — כגון שהיו שנים, זה הביא כשבה וזה הביא שעירה:

Rashi explica que a repetição aparentemente desnecessária no versículo “que é para a oferenda contínua” ensina um princípio geral (“בִּנְיַן אָב”) aplicável em toda parte: o que é mais frequente precede sempre. Sobre o versículo da santidade sacerdotal, esclarece que dele se aprende especificamente a prioridade de abrir a leitura pública da Torá. A Guemará traz ainda a fonte textual direta para a precedência do touro do sacerdote ungido: a passagem da Torá que trata do touro do sacerdote ungido é escrita antes da que trata do touro da congregação, e a segunda passagem remete de volta à primeira (“fará ao touro como fez ao touro da oferenda de pecado”) exatamente para estabelecer essa ordem de precedência entre os dois. Rashi acrescenta, por fim, um exemplo paralelo de precedência por santidade dentro das próprias oferendas individuais: o bode trazido por um indivíduo precede a cordeira trazida por outro indivíduo, quando ambos estão pendentes ao mesmo tempo.