A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Quem pecou antes de ser nomeado rei ou Sumo Sacerdote é como um homem comum; a distinção de Rabi Shimon entre saber do pecado antes ou depois da nomeação; e a definição do príncipe como aquele que só tem o Eterno sobre si.
Pecaram antes de serem nomeados e depois foram nomeados: eis que estes são como homens comuns. Rabi Shimon diz: se lhes foi dado a saber antes de serem nomeados, são obrigados. E desde que foram nomeados, são isentos. E quem é o príncipe? Este é o rei, como está dito (Vayikrá 4): “e fizer uma de todas as mitzvot do Eterno seu Deus” — príncipe que não tem sobre si senão o Eterno seu Deus.
— Depois de tratar da mudança de status entre o pecado e a oferenda, a mishná trata agora da mudança de status entre o pecado e o conhecimento do pecado. O caso base: alguém pecou enquanto ainda era um homem comum, e só depois foi nomeado rei ou Sumo Sacerdote — nesse caso, mesmo já ocupando o alto cargo, ele traz apenas a oferenda fixa de um indivíduo comum, pois no momento do pecado ele não tinha nenhum status especial. Rabi Shimon refina ainda mais essa regra, acrescentando uma terceira variável: o momento em que se tornou certo que o pecado ocorreu. Se a certeza (“foi dado a saber”) veio antes da nomeação, a obrigação já se fixou como a de um homem comum, e eles permanecem obrigados mesmo depois de nomeados; mas se a certeza só veio depois da nomeação, eles ficam totalmente isentos — pois o rei e o Sumo Sacerdote, segundo a opinião de Rabi Shimon, não trazem a oferenda fixa de um indivíduo, e a mera dúvida anterior à nomeação não bastava para fixar a obrigação. A mishná fecha com uma definição fundamental, que serve de base para toda a discussão do capítulo: quem é, exatamente, o “נָשִׂיא” de quem tanto se falou? É o rei — e apenas o rei — definido pela Torá como aquele que não tem autoridade alguma acima de si, exceto o próprio Eterno.
חָטְאוּ עַד שֶׁלֹּא נִתְמַנּוּ וְאַחַר כָּךְ נִתְמַנּוּ, הֲרֵי אֵלּוּ כְהֶדְיוֹט. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אִם נוֹדַע לָהֶם עַד שֶׁלֹּא נִתְמַנּוּ, חַיָּבִין. וּמִשֶּׁנִּתְמַנּוּ, פְּטוּרִין. וְאֵיזֶהוּ הַנָּשִׂיא, זֶה הַמֶּלֶךְ, שֶׁנֶּאֱמַר (ויקרא ד) וְעָשָׂה אַחַת מִכָּל מִצְוֹת ה' אֱלֹהָיו, נָשִׂיא שֶׁאֵין עַל גַּבָּיו אֶלָּא ה' אֱלֹהָיו:
Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת
Vayikrá 4:22
אֲשֶׁר נָשִׂיא יֶחֱטָא, וְעָשָׂה אַחַת מִכָּל מִצְוֹת ה' אֱלֹהָיו אֲשֶׁר לֹא תֵעָשֶׂינָה בִּשְׁגָגָה וְאָשֵׁם.
“Quando um príncipe pecar, e fizer uma de todas as mitzvot do Eterno seu Deus que não se devem fazer, por engano, e for culpado” — a mishná cita este versículo para extrair a definição precisa de “príncipe”: a expressão “o Eterno seu Deus” (e não simplesmente “o Eterno”) é lida como significando que ele não tem, sobre si, autoridade alguma além do próprio Eterno — nenhum outro poder terreno o governa. Essa condição só se aplica plenamente ao rei de Israel, que por definição não presta contas a ninguém além de Deus; por isso a mishná conclui que o “נָשִׂיא” mencionado ao longo de todo o tratado, sempre que aparece ao lado do Sumo Sacerdote na escala de obrigações, refere-se especificamente ao rei.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Horayot 3:3
חטאו עד שלא נתמנו ואחר כך נתמנו וכו': אמר הכתוב אשר נשיא יחטא [שחטא] והוא נשיא, ואמר אם הכהן המשיח יחטא שחטא והוא משיח, ונשאר עלינו לבאר קרבן נשיא, ואע"פ שהוא מתבאר ממה שקדם אבל אוסיף ביאור עד שלא ישאר בו ספק, וזה כי הנשיא כשעשה בהוראת ב"ד עם הציבור הוא מתכפר לו עם הציבור, אבל אם שגג בעצמו באחת המצות שההדיוט חייב על שגגתו חטאת כשבה או שעירה הוא חייב שעיר חטאת, ובזה בלבד הוא מופרש משאר העם, והוא אינו צריך הוראה לעצמו כגון כהן משיח אלא על שגגת מעשה בלבד יתחייב שעיר כשהוא עושה בשגגה:
Rambam explica que o versículo “quando um príncipe pecar” exige que ele já seja príncipe no momento do pecado, assim como “se o sacerdote ungido pecar” exige que ele já seja ungido — confirmando o princípio central desta mishná e da anterior. Explica ainda a posição única do príncipe no sistema: quando ele erra numa decisão tomada junto com o tribunal e a congregação, é perdoado junto com a congregação, sem oferenda própria; mas quando erra sozinho, por engano de ação, numa daquelas mitzvot cujo erro obriga um homem comum a trazer uma cordeira ou cabra, ele se distingue do restante do povo justamente nesse ponto: em vez da oferenda fixa comum, ele traz um bode como sacrifício expiatório — e, ao contrário do sacerdote ungido, não precisa de uma decisão equivocada própria para se obrigar, bastando o erro de ação.
Bartenura · Horayot 3:3
הֲרֵי אֵלּוּ כְהֶדְיוֹט. שֶׁנֶּאֱמַר בַּנָּשִׂיא (שם) אֲשֶׁר נָשִׂיא יֶחֱטָא, שֶׁחָטָא כְּשֶׁהוּא נָשִׂיא. וְכֵן בַּכֹּהֵן הַמָּשִׁיחַ נֶאֱמַר וְאִם הַכֹּהֵן הַמָּשִׁיחַ יֶחֱטָא (שם), שֶׁחָטָא כְּשֶׁהוּא מָשִׁיחַ:
Bartenura confirma a leitura textual: o versículo sobre o príncipe diz “quando um príncipe pecar”, exigindo que ele já fosse príncipe no momento do pecado; e da mesma forma, sobre o sacerdote ungido está escrito “se o sacerdote ungido pecar”, exigindo que ele já fosse ungido no momento do pecado. Quem pecou antes da nomeação, portanto, nunca preenche essa condição, e permanece, para os fins desta oferenda, como um homem comum, mesmo depois de nomeado.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Horayot, 10a – 11b
מתני' חטאו עד שלא נתמנו ואח"כ נתמנו הרי אלו כהדיוטות — דרבנן בתר חטא אזלי:
גמ' אם הכהן המשיח יחטא — חטא במשיחות הוא דמביא פר:
[על הגדרת הנשיא:] מה להלן שאין על גביו אלא ה' אלהיו — דבמלך קא משתעי קרא, דכתיב שום תשים עליך מלך (דברים יז):
כגון אני מהו בשעיר — כלומר נשיאות דידי מי הוי נשיאות מעליא, דאילו הוינא בזמן שבית המקדש קיים מייתינא שעיר או לא:
Rashi confirma o princípio central desta mishná com uma fórmula sucinta: “os sábios seguem o momento do pecado” — é o status da pessoa no instante em que pecou, e não no momento da nomeação ou da oferenda, que determina qual sacrifício é devido. Sobre a definição do príncipe, Rashi remete ao versículo de Devarim “certamente porás sobre ti um rei”, confirmando que a expressão “que não tem sobre si senão o Eterno seu Deus” aplica-se exclusivamente ao rei de Israel. E traz, com humor e humildade, uma pergunta pessoal atribuída a Rabi (Yehudá HaNassi), o editor da Mishná, que também ostentava o título de “Nassi” à frente do povo em sua geração: será que sua própria liderança — exercida numa época sem Templo, sem coroa e sem exército — equivaleria à “grandeza” plena de um rei bíblico a ponto de, hipoteticamente, obrigá-lo ao bode de príncipe caso o Templo ainda estivesse de pé? A pergunta, deixada em aberto na Guemará, ilustra como os próprios sábios mediam com cautela os limites exatos da definição desta mishná.