Seder Nezikin · Massechet Horayot · Perek Guimel · Mishná 2 de 8

Quando a queda de cargo precede o pecado

כֹּהֵן מָשִׁיחַ שֶׁעָבַר מִמְּשִׁיחוּתוֹ וְאַחַר כָּךְ חָטָא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Ordem inversa da mishná anterior: sacerdote ungido e príncipe que deixaram o cargo e só depois pecaram — o sacerdote continua obrigado ao touro, mas o príncipe passa a ser como um homem comum.
Sacerdote ungido que passou de sua unção e depois pecou, e igualmente o príncipe que passou de sua grandeza e depois pecou: o sacerdote ungido traz um touro, e o príncipe é como um homem comum.

— Esta mishná inverte a ordem dos eventos da anterior, e o resultado, notavelmente, não é simétrico entre as duas figuras. O sacerdote ungido que deixou o cargo e só depois pecou continua trazendo o touro especial do sacerdote ungido — porque, segundo a Guemará, a santidade da unção permanece com ele mesmo depois de afastado do serviço ativo (ele não retorna ao status de sacerdote comum). Mas o príncipe segue uma lógica oposta: uma vez destronado, ele deixa de ter qualquer status de realeza, tornando-se, para todos os efeitos halachicos, um homem comum. Assim, se pecar depois de perder o trono, ele não traz mais o bode de príncipe, mas sim a oferenda fixa de um indivíduo qualquer — cordeira ou cabra, conforme o caso. A diferença revela um princípio mais profundo: a santidade sacerdotal é intrínseca e duradoura, enquanto a autoridade real é posicional e cessa por completo quando o cargo é perdido.
כֹּהֵן מָשִׁיחַ שֶׁעָבַר מִמְּשִׁיחוּתוֹ וְאַחַר כָּךְ חָטָא, וְכֵן הַנָּשִׂיא שֶׁעָבַר מִגְּדֻלָּתוֹ וְאַחַר כָּךְ חָטָא, כֹּהֵן מָשִׁיחַ מֵבִיא פַר, וְהַנָּשִׂיא כְהֶדְיוֹט:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Horayot 3:2
כהן משיח שעבר ממשיחתו וכו': כהן גדול אם עבר במום או זקן וכיוצא בהם הוא עומד בקדושתו לפי ששמן המשחה שנמשח בו אינו מבטל מעשיהו ואין הפרש בינו ובין כהן גדול המשמש בכל הדברים זולתי בעבודה בלבד ומה שהוא תלוי בה ר"ל פר יוה"כ ועשירית האיפה שמקריב בכל יום כמו שנתבאר אבל הנשיא אין לו גדולה אלא כשמצותו נעשית וכשבטל ענין זה הרי הוא כהדיוט:

Rambam explica a assimetria: se o Sumo Sacerdote foi afastado por um defeito físico, pela idade ou algo semelhante, ele permanece em sua santidade, pois o óleo da unção com que foi ungido não anula seus efeitos; não há diferença entre ele e o Sumo Sacerdote em serviço em nenhum aspecto, exceto quanto ao próprio ato do serviço e ao que depende dele — isto é, o touro de Yom Kipur e a décima parte de efá que oferece diariamente, como se explicará adiante. Mas o príncipe só tem sua grandeza enquanto seu mandato está em vigor; quando esse estado cessa, ele é como um homem comum.

Bartenura · Horayot 3:2
כֹּהֵן מָשִׁיחַ שֶׁעָבַר מִמְּשִׁיחוּתוֹ וְכוּ'. אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ עוֹבֵד, בִּקְדֻשָּׁתוֹ הוּא עוֹמֵד. שֶׁאֵין בֵּין כֹּהֵן הָעוֹבֵד לְכֹהֵן שֶׁעָבַר, אֶלָּא עֲבוֹדָה וּפַר יוֹם הַכִּפּוּרִים וַעֲשִׂירִית הָאֵיפָה שֶׁמַּקְרִיב בְּכָל יוֹם כְּדִלְקַמָּן. אֲבָל נָשִׂיא כֵּיוָן שֶׁהֶעֱבִירוּהוּ הֲרֵי הוּא כְּהֶדְיוֹט:

Bartenura resume: embora o sacerdote afastado não sirva mais no Templo, ele permanece em sua santidade, pois não há diferença entre o sacerdote em serviço e o sacerdote afastado, exceto quanto ao próprio serviço, ao touro de Yom Kipur e à décima parte de efá que oferece diariamente, como se ensinará mais adiante. Mas o príncipe, uma vez destronado, torna-se como um homem comum.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Horayot, 10a
מה"מ — דמשיח שעבר ואח"כ חטא דמביא פר:

ומה נשיא שמביא בשגגת מעשה אין מביא על הקודמות — כדאמר לקמן אשר נשיא יחטא, כשיחטא והרי הוא נשיא, ולא כשיחטא והרי הוא הדיוט:

שאין מביא חטאתו משעבר — כדתנן, וכן הנשיא שעבר מגדולתו ואחר כך חטא, הנשיא כהדיוט:

Rashi traz a fonte textual da Guemará para a regra do príncipe: o versículo diz “quando um príncipe pecar” — ensinando que a obrigação de trazer o bode vale apenas quando ele peca sendo, no momento do pecado, efetivamente príncipe, e não quando peca já tendo se tornado um homem comum. Rashi cita explicitamente esta mishná como a fonte dessa regra: “e igualmente o príncipe que passou de sua grandeza e depois pecou — o príncipe é como um homem comum” — confirmando que a queda do cargo, quando anterior ao pecado, esvazia por completo a obrigação especial de trazer o bode de príncipe.