Sacerdote ungido e príncipe que pecaram enquanto ainda ocupavam o cargo, e só depois disso deixaram o cargo: cada um traz a oferenda correspondente à sua posição no momento do pecado.
Sacerdote ungido que pecou e depois passou de sua unção, e igualmente príncipe que pecou e depois passou de sua grandeza: o sacerdote ungido traz um touro, e o príncipe traz um bode.
— Abre-se aqui o Perek Guimel, último capítulo de Massechet Horayot, com um novo eixo de análise: não mais quem é obrigado a que oferenda, mas em que momento se fixa a obrigação quando o status da pessoa muda entre o pecado e a oferenda. O caso desta mishná é claro: o Sumo Sacerdote pecou enquanto ainda estava ungido — por exemplo, decidiu erroneamente uma halachá e agiu conforme sua própria decisão equivocada — mas, antes de trazer seu sacrifício, foi afastado do cargo (por um defeito físico que sobreveio, ou por qualquer outra razão). Mesmo assim, ele continua obrigado a trazer o touro de sacerdote ungido, e não a oferenda de um indivíduo comum, porque no momento do pecado ele detinha o status pleno. O mesmo vale, em espelho, para o rei: pecou enquanto reinava, mas antes de oferecer seu sacrifício perdeu o trono — ainda assim traz o bode devido a um príncipe, pois é o momento do pecado, e não o momento da oferenda, que determina qual sacrifício é obrigatório.
כֹּהֵן מָשִׁיחַ שֶׁחָטָא וְאַחַר כָּךְ עָבַר מִמְּשִׁיחוּתוֹ, וְכֵן נָשִׂיא שֶׁחָטָא וְאַחַר כָּךְ עָבַר מִגְּדֻלָּתוֹ, כֹּהֵן מָשִׁיחַ מֵבִיא פַר, וְהַנָּשִׂיא מֵבִיא שָׂעִיר:
Rambam · Perush HaMishná, Horayot 3:1
כהן משיח שחטא ואחר כך עבר וכו': שעיר אמרה תורה בנשיא אשר נשיא יחטא או הודע אליו חטאתו והביא את קרבנו שעיר עזים ואמרו על חטאתו אשר חטא מורה שמביא חטאתו הראויה לו והוא נשיא אף על פי שירד מגדולתו בעת הקרבן הואיל שהיה בשעת חטאו נשיא:
Rambam explica que a Torá, ao falar do príncipe, diz “quando um príncipe pecar... e trouxer sua oferenda, um bode das cabras”, acrescentando “por seu pecado que pecou” — expressão que ensina que ele traz a oferenda correspondente ao que era no momento do pecado, e não no momento da oferenda: continua obrigado ao bode de príncipe mesmo tendo já caído de sua grandeza quando finalmente oferece o sacrifício, pois no instante em que pecou ele ainda era príncipe.
Bartenura · Horayot 3:1
כֹּהֵן מָשִׁיחַ שֶׁחָטָא וְאַחַר כָּךְ עָבַר מִמְּשִׁיחוּתוֹ. וְלֹא הִסְפִּיק לְהָבִיא קָרְבָּנוֹ עַד שֶׁעָבַר מִכְּהֻנָּתוֹ:
כֹּהֵן מָשִׁיחַ מֵבִיא פַר. וַאֲפִלּוּ עָבַר לְאַחַר שֶׁהֶעֱבִירוּהוּ מִמְּשִׁיחוּתוֹ, אָמְרִינַן לְקַמָּן בְּמַתְנִיתִין דְּמֵבִיא פָּר. וְלֹא נָקַט לֵיהּ אֶלָּא מִשּׁוּם דְּאִצְטְרִיךְ לְמִתְנֵי דְנָשִׂיא מֵבִיא שָׂעִיר כְּשֶׁחָטָא קֹדֶם שֶׁהֶעֱבִירוּהוּ, תָּנֵי נַמִּי בְּכֹהֵן מָשִׁיחַ מֵבִיא פָּר.
וְנָשִׂיא מֵבִיא שָׂעִיר. דִּכְתִיב (ויקרא ד) עַל חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא, מְלַמֵּד שֶׁמֵּבִיא חַטָּאת כְּמוֹ שֶׁהָיָה חַיָּב בְּשָׁעָה שֶׁחָטָא:
Bartenura precisa a situação: o sacerdote ungido pecou e ainda não conseguiu trazer sua oferenda quando foi afastado do sacerdócio. Explica que, na verdade, ele traria o touro mesmo se tivesse pecado depois de já ter sido afastado — como a própria mishná seguinte ensinará —, mas a Mishná escolhe justamente esta ordem (pecar e só depois cair do cargo) porque precisa ensiná-la em relação ao príncipe, cujo bode só é devido quando ele pecou estando ainda no poder; e, uma vez ensinada essa ordem para o príncipe, ensina-se a mesma ordem para o sacerdote ungido. Quanto ao bode do príncipe, deriva-o do versículo “por seu pecado que pecou”, que ensina que ele traz a oferenda correspondente à sua obrigação no momento em que pecou.
Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Horayot, 9b–10a
פרק שלישי — כהן משיח.
[הגמרא מקשה:] השתא יש לומר עבר ממשיחותו ואחר כך חטא מביא פר, חטא ואחר כך עבר ממשיחותו מיבעיא; נשיא איצטריכא ליה, סלקא דעתך הואיל ועבר מנשיאותו ואחר כך חטא הוי כהדיוט, חטא ואחר כך עבר מנשיאותו נמי ליהוי כהדיוט, קמ"ל... הלכך תנא גבי נשיא שחטא ואחר כך עבר דמייתי כי נשיא, ואיידי דתנא גבי נשיא חטא ואחר כך עבר, תנא נמי גבי משיח חטא ואחר כך עבר ממשיחותו מביא פר:
מה"מ — דמשיח שעבר ואח"כ חטא דמביא פר:
Rashi identifica o título tradicional deste capítulo pelas suas palavras de abertura — “Sacerdote ungido” — e explica a lógica da Guemará para esta primeira mishná: se já se ensinaria, com mais razão, que o sacerdote ungido que pecou depois de deixar o cargo ainda traz o touro (caso da próxima mishná), tanto mais óbvio seria que ele traz o touro quando pecou primeiro e só depois deixou o cargo — então por que a Mishná precisou ensinar este caso separadamente? Rashi explica que a repetição não é sobre o sacerdote, mas sobre o príncipe: alguém poderia pensar que, assim como o príncipe que caiu de sua grandeza e só depois pecou vira um homem comum (perdendo a obrigação de trazer bode), também o príncipe que pecou primeiro e só depois caiu deveria virar um homem comum quanto à sua oferenda. A Mishná vem ensinar que não é assim: tendo pecado enquanto ainda príncipe, ele continua obrigado ao bode mesmo após perder o trono. E, tendo a Mishná precisado ensinar esse caso para o príncipe, ensinou o mesmo caso, por associação, também para o sacerdote ungido — ainda que ali a conclusão já fosse evidente por si.