Seder Nezikin · Massechet Horayot · Perek Bet · Mishná 7 de 7

Sacrifícios de culpa e o encerramento do Perek Bet

אָשָׁם תָּלוּי, הַיָּחִיד וְהַנָּשִׂיא חַיָּבִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Sacrifício de culpa suspensa e sacrifício de culpa certo: quem é obrigado e quem é isento em cada um.
Sacrifício de culpa suspensa: o indivíduo e o príncipe são obrigados; o sacerdote ungido e o tribunal são isentos. Sacrifício de culpa certo: o indivíduo, o príncipe e o sacerdote ungido são obrigados; o tribunal é isento.
אָשָׁם תָּלוּי, הַיָּחִיד וְהַנָּשִׂיא חַיָּבִין, וּמָשִׁיחַ וּבֵית דִּין פְּטוּרִים. אָשָׁם וַדַּאי, הַיָּחִיד וְהַנָּשִׂיא וְהַמָּשִׁיחַ חַיָּבִין, וּבֵית דִּין פְּטוּרִין.
Por ouvir a voz, pronunciação dos lábios e impureza do santuário: o tribunal é isento, mas o indivíduo, o príncipe e o sacerdote ungido são obrigados — com a ressalva de Rabi Shimon quanto ao Sumo Sacerdote e à impureza do santuário; encerra com a opinião de Rabi Eliezer sobre o príncipe.
Por ouvir a voz, por pronunciação dos lábios e por impureza do santuário e de suas coisas sagradas: o tribunal é isento; o indivíduo, o príncipe e o sacerdote ungido são obrigados — exceto que o Sumo Sacerdote não é obrigado por impureza do santuário e de suas coisas sagradas, palavras de Rabi Shimon. E o que trazem? Um sacrifício ascendente e descendente. Rabi Eliezer diz: o príncipe traz um bode.

— A mishná final do Perek Bet completa o quadro comparativo entre as quatro categorias de transgressor, cobrindo agora os sacrifícios de culpa (אָשָׁם) e retomando os três assuntos regidos pelo sacrifício ascendente e descendente. Quanto ao sacrifício de culpa suspensa — trazido por quem tem dúvida se transgrediu algo cujo erro certo geraria sacrifício expiatório fixo —, apenas o indivíduo e o rei são obrigados, pois o versículo que o rege fala de “uma pessoa” individual; o sacerdote ungido e o tribunal, cuja obrigação depende de uma decisão equivocada seguida de certeza quanto ao pecado (“e se saiba o pecado que pecaram”), nunca trazem oferenda por mera dúvida. Já quanto ao sacrifício de culpa certo — as cinco categorias específicas: por apropriação indevida de bens sagrados, por roubo com juramento falso, do nazireu, do leproso e da escrava destinada — o indivíduo, o rei e o sacerdote ungido são igualmente obrigados, pois todas essas situações são, por definição, atos pessoais que independem de qualquer decisão do tribunal; este último, não tendo participação possível nesses casos, fica isento. Por fim, retomando o tema da mishná anterior (2:5), a mishná repete que o tribunal é isento nos três assuntos regidos pelo sacrifício ascendente e descendente, mas agora esclarece que o indivíduo, o rei e o sacerdote ungido são de fato obrigados a esse sacrifício variável — encerrando a controvérsia deixada em aberto anteriormente. Acrescenta a ressalva de Rabi Shimon: mesmo estando o Sumo Sacerdote geralmente obrigado, quanto à impureza do santuário e de suas coisas sagradas especificamente ele estaria isento, pois o versículo sobre essa impureza fala de alguém “cujo pecado é igual ao da congregação” — excluindo aquele cuja posição é distinta da do povo comum. A mishná — e com ela todo o Perek Bet — encerra-se com a opinião isolada de Rabi Eliezer, que sustenta que o rei, quanto à impureza do santuário, não traz o sacrifício ascendente e descendente comum às demais categorias, mas sim um bode, tal como traz pelas demais transgressões cuja violação deliberada acarreta carét.
עַל שְׁמִיעַת הַקּוֹל וְעַל בִּטּוּי שְׂפָתַיִם וְעַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו, בֵּית דִּין פְּטוּרִין, וְהַיָּחִיד וְהַנָּשִׂיא וְהַמָּשִׁיחַ חַיָּבִין, אֶלָּא שֶׁאֵין כֹּהֵן גָּדוֹל חַיָּב עַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו, דִּבְרֵי רַבִּי שִׁמְעוֹן. וּמָה הֵן מְבִיאִין, קָרְבָּן עוֹלֶה וְיוֹרֵד. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, הַנָּשִׂיא מֵבִיא שָׂעִיר:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikrá 5:17–19
וְאִם נֶפֶשׁ כִּי תֶחֱטָא וְעָשְׂתָה אַחַת מִכָּל מִצְוֹת ה' אֲשֶׁר לֹא תֵעָשֶׂינָה, וְלֹא יָדַע וְאָשֵׁם וְנָשָׂא עֲוֹנוֹ. וְהֵבִיא אַיִל תָּמִים מִן הַצֹּאן בְּעֶרְכְּךָ לְאָשָׁם אֶל הַכֹּהֵן, וְכִפֶּר עָלָיו הַכֹּהֵן עַל שִׁגְגָתוֹ אֲשֶׁר שָׁגָג וְהוּא לֹא יָדַע וְנִסְלַח לוֹ.
“E se alguém pecar, e fizer uma de todas as mitzvot do Eterno que não se devem fazer, sem saber, será culpado, e levará sobre si sua culpa... e trará um carneiro sem defeito do rebanho, conforme a avaliação, como sacrifício de culpa, ao sacerdote” — este é o versículo que institui o sacrifício de culpa suspensa (אָשָׁם תָּלוּי), trazido por quem tem dúvida se cometeu uma transgressão cujo erro certo geraria sacrifício expiatório fixo. A expressão “alguém” (נֶפֶשׁ), no singular, é a base pela qual os sábios restringem essa oferenda ao indivíduo e ao rei, excluindo o sacerdote ungido e o tribunal, cuja obrigação depende de mecanismos próprios de certeza, e não de mera dúvida.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Horayot 2:7
אשם תלוי והיחיד והנשיא וכו': אומר שהעונות שחייבין על זדונן כרת ועל שגגתן חטאת קבועה כשנסתפק הנשיא או היחיד באחת מהן אם עשאה חייב אשם תלוי כמו שנתבאר בכריתות אמנם כהן משיח וב"ד אין חייבין אשם תלוי לעולם על הספק בהוראה אבל חייבין קרבן חטאת כשיתברר החטאת כמו שנאמר ונודעה החטאת... ואשם ודאי יתחייב על ה' דברים אפשר שיעשה היחיד בין שהוא הדיוט או נשיא או משיח ואין להוראת ב"ד בהן שום ענין... ואותן האשמות הן אשם מעילות אשם גזילות אשם נזיר אשם מצורע אשם שפחה חרופה... וטעם מאמר רבי שמעון זה שנאמר ואיש אשר יטמא ולא יתחטא ונכרתה הנפש ההיא מתוך הקהל מי שחטאו שוה לקהל יצא זה שאין חטאו שוה לקהל... ורבי אליעזר סבר שנשיא ששגג בטומאת מקדש וקדשיו מביא שעיר כמו שהוא מביא כשחטא בדבר שזדונו כרת ועל שגגתו חטאת... ואין הלכה כר' אליעזר ולא כר"ש:

Rambam explica que, para as transgressões cuja violação deliberada acarreta carét e cujo erro acarreta sacrifício expiatório fixo, tanto o rei quanto o indivíduo, em caso de dúvida se as cometeram, obrigam-se ao sacrifício de culpa suspensa, como se explica no tratado Keritot; mas o sacerdote ungido e o tribunal nunca se obrigam a essa oferenda por mera dúvida na decisão — eles se obrigam apenas quando o pecado se torna certo, como está dito “e se saiba o pecado”. Quanto ao sacrifício de culpa certo, explica que ele se aplica a cinco situações possíveis para o indivíduo — seja ele comum, rei ou sacerdote ungido — sem que a decisão do tribunal tenha qualquer papel nelas: os sacrifícios por apropriação indevida, por roubo com juramento, do nazireu, do leproso e da escrava destinada. Sobre a opinião de Rabi Shimon, explica que ela deriva do versículo sobre a impureza da morte, “e o homem que se contaminar e não se purificar, será extirpada aquela pessoa do meio da congregação” — interpretado como excluindo aquele cujo pecado não é igual ao da congregação, isto é, o Sumo Sacerdote, cuja obrigação depende de condições mais estritas que as do povo comum. E explica que Rabi Eliezer entende que o rei, ao errar quanto à impureza do santuário, traz um bode, tal como traz pelas demais transgressões puníveis com carét — mas a lei não segue nem Rabi Eliezer nem Rabi Shimon.

Bartenura · Horayot 2:7
אָשָׁם תָּלוּי. עֲבֵרוֹת שֶׁחַיָּבִין עַל זְדוֹנָן כָּרֵת וְעַל שִׁגְגָתָן חַטָּאת קְבוּעָה, חַיָּבִין עַל לֹא הוֹדַע שֶׁלָּהֶן אָשָׁם תָּלוּי, כְּגוֹן כִּשְׁנֵי זֵיתִים, אֶחָד שֶׁל חֵלֶב וְאֶחָד שֶׁל שֻׁמָּן, וְאָכַל אֶחָד מֵהֶן וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵיזֶה מֵהֶן אָכַל:

וְהַמָּשִׁיחַ וּבֵית דִּין פְּטוּרִין. דִּכְתִיב בְּקָרְבַּן צִבּוּר (ויקרא ד) וְנוֹדְעָה הַחַטָּאת וְהִקְרִיבוּ, אֵין חַיָּבִין קָרְבָּן אֶלָּא עַל הוֹדַע. וּמָשִׁיחַ כְּבֵית דִּין:

אָשָׁם וַדַּאי. חֲמִשָּׁה אֲשָׁמוֹת הֵן שֶׁבָּאִין עַל הַוַּדַּאי, אֲשַׁם מְעִילוֹת אֲשַׁם גְּזֵלוֹת אֲשַׁם נָזִיר אֲשַׁם מְצֹרָע אֲשַׁם שִׁפְחָה חֲרוּפָה:

אֶלָּא שֶׁאֵין כֹּהֵן גָּדוֹל חַיָּב עַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו דִּבְרֵי רַבִּי שִׁמְעוֹן. טַעֲמָא דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, דִּכְתִיב בְּטֻמְאַת מִקְדָּשׁ (במדבר יט) וְאִישׁ אֲשֶׁר יִטְמָא וְלֹא יִתְחַטָּא וְנִכְרְתָה הַנֶּפֶשׁ הַהִיא מִתּוֹךְ הַקָּהָל, מִי שֶׁחֶטְאוֹ שָׁוֶה לַקָּהָל, יָצָא כֹּהֵן גָּדוֹל שֶׁאֵין חֶטְאוֹ שָׁוֶה לַקָּהָל... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, אֶלָּא כֹּהֵן גָּדוֹל מֵבִיא קָרְבָּן עוֹלֶה וְיוֹרֵד אַף עַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו:

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר הַנָּשִׂיא מֵבִיא שָׂעִיר. עַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, דְּכֵיוָן דְּאֵין חַיָּבִין עַל שִׁגְגַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו חַטָּאת קְבוּעָה, אֵין הַנָּשִׂיא מֵבִיא אֶלָּא כְדֶרֶךְ שֶׁהַיָּחִיד מֵבִיא:

Bartenura ilustra o sacrifício de culpa suspensa com o exemplo clássico: alguém que comeu uma de duas azeitonas idênticas, uma de sebo proibido e outra de gordura permitida, sem saber qual das duas comeu — trazendo essa oferenda pela dúvida quanto a uma transgressão cujo erro certo geraria sacrifício fixo. Explica que o sacerdote ungido e o tribunal ficam isentos porque o versículo do sacrifício comunitário fala em “e se souber o pecado, e trarão” — só há oferenda quando o pecado é certo, e o sacerdote ungido, nesse aspecto, equipara-se ao tribunal. Enumera os cinco sacrifícios de culpa certa: por apropriação indevida, por roubo com juramento, do nazireu, do leproso e da escrava designada. Sobre Rabi Shimon, explica que ele deriva sua opinião do versículo da impureza da morte, que fala em alguém “cujo pecado é igual ao da congregação” — excluindo o Sumo Sacerdote, cujo pecado, por sua posição distinta, não é igual ao do povo comum; mas a lei não segue Rabi Shimon, e o Sumo Sacerdote traz sim o sacrifício ascendente e descendente também nesse caso. E sobre Rabi Eliezer, conclui que a lei também não o segue: como o erro quanto à impureza do santuário não gera sacrifício expiatório fixo para ninguém, o rei traz, tal como o indivíduo comum, apenas o sacrifício ascendente e descendente.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Horayot, 9a
אשם תלוי היחיד והנשיא חייבים בית דין ומשיח פטורים — כדאמר בריש פירקין דכתיב באשם תלוי וכפר הכהן על שגגתו אשר שגג מי שחטאו ושגגתו שוה וכו':

אשם ודאי יחיד ונשיא ומשיח חייבין — דכתיב באשמות ואם נפש ונשיא ומשיח בכלל נפש אחת הן... וב"ד פטורים — מאשם ודאי דפטורים לגמרי דאינן בכלל נפש אחת:

על שמיעת קול ובטוי שפתים וטומאת מקדש וקדשיו ב"ד פטורין — דאמר לעיל (שם:) אין חטאת צבור אלא בקבועה והני עולה ויורד נינהו:

יחיד ונשיא ומשיח חייבין — בשמיעת קול ובטוי שפתים וטומאת מקדש וקדשיו דכולן בכלל נפש אחת הן:

אלא שאין כ"ג משיח חייב על טומאת מקדש וקדשיו דברי רבי שמעון. מפרש בגמרא והוא הדין דקאמר רבי שמעון אלא שאין הנשיא חייב על שמיעת הקול דמלך לא מעיד ולא מעידין אותו אלא לא אצטריך ליה למיתנא דהא תנא ליה לעיל ר"ע:

ר"א אומר נשיא מביא שעיר — ושלש מחלוקות בדבר ר' יוסי הגלילי סבר נשיא ומשיח פטורין מכולן ור"ע סבר נשיא חייב בכולן חוץ משמיעת הקול ומשיח פטור מכולן מעולה ויורד ור"ש סבר נשיא ומשיח חייבין בכולן בעולה ויורד אלא שאין כ"ג ומשיח חייב על טומאת מקדש וקדשיו:

Rashi remete, para o sacrifício de culpa suspensa, ao princípio já estabelecido no início do capítulo: o versículo fala de quem tem “seu pecado e seu erro iguais”, condição que exclui o sacerdote ungido, cuja obrigação (como o tribunal) depende sempre de uma decisão prévia, e não de mero erro isolado. Sobre o sacrifício de culpa certo, explica que o versículo fala de “uma pessoa”, categoria que inclui o rei e o sacerdote ungido, mas não o tribunal, que fica totalmente isento por não se enquadrar nessa expressão. Quanto aos três assuntos regidos pelo sacrifício ascendente e descendente, reafirma que o tribunal é isento porque o sacrifício expiatório comunitário só se aplica onde há sacrifício fixo, enquanto esses três geram apenas oferenda variável; mas o indivíduo, o rei e o sacerdote ungido são todos obrigados a ela, por se enquadrarem igualmente na expressão “uma pessoa”. Sobre a ressalva de Rabi Shimon quanto ao Sumo Sacerdote, remete a explicação à Guemará, notando que o mesmo raciocínio valeria para isentar o rei quanto a ouvir a voz — mas isso já foi ensinado antes, na opinião de Rabi Akiva, e não precisava ser repetido aqui. E resume, ao final do capítulo, as três posições em disputa: Rabi Yossei HaGlili isenta totalmente o rei e o sacerdote ungido desses três assuntos; Rabi Akiva obriga o rei em todos exceto ouvir a voz, e isenta totalmente o sacerdote ungido do sacrifício ascendente e descendente (embora este continue obrigado ao touro comunitário); e Rabi Shimon obriga tanto o rei quanto o sacerdote ungido em todos os três, exceto que o Sumo Sacerdote fica isento especificamente quanto à impureza do santuário e de suas coisas sagradas.