Quem deixa sua casa e vai passar o Shabat em outra cidade, seja gentio seja judeu, este proíbe, palavras de Rabi Meir. — segundo Rabi Meir, uma casa não deixa de ser morada só porque seu dono está fisicamente ausente por causa do Shabat; a casa continua a contar como sua residência no pátio, e por isso, se ele não contribuiu para o eiruv, continua proibindo os demais moradores de carregar entre suas próprias casas e o pátio comum. Rabi Yehuda diz: não proíbe. — Rabi Yehuda discorda frontalmente: uma casa sem ninguém dentro dela no Shabat não é, para efeitos práticos, uma morada capaz de proibir; é como se estivesse vazia de fato. Rabi Yosei diz: o gentio proíbe, o judeu não proíbe, pois não é costume do judeu vir no Shabat. — Rabi Yosei propõe uma distinção prática: o gentio, que não tem as mesmas restrições de Shabat, pode a qualquer momento decidir voltar para casa durante o próprio Shabat, e por isso sua ausência não é considerada definitiva o bastante para anular sua condição de morador; já o judeu, que por hábito e prática não viaja de volta no meio do Shabat, é considerado como tendo abandonado de fato aquela morada para aquele Shabat. Rabi Shimon diz: mesmo que tenha deixado sua casa e ido passar o Shabat com sua filha na mesma cidade, não proíbe, pois já afastou seu coração dali. — Rabi Shimon amplia ainda mais a leniência: mesmo quando o judeu nem sequer saiu da cidade, apenas mudou-se para a casa da própria filha, isso já basta para considerá-lo mentalmente desligado de sua casa original por aquele Shabat, de modo que ele não proíbe os demais moradores do pátio.
"Ficai cada um em seu lugar" pressupõe que exista um lugar fixo — e a mishná pergunta o que acontece quando o próprio dono desse lugar já partiu dele. Se a casa continua sendo seu "lugar" mesmo vazia, ela mantém seu peso de morada e proíbe os demais; se ele já a abandonou de coração, a casa deixa de contar. É notável que a disputa não é sobre um princípio abstrato, mas sobre um fato psicológico: onde está, de fato, o coração do morador — em sua casa vazia, esperando seu retorno, ou já plenamente transferido para onde ele decidiu passar o Shabat.
O Rambam decide a halachá segundo Rabi Yosei, distinguindo gentio de judeu.
Um dos moradores do pátio que deixou sua casa e foi passar o Shabat em outro pátio, mesmo que fosse vizinho ao seu — se afastou do coração e não tem intenção de voltar para sua casa no Shabat, este não proíbe sobre eles. A que se referem essas palavras? A um judeu. Mas um gentio, mesmo que tenha ido passar o Shabat em outra cidade, proíbe sobre eles, até que aluguem dele o seu lugar — pois é possível que ele venha no Shabat.
Os comentadores explicam por que "morada sem dono" ainda é morada para Rabi Meir, por que o hábito do judeu de não viajar no Shabat pesa na decisão de Rabi Yosei, e por que a casa da filha — mas não a do filho — basta para Rabi Shimon.
"Quem deixa sua casa e vai passar o Shabat em outra cidade..." — quando diz "este proíbe", o sentido é que proíbe sobre os moradores de sua cidade, já que ele é um vizinho entre os vizinhos e não fez eiruv com eles; ainda que não esteja presente, sua vizinhança não se desarraigou de todo.
E Rabi Shimon diz que, já que ele passou o Shabat numa casa onde poderia morar — e por isso disse "sua filha" — sua vizinhança já se desarraigou daquele lugar por aquele Shabat, e ele não proíbe sobre eles. E a halachá segue Rabi Yosei, e a halachá segue Rabi Shimon.
"Este proíbe" — pois morada sem dono ainda se chama morada.
"Não proíbe" — pois não se chama morada.
"Rabi Yosei" — também entende que não se chama morada, mas o gentio proíbe, pois talvez venha no Shabat. E a halachá segue Rabi Yosei.
"Com sua filha" — especificamente a filha, pois um homem costuma morar com o genro; mas quanto ao filho, ninguém afasta seu coração de sua própria casa para morar com o filho, pois talvez a nora se desentenda com ele e ele tenha de sair. E a halachá segue Rabi Shimon.
"Rabi Yosei" — também entende que não se chama morada, mas o gentio proíbe, pois talvez venha hoje.
Na Guemará: "e especificamente a filha" — pois um homem costuma morar junto ao genro, mas quanto ao filho, ninguém afasta seu coração de sua casa para morar junto à nora, pois talvez ela se desentenda com ele e tenha de sair.
O ditado usa a imagem do "cão" — macho, como o genro — e da "cadelinha" — fêmea, como a nora — para expressar essa diferença de hábito social.