Quem mora com o gentio no pátio, ou com quem não reconhece o eiruv, eis que este lhe proíbe — palavras de Rabi Meir. — ainda que todos os moradores judeus do pátio tenham feito eiruv entre si, a presença de um gentio, ou de um israelita que nega a validade do eiruv, como o samaritano, permanece proibindo a todos carregar de suas casas para o pátio e do pátio para suas casas, a menos que se alugue dele o direito que tem no pátio. Rabi Eliezer ben Yaakov diz: nunca proíbe, até que haja dois israelitas que se proíbem mutuamente. — isto é, o gentio só se torna um empecilho quando, mesmo sem ele, já haveria pelo menos dois israelitas capazes de se proibir reciprocamente; havendo um único israelita morando ali, a presença do gentio não lhe proíbe nada, pois entre um único morador e o gentio não existe, para começar, motivo de proibição.
"Cada um em seu lugar" pressupõe um domínio compartilhado por consenso — e o gentio está fora desse consenso. O Perek Vav abre com o caso mais delicado da lei do eiruv: o pátio dividido entre judeu e não-judeu, ou entre judeu e quem nega a autoridade rabínica que instituiu o eiruv. A primeira mishná do tratado já ensinou que "cada um em seu lugar" permite, pela via do eiruv, que vários lugares particulares se tornem um só; mas essa unificação depende de que todos os moradores participem da mesma instituição. Onde um deles está fora dela — porque não é israelita, ou porque, sendo israelita, não a reconhece —, o eiruv não tem efeito, e a solução passa a ser outra: alugar o direito do vizinho, transformando-o, para efeitos do Shabat, num mero hóspede sem reivindicação sobre o espaço comum.
O Rambam explica o fundamento da distinção da mishná: a moradia do gentio, por si só, não é considerada moradia capaz de proibir; a proibição é um decreto rabínico voltado à convivência íntima entre dois ou mais israelitas e um gentio, e esse mesmo decreto explica por que um único israelita, morando sozinho com o gentio, não está sujeito a ele.
O israelita que mora com o gentio, ou com o ger toshav (residente estrangeiro), num pátio, este não lhe proíbe, pois a moradia do gentio não se considera moradia, mas é tida como a de um animal. Mas se houvesse dois israelitas ou mais, e um gentio morasse junto com eles, este lhes proíbe. E isso é um decreto, para que não façam um gentio morar junto com eles, a fim de que não aprendam de seus atos. E por que não decretaram isso quanto a um único israelita com um único gentio? Porque isso não é coisa comum, pois ele temeria ficar a sós com ele e ser morto — e já proibiram ficar a sós com o gentio.
Rambam, Bartenura e Rashi explicam por que a moradia do gentio, que por lei bíblica não proíbe nada, foi tratada pelos Sábios como capaz de proibir — e por que essa proibição depende de haver pelo menos dois israelitas envolvidos.
"Quem mora com o gentio no pátio, ou com quem não reconhece..." — o princípio entre nós é que a moradia do gentio não se chama moradia, e por lei bíblica não precisaríamos fazer eiruv com ele, pois nada adquiriu no pátio que exigisse tomar dele permissão. Mas deram-lhe tratamento de moradia e disseram que ele proíbe, e não há para nós outro caminho de fazer eiruv com ele senão alugar seu direito — o que nos ensina que o gentio não aluga, pois receia nisso algum estratagema, engano, ou dano que lhe possa sobrevir; e assim, não havendo caminho possível de eiruv com ele, o israelita, sabendo disso, se absterá de alugar moradia em sua casa a um gentio. E todo esse afastamento é decreto, para que não aprenda de seus atos.
E o princípio entre nós é também que não se fica a sós com gentios, pois alguns deles são suspeitos de derramamento de sangue. Por isso disse Rabi Eliezer ben Yaakov que, havendo um gentio e um só israelita, este não lhe proíbe nada — pois não precisamos, nesse caso, dizer que proíbe e que não se deve alugar dele para que não aprenda de seus atos, já que por outros motivos o israelita já se absterá de morar junto com o gentio, por ser este suspeito de derramamento de sangue. Mas havendo dois israelitas, aos quais é permitido ficar a sós um com o outro na presença do gentio, então dizemos que ele proíbe, como decreto para que não aprendam de seus atos. E o primeiro tanná diz que mesmo um gentio e um só israelita proíbe, pois talvez se fortaleça seu coração e ele se habitue, de fato, a morar sozinho com o gentio.
"Quem mora" — com quem não reconhece o eiruv: o cuti, o samaritano. "Eis que este lhe proíbe" — carregar de sua casa para o pátio, até que alugue dele o direito que tem no pátio.
"Nunca proíbe, até que haja dois israelitas" — tanto para o primeiro tanná quanto para Rabi Eliezer ben Yaakov, a moradia do gentio não se chama moradia, e por lei não deveria proibir nada; mas os Sábios decretaram, para que o israelita não more junto com o gentio e não aprenda de seus atos. E a lei segue Rabi Eliezer ben Yaakov: alugam-se do gentio mesmo por menos que o valor de uma pruta, e mesmo em Shabat.
"Mishná: quem mora com o gentio, ou com quem não reconhece o eiruv" — o cuti, o samaritano, como se disse no capítulo "Em tudo se faz eiruv" (Eruvin 31b). "Lhe proíbe" — carregar de sua casa para o pátio, até que alugue dele o direito que tem no pátio.
"Até que haja dois israelitas" — morando em duas casas e se proibindo mutuamente, e que venham a fazer eiruv entre si: o gentio lhes proíbe; mas ao indivíduo sozinho não proíbe, e a Guemará explica o motivo.