Seder Moed · Massechet Eruvin · Perek Gimel · Mishná 3

O eiruv na árvore, no poço, na cana e no caniço, e na torre com a chave perdida

נְתָנוֹ בְאִילָן, לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים, אֵין עֵרוּבוֹ עֵרוּב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Cinco casos de onde se deposita o eiruv de techumin: a árvore, o poço, o topo da cana ou do caniço destacados, e a torre trancada cuja chave se perdeu

Se o depositou numa árvore, acima de dez tefachim, seu eiruv não é eiruvpois ali se forma um domínio próprio, separado de onde a pessoa fixou sua residência. Abaixo de dez tefachim, seu eiruv é eiruv. Se o depositou num poço, mesmo que profundo cem côvados, seu eiruv é eiruvpois tanto o poço quanto o lugar onde a pessoa está pertencem à mesma categoria de domínio. Se o depositou no topo de uma cana ou no topo de um caniço, quando estão destacados e fincados no chão, mesmo que altos cem côvados, eis que isto é eiruvdiferentemente da árvore, pois não há preocupação de que sejam arrancados. Se o depositou numa torre e a chave se perdeu, eis que isto é eiruvpois em teoria ainda é possível retirá-lo, cortando as amarras. Rabi Eliezer diz: se ele não sabe que a chave está em seu lugar, não é eiruvpois sem saber onde encontrá-la, não há como contar com sua recuperação.

נְתָנוֹ בְאִילָן, לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים, אֵין עֵרוּבוֹ עֵרוּב. לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים, עֵרוּבוֹ עֵרוּב. נְתָנוֹ בְּבוֹר, אֲפִלּוּ עָמוֹק מֵאָה אַמָּה, עֵרוּבוֹ עֵרוּב. נְתָנוֹ בְרֹאשׁ הַקָּנֶה אוֹ בְרֹאשׁ הַקֻּנְדָּס בִּזְמַן שֶׁהוּא תָלוּשׁ וְנָעוּץ, אֲפִלּוּ גָבוֹהַּ מֵאָה אַמָּה, הֲרֵי זֶה עֵרוּב. נְתָנוֹ בְמִגְדָּל וְאָבַד הַמַּפְתֵּחַ, הֲרֵי זֶה עֵרוּב. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אִם אֵינוֹ יוֹדֵעַ שֶׁהַמַּפְתֵּחַ בִּמְקוֹמוֹ, אֵינוֹ עֵרוּב:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 16:29
רְאוּ כִּי־יְהֹוָה נָתַן לָכֶם הַשַּׁבָּת עַל־כֵּן הוּא נֹתֵן לָכֶם בַּיּוֹם הַשִּׁשִּׁי לֶחֶם יוֹמָיִם שְׁבוּ אִישׁ תַּחְתָּיו אַל־יֵצֵא אִישׁ מִמְּקֹמוֹ בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי׃
Vede que Hashem vos deu o Shabat; por isso Ele vos dá no sexto dia pão para dois dias; ficai cada um em seu lugar, ninguém saia de seu lugar no sétimo dia.

"Ninguém saia de seu lugar" e a lógica do domínio do eiruv. Deste versículo a tradição extrai o princípio do techum shabat — o limite de dois mil côvados além do qual não se pode caminhar em Shabat. Toda esta mishná gira em torno de uma única questão prática: em que domínio, exatamente, está "o lugar" onde a pessoa e seu eiruv precisam coincidir no crepúsculo de sexta-feira, o momento em que o eiruv legalmente a vincula àquele ponto. Se o eiruv está num domínio de onde não se pode retirá-lo sem transgressão — como o topo de uma árvore acima de dez tefachim, que constitui domínio próprio —, a pessoa não pode reunir-se a ele, e o eiruv não vale.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica os três casos da mishná quase literalmente, explicando a razão de cada um pela lógica dos domínios do Shabat.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Eruvin 6:8-10
אֲבָל אִם נִתְכַּוֵּן לִשְׁבֹּת בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד אוֹ בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְהִנִּיחַ עֵרוּבוֹ בְּכַרְמְלִית... הֲרֵי זֶה עֵרוּב. נְתָנוֹ בְּמִגְדָּל וְנָעַל וְאָבַד הַמַּפְתֵּחַ אִם יָכוֹל לְהוֹצִיאוֹ בְּלֹא עֲשִׂיַּת מְלָאכָה הֲרֵי זֶה עֵרוּב... נְתָנוֹ בְּרֹאשׁ הַקָּנֶה אוֹ הַקֻּנְדָּס הַצּוֹמְחִין מִן הָאָרֶץ אֵינוֹ עֵרוּב גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִתְלֹשׁ. וְאִם הָיוּ תְּלוּשִׁין וּנְעוּצִין הֲרֵי זֶה עֵרוּב:

Mas se pretendeu residir em domínio privado ou em domínio público, e depositou seu eiruv em carmelit — domínio intermediário, como o poço na planície — eis que isto é eiruv, pois no momento em que o eiruv se adquire, no crepúsculo, é permitido levar e trazer entre cada um dos dois domínios principais e a carmelit por causa de um preceito.

Se o depositou numa torre e a trancou, e a chave se perdeu — se pode retirá-lo sem realizar trabalho proibido, eis que isto é eiruv, pois no crepúsculo, por causa de um preceito, apenas trabalho propriamente dito é proibido.

Se o depositou no topo de uma cana ou de um caniço que crescem da terra, não é eiruv — decreto, para que não venha a arrancá-los; mas se estavam destacados e fincados, eis que isto é eiruv.

A lógica comum aos três casos. O fio condutor da mishná, segundo o Rambam, é a distinção entre uma proibição de trabalho propriamente dito — que nem mesmo por causa de um preceito se permite no crepúsculo — e uma simples restrição rabínica de shevut, que se tolera nesse momento delicado quando o eiruv está sendo adquirido. Cortar as amarras de uma torre trancada é apenas shevut, por isso o eiruv vale mesmo com a chave perdida; já arrancar uma cana viva envolveria trabalho proibido — daí a diferença entre a cana fincada, que se pode apenas remover, e a que ainda cresce, presa à terra.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam por que os dez tefachim da árvore criam um domínio próprio, e por que a Guemará distingue a cana destacada e fincada do caniço ainda vivo.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Eruvin 3:3
נתנו באילן למעלה מעשרה טפחים כו':
זאת המשנה צריכה לעקרים... ומה שאמרו בתחלת זאת המשנה נתנו באילן הוא בתנאי שיהיה באילן ד' טפחים על ד' טפחים או יותר ויהיה מתכוין לשבות ברה"ר, אם נתן העירוב בזה האילן למעלה מי' יהיה העירוב ברה"י והוא ברה"ר, ולפיכך אין עירובו עירוב לפי שא"א לו ליקח עירובו ביה"ש ולהוציאו למקום שביתה... ומגדל הוא ארגז שנותנין שם הבגדים, וכשיש שם חוטין או מנעול שא"א להתיר אותו המגדל אלא במפתח או בפסיקת אותן החוטין ואבד המפתח, אומר ת"ק כי הוא יכול לפסוק החוטין בסכין ולהוציא העירוב... והלכה כרבי שאמר דבר שהוא משום שבות ביה"ש לא גזרו במקום מצוה, ואין הלכה כרבי אליעזר:

"Se o depositou numa árvore, acima de dez tefachim etc." — esta mishná depende de vários princípios já explicados.

E o que disse no início desta mishná, "se o depositou numa árvore", é sob a condição de que a árvore tenha quatro tefachim por quatro tefachim ou mais, e que a pessoa pretenda residir em domínio público: se depositou o eiruv nesta árvore acima de dez tefachim, o eiruv estará em domínio privado enquanto ele está em domínio público, e por isso seu eiruv não é eiruv, pois não lhe é possível apanhar seu eiruv no crepúsculo e levá-lo ao lugar de sua residência.

E "torre" é um baú onde se guardam roupas; e quando há ali fios ou um cadeado que só se pode abrir com a chave ou cortando os fios, e a chave se perdeu, diz o Tanna Kama que ele pode cortar os fios com uma faca e retirar o eiruv... E a halachá segue Rabi, que disse que uma coisa proibida apenas por shevut não foi decretada no crepúsculo em lugar de preceito; e não segue a halachá segundo Rabi Eliezer.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Eruvin 3:3
נְתָנוֹ בְאִילָן. הָעוֹמֵד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְיֵשׁ בּוֹ אַרְבָּעָה טְפָחִים עַל אַרְבָּעָה טְפָחִים אוֹ יוֹתֵר: לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה אֵין עֵרוּבוֹ עֵרוּב. דְּכֵיוָן דְּהָאִילָן רָחָב אַרְבָּעָה, לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה הָוֵי רְשׁוּת הַיָּחִיד, וְהוּא קָנָה שְׁבִיתָתוֹ בִּרְשׁוּת הָרַבִּים... תָּלוּשׁ וְנָעוּץ. הוּא דַּהֲוֵי עֵרוּב, אֲבָל מְחֻבָּר לֹא הָוֵי עֵרוּב, מִשּׁוּם דְּכִי שָׁקֵיל לֵיהּ גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִקְטֹם: וְאָבַד הַמַּפְתֵּחַ הֲרֵי זֶה עֵרוּב. וּכְגוֹן שֶׁהַמַּנְעוּל קָשׁוּר בְּחוּטִים וַחֲבָלִים... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר:

"Se o depositou numa árvore" — que está de pé em domínio público e tem quatro tefachim por quatro tefachim ou mais.

"Acima de dez, seu eiruv não é eiruv" — pois, sendo a árvore larga de quatro tefachim, acima de dez tefachim ela se torna domínio privado, e ele adquiriu sua residência em domínio público — e como precisaria apanhar seu eiruv e comê-lo na hora em que o eiruv se lhe adquire, isto é, no crepúsculo, não pode fazê-lo, pois estaria trazendo de domínio privado a domínio público.

"Destacado e fincado" — assim é que se torna eiruv; mas ligado à terra, não se torna eiruv, porque ao retirá-lo há o receio de que venha a quebrar um galho.

"E a chave se perdeu, eis que isto é eiruv" — e trata-se de um caso em que o cadeado está amarrado com fios e cordas... E a halachá não segue Rabi Eliezer.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Eruvin 32b-34b
מתני' למעלה מעשרה טפחים כו' - מפרש בגמרא: נתנו בבור כו' - מפרש בגמרא: מתני' קונדס - פל"ו בלע"ז ואינם מחוברים ובגמ' פריך והאמרת רישא רבי היא דאמר לא גזרו במחובר בין השמשות: אפילו גבוה מאה אמה - הואיל ואינו רחב ד' למטה לאו רשות היחיד הוה ואע"ג דלמעלה ד' דהא עירוב על גבי מקום ד' בעינן: מתני' ואבד המפתח עירובו עירוב - ובגמרא מפרש לה וכגון שהמגדל ברה"י דאי הוה ביה מפתח לא הוה ביה שום איסור דהוא ועירובו ברה"י:

"Mishná: acima de dez tefachim etc." — explica-se na Guemará.

"Se o depositou num poço etc." — explica-se na Guemará.

"Mishná: kundas" — pol em francês antigo, e não estão ligados à terra; e na Guemará se pergunta: mas não se disse no início que segue a opinião de Rabi, que não se decretou proibição sobre o que está ligado no crepúsculo?

"Mesmo alto cem côvados" — visto que não tem quatro tefachim de largura embaixo, não é domínio privado, ainda que em cima tenha quatro tefachim, pois exigimos que o eiruv esteja sobre um espaço de quatro tefachim.

"Mishná: e a chave se perdeu, seu eiruv é eiruv" — e a Guemará explica que se trata de um caso em que a torre está em domínio privado, pois se tivesse a chave não haveria nenhuma proibição, já que ele e seu eiruv estão em domínio privado.