Um poço em domínio público, cuja borda tem dez tefachim de altura — uma janela acima dele pode ser usada para tirar água dele em Shabat. — embora o poço esteja fisicamente no meio da via pública, a borda de proteção ao seu redor, ao atingir dez tefachim de altura, faz dele, do ponto de vista legal, um domínio privado autônomo — pois toda estrutura com essa altura mínima e área suficiente se qualifica como tal, independentemente de onde esteja situada; por isso, uma janela de uma casa próxima, ainda que separada do poço pelo espaço aéreo da via pública, pode servir para tirar água dali em Shabat, já que a água passa de um domínio privado — o interior do poço — a outro domínio privado — a casa —, atravessando apenas o espaço isento que fica acima dos dez tefachim da rua.
Um monte de lixo em domínio público, com dez tefachim de altura — uma janela acima dele pode ser usada para despejar água nele em Shabat. — a mesma lógica se aplica a um monte de lixo comunitário: por se tratar de um depósito coletivo que ninguém costuma remover, ele se torna, na prática, uma estrutura permanente, e sua altura de dez tefachim lhe confere o mesmo estatuto de domínio privado que o poço; por isso é permitido despejar água usada de uma janela situada acima dele.
A mishná ensina que "domínio privado" não é definido pela localização geográfica de um espaço, mas pela sua altura e pela existência de fronteiras reconhecíveis. Um poço no meio da rua e um monte de lixo comunitário parecem, à primeira vista, pertencer inteiramente ao domínio público que os rodeia; mas a Torá — segundo a leitura dos sábios — define o domínio privado por critérios técnicos de altura e área, não por sua posição relativa a outras estruturas. Um poço com borda de dez tefachim, tanto quanto um monte de lixo da mesma altura, cumpre esses critérios e se torna, para efeitos do Shabat, "uma habitação" própria — capaz de se comunicar com outra habitação próxima através do espaço isento que separa as duas elevações.
O Rambam codifica a regra do poço e sua borda, explicando que os dois se somam para completar os dez tefachim, e distingue o monte de lixo comunitário do particular.
Poço que está em domínio público, cuja borda tem dez tefachim de altura, e uma janela acima dele — tira-se água dele em Shabat, mesmo que esteja separado da parede por quatro tefachim. E do mesmo modo, um monte de lixo comunitário que está em domínio público, com dez tefachim de altura — despeja-se água nele em Shabat, de uma janela acima dele.
Rambam explica como o poço e sua borda se somam para os dez tefachim; Bartenura detalha por que o monte de lixo particular é tratado de outra forma; Rashi, na Guemará, situa a mishná.
"Um poço em domínio público, cuja borda tem dez tefachim de altura etc.": Já dissemos antes, algumas vezes, que acima de dez, no espaço aéreo do domínio público, é lugar isento; e neste poço não há diferença entre estar afastado da parede quatro tefachim ou mais, ou estar junto à parede, contanto que sua borda seja alta dez. E saiba que o poço e sua borda se somam para completar os dez, e é isso que significa "e sua borda é alta", como se dissesse "e sua borda o completa para dez" — com a condição de estar junto à parede.
E este monte de lixo é o comunitário, que não costumam remover na maioria das vezes; mas monte de lixo particular é proibido despejar água sobre ele, mesmo que tenha dez tefachim de altura, por decreto, para que seu dono não venha a removê-lo, e se descubra que despejou de domínio privado para domínio público.
"E sua borda tem dez, uma janela acima dela pode ser usada para tirar água" — já que a borda, que é a beirada ao seu redor, é alta dez tefachim, e estabelecemos que não há domínio público acima de dez tefachim, senão lugar isento, por isso se tira água pela janela acima dela em Shabat, pois estariam tirando de domínio privado para domínio privado através de lugar isento. E mesmo que o poço esteja separado da parede da janela por quatro tefachim, tira-se água dele.
"E do mesmo modo, um monte de lixo em domínio público, alto dez tefachim" — é domínio privado, e não tememos que o monte de lixo venha a ser removido e fique com menos de dez. E isso vale especificamente com monte de lixo comunitário, que não costuma ser removido; mas monte de lixo particular, que costuma ser removido, não se joga nele em Shabat, pois tememos que seu dono venha a removê-lo, e ele se torne domínio público.
Foi ensinado: "se o cano tem quatro" — de largura, é proibido encostar, e ainda que esteja abaixo de dez e não haja o princípio de "lavud", mesmo assim é ao menos um carmelit, e ele estaria tirando de um carmelit para o domínio público.