Seder Moed · Massechet Eruvin · Perek Yud (último) · Mishná 6 de 15

Beber entre domínios; captar água da calha e do cano

לֹא יַעֲמֹד אָדָם בִּרְשׁוּת הַיָחִיד וְיִשְׁתֶּה בִרְשׁוּת הָרַבִּים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná reúne três casos distintos ligados pelo tema de beber ou captar líquido através da fronteira entre domínios: o primeiro proíbe beber, com um utensílio valioso que a pessoa não abandonaria, estando parada num domínio enquanto o utensílio está noutro — a menos que traga a cabeça e a maior parte do corpo para dentro do lugar onde bebe, deixando de estar, na prática, "parada" no domínio de origem; a mesma exigência vale, por uma razão diferente ligada aos dízimos agrícolas, para quem bebe do lagar de uvas ainda sem dízimo separado; o segundo e o terceiro caso tratam de água que escorre pelo lado de fora de uma casa: é permitido captar em um utensílio a água que escorre por uma calha, contanto que a capte abaixo de dez tefachim de altura — dentro do espaço já considerado domínio público —, e não encostar o utensílio na própria calha; já da saída de um cano, que se projeta para fora da parede, pode-se beber diretamente de qualquer altura, pois o cano, ao contrário da calha, não é tratado como extensão do telhado.

Não deve uma pessoa ficar parada em domínio privado e beber em domínio público, nem ficar parada em domínio público e beber em domínio privado, a menos que traga a cabeça e a maior parte do corpo para o lugar onde bebe. E do mesmo modo no lagar.quando se trata de beber com um utensílio valioso — daqueles que a pessoa não deixaria simplesmente abandonado no outro domínio —, os sábios temem que, ao terminar de beber, ela venha a trazer o utensílio de volta para junto de si, cruzando por completo a fronteira entre os domínios; por isso exigem que ela desloque a cabeça e a maior parte do corpo para dentro do domínio onde está o utensílio, deixando de estar "parada" no domínio original; a mesma exigência se aplica a quem bebe diretamente do lagar de uvas, mas por outro motivo: sem trazer a cabeça e a maior parte do corpo para dentro do lagar, a bebida ali seria considerada consumo ocasional, isento do dízimo, e por isso corre-se o risco de beber vinho ainda não decimado como se fosse permitido.

Capta-se com um utensílio a água que escorre pela calha, abaixo de dez tefachim; e da saída do cano, bebe-se de qualquer altura.a calha é como uma extensão inclinada do próprio telhado, presa à parede e correndo água que desceu do alto; por isso, se alguém encostasse um utensílio diretamente nela, estaria na prática recebendo água do telhado — que é domínio privado — e passando-a para o domínio público, o que é proibido; mas é permitido captar essa mesma água já depois que ela desce e cai livremente no espaço aéreo abaixo de dez tefachim, pois nessa faixa já se está dentro do próprio domínio público. Já o cano — um duto que se projeta para fora da parede e lança a água diretamente para fora — não é tratado como extensão do telhado, e por isso é permitido beber de sua saída, diretamente com a boca, em qualquer altura.

לֹא יַעֲמֹד אָדָם בִּרְשׁוּת הַיָחִיד וְיִשְׁתֶּה בִרְשׁוּת הָרַבִּים, בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְיִשְׁתֶּה בִרְשׁוּת הַיָחִיד, אֶלָּא אִם כֵּן הִכְנִיס רֹאשׁוֹ וְרֻבּוֹ לִמְקוֹם שֶׁהוּא שׁוֹתֶה. וְכֵן בְּגַת. קוֹלֵט אָדָם מִן הַמַּזְחֵלָה לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים. וּמִן הַצִּנּוֹר, מִכָּל מָקוֹם שׁוֹתֶה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 23:3
שֵׁשֶׁת יָמִים תֵּעָשֶׂה מְלָאכָה וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן מִקְרָא־קֹדֶשׁ כָּל־מְלָאכָה לֹא תַעֲשׂוּ שַׁבָּת הִוא לַיהוָה בְּכֹל מוֹשְׁבֹתֵיכֶם׃
Seis dias se fará trabalho, e no sétimo dia é Shabat de descanso completo, convocação sagrada; nenhum trabalho fareis; é Shabat para o Eterno em todas as vossas habitações.

A mishná mostra que "parado num domínio" não é um fato físico simples, mas uma categoria legal que depende também da relação da pessoa com o objeto. Quando o utensílio é de pouco valor, a proibição de mover-se entre domínios se aplica de forma direta; mas quando é valioso, os sábios reconhecem que a tentação de recuperá-lo por completo é maior, e por isso exigem uma mudança de posição mais completa — cabeça e maioria do corpo — para que a pessoa deixe de estar, em qualquer sentido relevante, "em suas habitações" no domínio de origem. Os casos da calha e do cano completam o quadro pelo lado oposto: mostram que a fronteira entre domínios também se aplica à água, e que o mesmo líquido pode estar em domínio privado num instante e em domínio público no instante seguinte, conforme a altura em que se encontra.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica a regra de beber entre domínios com utensílios importantes, exigindo que se traga a cabeça e a maior parte do corpo para o lugar da bebida.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 14:17
הָיָה עוֹמֵד בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד וְרָצָה לִשְׁתּוֹת מִכְּלִי שֶׁהוּא בִּרְשׁוּת הָרַבִּים אוֹ שֶׁהָיָה עוֹמֵד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְרָצָה לִשְׁתּוֹת מִכְּלִי שֶׁהוּא בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד. אִם הָיָה הַכְּלִי חָשׁוּב אֵינוֹ שׁוֹתֶה מִמֶּנּוּ עַד שֶׁיַּכְנִיס רֹאשׁוֹ וְרֻבּוֹ לְמָקוֹם שֶׁהַכְּלִי שָׁם. וְאִם אֵינוֹ חָשׁוּב מֻתָּר לִשְׁתּוֹת מִמֶּנּוּ אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא הִכְנִיס רֹאשׁוֹ וְרֻבּוֹ:

Estava parado em domínio privado e quis beber de um utensílio que está em domínio público, ou estava parado em domínio público e quis beber de um utensílio que está em domínio privado — se o utensílio for importante, não bebe dele até trazer a cabeça e a maior parte do corpo para o lugar onde está o utensílio; e se não for importante, é permitido beber dele mesmo sem trazer a cabeça e a maior parte do corpo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam explica o motivo de "cabeça e maioria" e distingue a calha do cano; Bartenura conecta o lagar ao dízimo; Rashi, na Guemará, situa a mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Eruvin 10:6
לֹא יַעֲמֹד אָדָם בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד וְיִשְׁתֶּה בִּרְשׁוּת הָרַבִּים כו': קוֹלֵט אָדָם מִן הַמַּזְחֵלָה לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים כו': זֶה שֶׁאָסַרְנוּ לַעֲמֹד בִּרְשׁוּת אֶחָד וְלִשְׁתּוֹת בִּרְשׁוּת אַחֵר, בִּתְנַאי שֶׁתִּהְיֶה הַשְּׁתִיָּה בְּכֵלִים נָאִים שֶׁהוּא צָרִיךְ אֲלֵיהֶם וְאִי אֶפְשָׁר לוֹ לְהַנִּיחָן מִפְּנֵי חֲשִׁיבוּתָם, שֶׁאִם נַתִּיר לוֹ לִשְׁתּוֹת מֵהֶם נָחוּשׁ שֶׁמָּא יוֹצִיאֵם מֵרְשׁוּת לִרְשׁוּת; אֲבָל אִם אֵין שָׁם כֵּלִים חֲשׁוּבִים אֶצְלוֹ, מֻתָּר לִשְׁתּוֹת וַאֲפִלּוּ לֹא הִכְנִיס רֹאשׁוֹ וְרֻבּוֹ לַמָּקוֹם שֶׁהוּא שׁוֹתֶה. וְאָמַר "וְכֵן בְּגַת" הוּא עִנְיָן אַחֵר, רְצוֹנִי לוֹמַר לְעִנְיַן מַעַשְׂרוֹת, כִּי מֻתָּר לוֹ לִשְׁתּוֹת קֹדֶם הוֹצָאַת הַמַּעֲשֵׂר עֲרַאי, וְיֵשׁ לוֹ לִשְׁתּוֹת תּוֹךְ הַגַּת, אֲבָל חוּץ לַגַּת אֵינוֹ שׁוֹתֶה עַד שֶׁיּוֹצִיא מַעֲשֵׂר. וְאַחַר כֵּן חוֹזֵר לְעִנְיַן שַׁבָּת וְאָמַר שֶׁקּוֹלֵט אָדָם הַמַּיִם, כְּלוֹמַר מְקַבֵּל מִמְּקוֹם שְׁפִיכַת הַמַּיִם, וּמִן הַצִּנּוֹר כְּשֶׁיְּקַבְּלֶנּוּ מִן הַמַּיִם עַצְמָם; אֲבָל אִם נָגְעָה יָדוֹ בַּמַּזְחֵלָה כְּדֵי שֶׁיִּתְקַבְּצוּ הַמַּיִם בְּכַפּוֹ וְיִשְׁתֶּה, אָסוּר, אֶלָּא אִם כֵּן הָיָה לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים, שֶׁהוּא מָקוֹם פָּטוּר.

"Não deve uma pessoa ficar parada em domínio privado e beber em domínio público etc.": "Capta-se com um utensílio a água que escorre pela calha, abaixo de dez tefachim etc.": Isto que proibimos ficar parado num domínio e beber em outro é com a condição de que a bebida seja com utensílios elegantes, dos quais a pessoa precisa e não pode se dar ao luxo de abandonar por causa de sua importância, pois, se lhe permitíssemos beber deles, temeríamos que os tirasse de um domínio para outro; mas se não há ali utensílios importantes para ela, é permitido beber mesmo sem trazer a cabeça e a maior parte do corpo para o lugar de onde bebe.

E o que disse "e do mesmo modo no lagar" é outro assunto, quero dizer, quanto aos dízimos, pois é permitido beber antes de separar o dízimo de modo ocasional, e isso vale dentro do lagar; mas fora do lagar não bebe até separar o dízimo. E depois volta ao assunto de Shabat e disse que a pessoa capta a água, isto é, recebe do lugar onde a água é derramada, e do cano quando a recebe da própria água; mas se sua mão tocasse na calha para que a água se juntasse em sua palma e bebesse, é proibido, a menos que estivesse acima de dez tefachim, que é lugar isento.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Eruvin 10:6
וְיִשְׁתֶּה בִרְשׁוּת הָרַבִּים. וְהָנֵי מִלֵּי בְּכֵלִים שֶׁהֵם צְרִיכִין לוֹ, דְּגָזְרִינַן דִּלְמָא אָתֵי לְאָתוֹיִינְהוּ, אֲבָל בְּכֵלִים שֶׁאֵין צְרִיכִין לוֹ מֻתָּר, וַאֲפִלּוּ לֹא הִכְנִיס רֹאשׁוֹ וְרֻבּוֹ בִּרְשׁוּת הָרַבִּים: וְכֵן בְּגַת. לְעִנְיַן מַעֲשֵׂר, שֶׁאִם הִכְנִיס רֹאשׁוֹ וְרֻבּוֹ בַּגַּת שׁוֹתֶה בְּלֹא מַעֲשֵׂר, דַּהֲוֵי שְׁתִיַּת עֲרַאי, וְחוּץ לַגַּת אֵינוֹ רַשַּׁאי לִשְׁתּוֹת בְּלֹא מַעֲשֵׂר, דַּהֲוֵי שְׁתִיַּת קֶבַע: קוֹלֵט. תּוֹפֵס, כְּלוֹמַר מְקַבֵּל מִן הַמַּיִם הַנִּזְחָלִים וְשׁוֹתֶה: הַמַּזְחֵלָה. כְּמִין בִּנְיָן מִדְרוֹן עָשׂוּי סָמוּךְ לַכֹּתֶל, שֶׁזּוֹחֲלִין בּוֹ הַמַּיִם: וּמִן הַצִּנּוֹר מִכָּל מָקוֹם. כְּלוֹמַר בֵּין קוֹלֵט בֵּין מְצָרֵף, מִשּׁוּם דְּצִנּוֹר לְעוֹלָם בּוֹלֵט הוּא וְיוֹצֵא לִרְשׁוּת הָרַבִּים:

"E beber em domínio público" — e isso vale para utensílios de que a pessoa precisa, pois decretamos que ela venha a trazê-los de volta; mas com utensílios de que não precisa, é permitido, mesmo sem trazer a cabeça e a maior parte do corpo para o domínio público.

"E do mesmo modo no lagar" — quanto ao dízimo: se trouxe a cabeça e a maior parte do corpo para dentro do lagar, bebe sem dízimo, pois isso é beber de modo ocasional; e fora do lagar não pode beber sem dízimo, pois isso seria beber de modo fixo.

"Capta" — recolhe, isto é, recebe da água que escorre e bebe.

"A calha" — uma espécie de construção inclinada feita junto à parede, pela qual escorre a água.

"E da saída do cano, de qualquer altura" — isto é, tanto captando quanto encostando diretamente, pois o cano sempre se projeta e sai para o domínio público.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Eruvin 99a-99b
וְהָא מֵינָס אָנִיס — שֶׁעַל כָּרְחוֹ הוּא עַל יְדֵי חֹלִי אוֹ הַצִּנָּה: כִּיַּח וְרָק קָאָמְרִינַן — שֶׁרָקַק אוֹתוֹ בִּפְנֵי רַבּוֹ וְהָיָה לוֹ לְהִסְתַּלֵּק מִשָּׁם אוֹ לְהַבְלִיעוֹ בִּכְסוּתוֹ: עַל הַחַמִּין חַיָּיב — דְּאֵין רָאוּי לְהַחֲזִיר אֶת הַמּוֹתָר שֶׁמְּקַלְקֵל אֶת הַיַּיִן, הִלְכָּךְ כִּי מָזֵג לֵיהּ בְּחַמִּין אַדַּעְתָּא לְמִשְׁתְּיָיהּ כּוּלֵּיהּ מָזֵג לֵיהּ וּמְשַׁוֵּי לֵיהּ מְזִיגַת קֶבַע, אֲבָל מְזִיגַת צוֹנֵן לָא מְשַׁוֵּי לֵיהּ קֶבַע, דִּלְמָא שָׁתֵי פּוּרְתָּא וּמְהַדַּר, הִלְכָּךְ כָּל כַּמָּה דְּשָׁתֵי הָוֵי עֲרַאי:

"E ele é forçado" — pois é contra sua vontade, por causa de doença ou frio.

"Dissemos tossir e cuspir" — que ele o cuspiu diante de seu mestre, e deveria ter-se afastado dali ou o absorvido em sua roupa.

"Sobre o quente é culpado" — pois não é próprio devolver o excedente, que estraga o vinho; portanto, quando o mistura com água quente, é com a intenção de bebê-lo todo, e isso faz da mistura algo fixo; mas a mistura com água fria não a torna fixa, pois talvez beba um pouco e devolva o resto — por isso, enquanto continua bebendo, é considerado ocasional.