Não deve uma pessoa ficar parada em domínio privado e beber em domínio público, nem ficar parada em domínio público e beber em domínio privado, a menos que traga a cabeça e a maior parte do corpo para o lugar onde bebe. E do mesmo modo no lagar. — quando se trata de beber com um utensílio valioso — daqueles que a pessoa não deixaria simplesmente abandonado no outro domínio —, os sábios temem que, ao terminar de beber, ela venha a trazer o utensílio de volta para junto de si, cruzando por completo a fronteira entre os domínios; por isso exigem que ela desloque a cabeça e a maior parte do corpo para dentro do domínio onde está o utensílio, deixando de estar "parada" no domínio original; a mesma exigência se aplica a quem bebe diretamente do lagar de uvas, mas por outro motivo: sem trazer a cabeça e a maior parte do corpo para dentro do lagar, a bebida ali seria considerada consumo ocasional, isento do dízimo, e por isso corre-se o risco de beber vinho ainda não decimado como se fosse permitido.
Capta-se com um utensílio a água que escorre pela calha, abaixo de dez tefachim; e da saída do cano, bebe-se de qualquer altura. — a calha é como uma extensão inclinada do próprio telhado, presa à parede e correndo água que desceu do alto; por isso, se alguém encostasse um utensílio diretamente nela, estaria na prática recebendo água do telhado — que é domínio privado — e passando-a para o domínio público, o que é proibido; mas é permitido captar essa mesma água já depois que ela desce e cai livremente no espaço aéreo abaixo de dez tefachim, pois nessa faixa já se está dentro do próprio domínio público. Já o cano — um duto que se projeta para fora da parede e lança a água diretamente para fora — não é tratado como extensão do telhado, e por isso é permitido beber de sua saída, diretamente com a boca, em qualquer altura.
A mishná mostra que "parado num domínio" não é um fato físico simples, mas uma categoria legal que depende também da relação da pessoa com o objeto. Quando o utensílio é de pouco valor, a proibição de mover-se entre domínios se aplica de forma direta; mas quando é valioso, os sábios reconhecem que a tentação de recuperá-lo por completo é maior, e por isso exigem uma mudança de posição mais completa — cabeça e maioria do corpo — para que a pessoa deixe de estar, em qualquer sentido relevante, "em suas habitações" no domínio de origem. Os casos da calha e do cano completam o quadro pelo lado oposto: mostram que a fronteira entre domínios também se aplica à água, e que o mesmo líquido pode estar em domínio privado num instante e em domínio público no instante seguinte, conforme a altura em que se encontra.
O Rambam codifica a regra de beber entre domínios com utensílios importantes, exigindo que se traga a cabeça e a maior parte do corpo para o lugar da bebida.
Estava parado em domínio privado e quis beber de um utensílio que está em domínio público, ou estava parado em domínio público e quis beber de um utensílio que está em domínio privado — se o utensílio for importante, não bebe dele até trazer a cabeça e a maior parte do corpo para o lugar onde está o utensílio; e se não for importante, é permitido beber dele mesmo sem trazer a cabeça e a maior parte do corpo.
Rambam explica o motivo de "cabeça e maioria" e distingue a calha do cano; Bartenura conecta o lagar ao dízimo; Rashi, na Guemará, situa a mishná.
"Não deve uma pessoa ficar parada em domínio privado e beber em domínio público etc.": "Capta-se com um utensílio a água que escorre pela calha, abaixo de dez tefachim etc.": Isto que proibimos ficar parado num domínio e beber em outro é com a condição de que a bebida seja com utensílios elegantes, dos quais a pessoa precisa e não pode se dar ao luxo de abandonar por causa de sua importância, pois, se lhe permitíssemos beber deles, temeríamos que os tirasse de um domínio para outro; mas se não há ali utensílios importantes para ela, é permitido beber mesmo sem trazer a cabeça e a maior parte do corpo para o lugar de onde bebe.
E o que disse "e do mesmo modo no lagar" é outro assunto, quero dizer, quanto aos dízimos, pois é permitido beber antes de separar o dízimo de modo ocasional, e isso vale dentro do lagar; mas fora do lagar não bebe até separar o dízimo. E depois volta ao assunto de Shabat e disse que a pessoa capta a água, isto é, recebe do lugar onde a água é derramada, e do cano quando a recebe da própria água; mas se sua mão tocasse na calha para que a água se juntasse em sua palma e bebesse, é proibido, a menos que estivesse acima de dez tefachim, que é lugar isento.
"E beber em domínio público" — e isso vale para utensílios de que a pessoa precisa, pois decretamos que ela venha a trazê-los de volta; mas com utensílios de que não precisa, é permitido, mesmo sem trazer a cabeça e a maior parte do corpo para o domínio público.
"E do mesmo modo no lagar" — quanto ao dízimo: se trouxe a cabeça e a maior parte do corpo para dentro do lagar, bebe sem dízimo, pois isso é beber de modo ocasional; e fora do lagar não pode beber sem dízimo, pois isso seria beber de modo fixo.
"Capta" — recolhe, isto é, recebe da água que escorre e bebe.
"A calha" — uma espécie de construção inclinada feita junto à parede, pela qual escorre a água.
"E da saída do cano, de qualquer altura" — isto é, tanto captando quanto encostando diretamente, pois o cano sempre se projeta e sai para o domínio público.
"E ele é forçado" — pois é contra sua vontade, por causa de doença ou frio.
"Dissemos tossir e cuspir" — que ele o cuspiu diante de seu mestre, e deveria ter-se afastado dali ou o absorvido em sua roupa.
"Sobre o quente é culpado" — pois não é próprio devolver o excedente, que estraga o vinho; portanto, quando o mistura com água quente, é com a intenção de bebê-lo todo, e isso faz da mistura algo fixo; mas a mistura com água fria não a torna fixa, pois talvez beba um pouco e devolva o resto — por isso, enquanto continua bebendo, é considerado ocasional.