Seder Moed · Massechet Eruvin · Perek Yud (último) · Mishná 5 de 15

Urinar e cuspir entre domínios diferentes

לֹא יַעֲמֹד אָדָם בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד וְיַשְׁתִּין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de tratar do movimento de objetos entre domínios, a mishná passa a um caso que, à primeira vista, parece diferente — urina e saliva —, mas que a Guemará mostra seguir exatamente a mesma lógica da mishná anterior: se uma pessoa está parada num domínio e urina de modo que o líquido pouse em outro domínio, isso equivale a transportar um objeto entre domínios, pois a urina, ao se acumular no chão, ocupa um espaço de quatro por quatro tefachim, o suficiente para contar como "pousado" segundo os critérios da lei de transporte no Shabat; a mesma proibição vale para cuspir de um domínio a outro. Rabi Yehuda intensifica a proibição: mesmo depois que a saliva já se soltou na boca, pronta para ser cuspida, a pessoa não deve caminhar quatro amot antes de cuspi-la, pois nesse estado ela já é tratada como uma carga que a pessoa transporta consigo.

Não deve uma pessoa ficar parada em domínio privado e urinar em domínio público, nem ficar parada em domínio público e urinar em domínio privado. E do mesmo modo não deve cuspir.embora a urina e a saliva não sejam objetos sólidos que se carreguem na mão, a mishná as trata como qualquer outro objeto para efeitos da proibição de transporte entre domínios: se a pessoa está parada num domínio e o líquido, ao sair de seu corpo, pousa e se acumula num domínio diferente, isso equivale a um transporte pleno, pois o líquido ocupa, ao se depositar, uma área equivalente à medida mínima que a lei exige para considerar um objeto "pousado" — por isso a proibição vale nos dois sentidos, tanto de domínio privado para público quanto o contrário.

Rabi Yehuda diz: mesmo depois que sua saliva já se soltou em sua boca, não deve caminhar quatro amot antes de cuspi-la.Rabi Yehuda vai além da proibição de cuspir de um domínio a outro e acrescenta uma restrição sobre o próprio deslocamento da pessoa: uma vez que a saliva já se separou e está pronta para ser expelida, ela deixa de ser parte do corpo e passa a ser tratada como um objeto que a pessoa carrega consigo — por isso, ainda que permaneça no mesmo domínio, a pessoa não deve caminhar quatro amot inteiras com essa saliva solta na boca antes de cuspi-la, pois isso equivaleria a transportar uma carga por essa distância.

לֹא יַעֲמֹד אָדָם בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד וְיַשְׁתִּין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְיַשְׁתִּין בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד. וְכֵן לֹא יָרֹק. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף מִשֶּׁנִּתְלַשׁ רֻקּוֹ בְּפִיו, לֹא יְהַלֵּךְ אַרְבַּע אַמּוֹת עַד שֶׁיָרֹק:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 23:3
שֵׁשֶׁת יָמִים תֵּעָשֶׂה מְלָאכָה וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן מִקְרָא־קֹדֶשׁ כָּל־מְלָאכָה לֹא תַעֲשׂוּ שַׁבָּת הִוא לַיהוָה בְּכֹל מוֹשְׁבֹתֵיכֶם׃
Seis dias se fará trabalho, e no sétimo dia é Shabat de descanso completo, convocação sagrada; nenhum trabalho fareis; é Shabat para o Eterno em todas as vossas habitações.

"Nenhum trabalho fareis" não distingue entre o objeto sólido carregado na mão e o líquido que se separa do próprio corpo. A mishná ensina que a proibição bíblica de transportar entre domínios não depende da natureza física do que se transporta, mas apenas de que algo saia de um domínio e pouse, com volume relevante, em outro; por isso a urina, ao se acumular no chão de um domínio diferente daquele em que a pessoa está parada, cumpre exatamente os mesmos critérios técnicos de um objeto pousado. Rabi Yehuda leva a mesma lógica um passo além: para ele, mesmo sem cruzar domínios, a saliva já solta na boca conta como algo que a pessoa "carrega consigo" — e por isso já se aplica a ela a restrição de deslocamento além de quatro amot que vale para qualquer carga.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica a proibição de urinar de um domínio a outro, explicando o critério da urina pousada como objeto de quatro tefachim.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 12:13
הָעוֹמֵד בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד וְהִשְׁתִּין אוֹ רָקַק בִּרְשׁוּת הָרַבִּים אוֹ שֶׁהָיָה עוֹמֵד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְהִשְׁתִּין אוֹ רָקַק בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד הֲרֵי זֶה חַיָּב שֶׁהֲרֵי עָקַר מֵעַל גַּבֵּי מָקוֹם אַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה מִדּוֹשׁ מְקוֹם רַגְלוֹ וְהִנִּיחוֹ בִּרְשׁוּת אַחֶרֶת:

Quem está parado em domínio privado e urinou ou cuspiu em domínio público, ou estava parado em domínio público e urinou ou cuspiu em domínio privado — é culpado, pois removeu de um lugar de quatro por quatro, do chão sob seus pés, e depositou em outro domínio.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam explica o critério de "arrancar de um lugar de quatro"; Bartenura detalha por que a urina e a saliva contam como objeto pousado; Rashi, na Guemará, situa a mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Eruvin 10:5
לֹא יַעֲמֹד אָדָם בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד וְיַשְׁתִּין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים כו': מִי שֶׁעָמַד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְהִשְׁתִּין בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד, חַיָּב חַטָּאת, וּכְאִלּוּ עָקַר מֵעַל גַּבֵּי מָקוֹם אַרְבָּעָה, כֵּיוָן שֶׁזֶּה הַשֶּׁתֶן מוּנָּח בִּמְקוֹמוֹ מְיֻשָּׁב כְּיוֹשֵׁב הַחֵפֶץ בְּמָקוֹם ד' כַּאֲשֶׁר בֵּאַרְנוּ בַּהֲלָכָה רִאשׁוֹנָה מִשַּׁבָּת. וּמַאֲמַר רַבִּי יְהוּדָה כִּי מִי שֶׁנִּתְלַשׁ רֻקּוֹ מִפִּיו שֶׁאָסוּר לוֹ לְהַלֵּךְ אַרְבַּע אַמּוֹת, בִּתְנַאי שֶׁיַּהְפְּכֶנּוּ בְּפִיו. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

"Não deve uma pessoa ficar parada em domínio privado e urinar em domínio público etc.": Quem ficou parado em domínio público e urinou em domínio privado é culpado de sacrifício expiatório, como se tivesse arrancado de um lugar de quatro, já que essa urina fica pousada em seu lugar de modo estabelecido, como um objeto pousado num lugar de quatro, como já explicamos na primeira halachá de Shabat. E a afirmação de Rabi Yehuda é que quem tem a saliva já solta da boca é proibido de caminhar quatro amot, com a condição de que a tenha revirado na boca. E não é a halachá como Rabi Yehuda.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Eruvin 10:5
וְיַשְׁתִּין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים. דְּמַפִּיק מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הָרַבִּים. וְאִם הִשְׁתִּין חַיָּב חַטָּאת. וְאַף עַל גַּב דְּבָעִינַן עֲקִירָה מֵעַל גַּבֵּי מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ בּוֹ אַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה, הַשֶּׁתֶן וְכֵן הָרֹק הָווּ כְּמֻנָּחִים בְּמָקוֹם שֶׁיֵּשׁ בּוֹ אַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה: מִשֶּׁנִּתְלַשׁ רֻקּוֹ. וְהוּא שֶׁנִּתְעַגֵּל וְנִתְהַפֵּךְ בְּפִיו. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

"E urinar em domínio público" — pois tira do domínio privado para o domínio público; e se urinou, é culpado de sacrifício expiatório. E ainda que exijamos que se arranque de um lugar que tenha quatro por quatro, a urina e do mesmo modo a saliva são consideradas como pousadas num lugar que tem quatro por quatro.

"Depois que sua saliva já se soltou" — e ela se enrolou e se revirou em sua boca. E não é a halachá como Rabi Yehuda.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Eruvin 98b
וְיַשְׁתִּין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים — דְּמַפִּיק מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הָרַבִּים: מִשֶּׁנִּתְלַשׁ רֻקּוֹ בְּפִיו — מִשֶּׁנִּתְגַּאֵל וְנֶאֱסַף לָצֵאת: לֹא יְהַלֵּךְ אַרְבַּע אַמּוֹת עַד שֶׁיָּרֹק — דְּכֵיוָן דִּלְמִשְׁדְּיָא קָאֵי, מַשּׂאוֹי הוּא:

"E urinar em domínio público" — pois tira do domínio privado para o domínio público.

"Depois que sua saliva já se soltou em sua boca" — depois que se revirou e se juntou para sair.

"Não deve caminhar quatro amot antes de cuspi-la" — pois, já que está pronta para ser lançada fora, é considerada carga.