Seder Moed · Massechet Eruvin · Perek Yud (último) · Mishná 14 de 15

O dedo ferido do sacerdote, o sal na rampa e os poços de roda

כֹּהֵן שֶׁלָּקָה בְאֶצְבָּעוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná encerra a série de leniências ligadas ao serviço do Templo com dois casos finais, o segundo dos quais já não depende da distinção entre Templo e resto do país, mas de uma permissão histórica atribuída aos próprios profetas. Um sacerdote com um dedo ferido pode envolvê-lo com junco no Templo, para que a ferida não fique exposta durante o serviço, mas essa mesma ação é proibida no resto do país, onde tratar feridas em Shabat é vedado por decreto; se a intenção é fazer sangrar o dedo, para espremer a ferida, a ação é proibida em qualquer lugar, pois isso constitui a própria transgressão de "ferir". Em seguida, a mishná traz três práticas específicas do Templo: espalhar sal sobre a rampa de acesso ao altar, para que os sacerdotes não escorreguem com os pés ensanguentados; e encher água com o auxílio de uma roda em dois poços específicos das dependências do Templo — um privilégio que remonta a uma permissão dada pelos próprios profetas aos peregrinos que subiam para as festas, e que não se estende a nenhum outro poço.

Um sacerdote que foi ferido no dedo envolve-o com junco no Templo, mas não no resto do país; se é para fazer sangrar, é proibido em ambos os lugares. — o junco tem propriedade curativa, e um sacerdote ferido no dedo pode envolvê-lo com ele durante o serviço, tanto para tratar a ferida quanto porque não é digno que uma ferida fique visível enquanto ele realiza a avodá; essa permissão vale apenas no Templo, pois no resto do país tratar feridas em Shabat é proibido por decreto rabínico de proteção contra a moagem de remédios; mas envolver o dedo com o propósito específico de apertar e fazer sair o sangue da ferida é proibido em qualquer lugar, Templo incluído, pois essa ação constitui a categoria principal de trabalho de "ferir", que nenhuma necessidade do serviço tem o poder de afastar.

Espalha-se sal sobre a rampa, para que os pés não escorreguem; e enche-se água do poço da Golá e do poço grande com roda em Shabat, e do poço frio em Yom Tov. — a rampa de acesso ao altar ficava coberta de sangue e gordura dos sacrifícios, tornando-se escorregadia; espalhar sal sobre ela em Shabat é permitido, apesar de parecer uma ação de "consertar", pois se trata de simples segurança para os sacerdotes durante o serviço. Já o uso de uma roda para puxar água — algo normalmente proibido por fazer barulho e por facilitar demais o trabalho, levando ao uso indevido em outros poços — foi excepcionalmente permitido pelos próprios profetas para dois poços específicos das dependências do Templo, usados pelos peregrinos que subiam para as festas; essa permissão histórica não se estende a nenhum outro poço, e um terceiro poço, o "frio", recebeu a mesma permissão apenas para Yom Tov.

כֹּהֵן שֶׁלָּקָה בְאֶצְבָּעוֹ, כּוֹרֵךְ עָלֶיהָ גֶמִי בַמִּקְדָּשׁ, אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה. אִם לְהוֹצִיא דָם, כָּאן וְכָאן אָסוּר. בּוֹזְקִין מֶלַח עַל גַּבֵּי כֶבֶשׁ בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא יַחֲלִיקוּ, וּמְמַלְּאִים מִבּוֹר הַגּוֹלָה וּמִבּוֹר הַגָּדוֹל בַּגַּלְגַּל בְּשַׁבָּת, וּמִבְּאֵר הַקַּר בְּיוֹם טוֹב:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Yechezkel 44:15
וְהַכֹּהֲנִים הַלְוִיִּם בְּנֵי צָדוֹק אֲשֶׁר שָׁמְרוּ אֶת־מִשְׁמֶרֶת מִקְדָּשִׁי בִּתְעוֹת בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל מֵעָלַי הֵמָּה יִקְרְבוּ אֵלַי לְשָׁרְתֵנִי וְעָמְדוּ לְפָנַי לְהַקְרִיב לִי חֵלֶב וָדָם נְאֻם אֲדֹנָי יְהוִה׃
E os sacerdotes levitas, filhos de Tsadok, que guardaram a guarda de Meu santuário quando os filhos de Israel se desviaram de Mim, esses se aproximarão de Mim para Me servir, e estarão diante de Mim para Me oferecer gordura e sangue, diz o Senhor Eterno.

"Estarão diante de Mim para servir" descreve um serviço que exige continuidade e dignidade — daí a permissão de envolver o dedo ferido com junco, para que a ferida não interrompa nem desonre a avodá. Mas essa mesma frase, "para Me oferecer gordura e sangue", também explica por que a rampa precisava de sal: o próprio sangue e gordura das ofertas, produtos diretos do serviço descrito por Yechezkel, tornavam o caminho ao altar perigoso. E a permissão da roda nos poços da Golá e do "grande" completa o quadro com uma dimensão histórica adicional: segundo a Guemará, foi uma permissão dada pelos próprios profetas — Chagai, Zacarias e Malachi — aos peregrinos que subiam ao Templo nas festas, mostrando que mesmo profetas posteriores à Torá tinham autoridade para ajustar, dentro de limites, as leniências rabínicas do Shabat em benefício do povo que vinha "estar diante" do Eterno.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam preserva a permissão da roda apenas para os dois poços do Templo, atribuindo-a à autoridade histórica dos profetas.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 23:4 (parafraseado)
מְמַלְּאִין מִבּוֹר הַגּוֹלָה וּמִבּוֹר הַגָּדוֹל בַּגַּלְגַּל בְּשַׁבָּת, שֶׁכֵּן הִתִּירוּ לָהֶם נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים; וְאֵין לְמֵדִין מֵהֶם לְבוֹר אַחֵר:

Enche-se água do poço da Golá e do poço grande com roda em Shabat, pois assim lhes permitiram os primeiros profetas; e não se aprende deles para nenhum outro poço.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam identifica os poços e a permissão dos profetas; Bartenura explica o motivo do decreto contra os demais poços; Rashi, na Guemará, esclarece por que o junco precisou ser mencionado explicitamente.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Eruvin 10:14
כֹּהֵן שֶׁלָּקָה בְאֶצְבָּעוֹ כּוֹרֵךְ עָלֶיהָ גֶמִי בַמִּקְדָּשׁ כו': בּוֹזְקִין מֶלַח עַל גַּבֵּי כֶבֶשׁ כו': גֶּמִי הוּא גֹּמֶא, וּבְכָאן דִּבֵּר בַּדָּבָר הַיָּדוּעַ כִּי הַגֹּמֶא מוֹעִיל לַמַּכָּה, וְיֵשׁ לוֹ לְקָשְׁרוֹ בַּחֲתִיכַת בֶּגֶד וְיַעֲבֹד, וְלֹא יִפָּסֵל לָעֲבוֹדָה בְּתוֹסֶפֶת אוֹתוֹ הַבֶּגֶד, וּבִתְנַאי שֶׁלֹּא תִּהְיֶה מֻבְדֶּלֶת בֵּין בְּשַׂר יָדוֹ וְהַמִּזְרָק אוֹ הַסַּכִּין בְּעֵת עֲשִׂיַּת הָעֲבוֹדָה. בּוֹזְקִין כְּמוֹ זוֹרְקִים. שֶׁלֹּא יַחְלִיק, כְּדֵי שֶׁלֹּא תָּמְעַד רַגְלוֹ בִּסְבַת שַׁמְנוּנִית הַבָּשָׂר הַזָּב שָׁם. וּבוֹר הַגּוֹלָה בּוֹר הָיָה בְּלִשְׁכָּה מִן הַלְּשָׁכוֹת, וְהָיָה עָלָיו גַּלְגַּל, וְהָיָה נִשְׁמָע לְאוֹתוֹ גַּלְגַּל קוֹל גָּדוֹל בְּעֵת הַשְּׁאִיבָה, וְכֵן בּוֹר הַגָּדוֹל. וְהִתִּירוּ לָהֶם הַנְּבִיאִים בַּעֲלוֹתָם לָרֶגֶל לִדְלוֹת מֵאוֹתָן הַבּוֹרוֹת בְּאוֹתָן הַגַּלְגַּלִים, וְנִשְׁאֲרוּ הָעָם נוֹהֲגִים לִדְלוֹת מֵהֶן בִּלְבַד מִפְּנֵי הֶתֵּר הַנְּבִיאִים, וְלֹא הֶעְתִּיקוּ הַדִּין לְבוֹרוֹת אֲחֵרִים:

"Um sacerdote que foi ferido no dedo envolve-o com junco no Templo etc.": "Espalha-se sal sobre a rampa etc.": O junco é conhecido por ajudar a ferida, e deve amarrá-lo com um pedaço de tecido, e assim realizar o serviço, sem ser desqualificado por causa desse acréscimo de tecido, com a condição de que não haja separação entre a carne de sua mão e a bacia de aspersão ou a faca no momento de realizar o serviço.

"Espalha-se" é como "lança-se". "Para que não escorregue" — para que seu pé não deslize por causa da gordura da carne que escorre ali. E o poço da Golá era um poço numa das câmaras, com uma roda por cima, e ao usar essa roda se ouvia um grande som no momento de puxar água; e do mesmo modo o poço grande. E os profetas lhes permitiram, ao subirem para a festa de peregrinação, tirar água desses poços com essas rodas, e o povo continuou tirando água apenas deles por causa da permissão dos profetas, e não estenderam esse dinim a outros poços.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Eruvin 10:14
כּוֹרֵךְ עָלֶיהָ גֶמִי. וְאַף עַל פִּי שֶׁהַגֶּמִי מְרַפֵּא אֶת הַמַּכָּה, הוֹאִיל וְהַשְׁתָּא מִיהָא צֹרֶךְ עֲבוֹדָה הוּא, דְּלָאו אֹרַח אַרְעָא שֶׁתְּהֵא מַכָּתוֹ נִרְאֵית עִם הָעֲבוֹדָה, וּמְכַסֶּה אוֹתָהּ בְּגֶמִי: אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה. דִּרְפוּאָה בְּשַׁבָּת שְׁבוּת הִיא וְאָסוּר: וְאִם לְהוֹצִיא דָם. שֶׁמְּהַדְּקָהּ בְּגֶמִי כְּדֵי לְהוֹצִיא דָּמָהּ: כָּאן וְכָאן אָסוּר. דַּהֲוָה לֵיהּ חוֹבֵל וְאַב מְלָאכָה לֹא אִשְׁתְּרִי בַּמִּקְדָּשׁ: בּוֹזְקִים מֶלַח. כּוֹתְתִים וּמְפַזְּרִים מֶלַח עַל גַּבֵּי הַכֶּבֶשׁ שֶׁעוֹלִים בּוֹ לַמִּזְבֵּחַ, מִפְּנֵי שֶׁחָלָק הוּא וּפְעָמִים נוֹפְלִים מִמֶּנּוּ, שֶׁמַּחְלִיקִים רַגְלֵיהֶם בּוֹ: מְמַלְּאִים מַיִם מִבּוֹר הַגּוֹלָה וּמִבּוֹר הַגָּדוֹל. וּמִשְּׁנֵי בּוֹרוֹת הַלָּלוּ בִּלְבַד הִתִּירוּ לְמַלְאוֹת מַיִם בַּגַּלְגַּל בְּשַׁבָּת, אֲבָל בִּשְׁאָר בּוֹרוֹת אָסוּר, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יְמַלֵּא לְגִנָּתוֹ וּלְחֻרְבָתוֹ: וּמִבּוֹר הַקַּר. וּבוֹר זֶה הָיָה צָרִיךְ לִבְנֵי הַגּוֹלָה בָּרֶגֶל, וְהִתִּירוּ לָהֶם נְבִיאִים שֶׁבֵּינֵיהֶם חַגַּי זְכַרְיָה וּמַלְאָכִי לְמַלְאוֹת מִמֶּנּוּ בַּגַּלְגַּל בָּרֶגֶל:

"Envolve-o com junco" — e ainda que o junco cure a ferida, já que agora é sobretudo necessidade do serviço, pois não é conveniente que sua ferida fique visível durante o serviço, ele a cobre com junco.

"Mas não no resto do país" — pois curar em Shabat é "shevut" e proibido.

"Se é para fazer sangrar" — que aperta com o junco para fazer sair o sangue.

"É proibido em ambos os lugares" — pois isso é "ferir", categoria principal de trabalho não permitida nem no Templo.

"Espalha-se sal" — trituram e espalham sal sobre a rampa pela qual sobem ao altar, pois é lisa e às vezes caem dela, pois seus pés escorregam nela.

"Enche-se água do poço da Golá e do poço grande" — e apenas desses dois poços permitiram encher água com roda em Shabat; mas nos demais poços é proibido, por decreto, para que não venha a encher para seu jardim ou sua ruína.

"E do poço frio" — este poço era necessário aos filhos da diáspora na peregrinação, e os profetas entre eles Chagai, Zacarias e Malachi lhes permitiram encher dele com roda na peregrinação.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Eruvin 103b, 104a
וְלִטַּעְמָיךְ לְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר נָמֵי — נִישְׁקְלֵיהּ נִיהֲלֵיהּ בְּיָד: אֶלָּא אִי אֲמַרְתְּ בִּשְׁלָמָא רַבִּי אֱלִיעֶזֶר — לְגַבֵּי מַכְשִׁירֵי מִצְוָה שְׁבוּת וְאִסּוּר דְּאוֹרַיְתָא הֶתֵּר מָשֵׁוֵי לְהוּ, וְטַעְמָא מִשּׁוּם דְּאֶפְשָׁר לְשַׁנּוֹיֵי מְשַׁנִּינַן: דְּגֶמִי מַסֵּי — מִשּׁוּם שַׁבָּת אִצְטְרִיךְ לְמִתְנֵי גֶּמִי, דְּאַף עַל גַּב דְּמַסֵּי, שָׁרֵי בַּמִּקְדָּשׁ:

"E segundo teu raciocínio, também para Rabi Eliezer" — que a retirasse com a mão.

"Antes, se dizes que é Rabi Eliezer" — quanto aos preparativos de um mandamento, ele trata como permitida uma proibição de "shevut" e mesmo uma proibição bíblica, e o motivo é que, sempre que é possível fazer diferente, fazemos diferente.

"Pois o junco cura" — por causa do Shabat foi necessário ensinar especificamente "junco", pois, embora cure, é permitido no Templo.