Seder Moed · Massechet Eruvin · Perek Yud (último) · Mishná 13 de 15

O curativo, a corda do instrumento e a verruga: três casos no Templo

מַחֲזִירִין רְטִיָּה בַמִּקְדָּשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná reúne três novos casos que seguem o mesmo padrão de distinção entre Templo e resto do país, cada um ligado às necessidades específicas do serviço sagrado: um curativo sobre a ferida de um sacerdote, que precisa ser retirado para que sua mão fique livre para o serviço e depois recolocado; a corda de um instrumento musical dos levitas, que pode se romper e precisar ser amarrada de última hora para não interromper o canto do sacrifício diário; e uma verruga sobre um animal, que o desqualifica para o altar e que um sacerdote pode remover no próprio Templo. Em cada caso, permite-se apenas o mínimo de ação — recolocar, não colocar pela primeira vez; amarrar no meio da corda, não substituí-la inteiramente; cortar à mão, nunca com instrumento cortante.

Recoloca-se o curativo no Templo, mas não no resto do país; se é pela primeira vez, é proibido em ambos os lugares.um sacerdote com uma ferida na mão, coberta por um curativo, precisa às vezes retirá-lo para que não interfira no serviço sagrado, que exige as mãos livres; depois de terminado o serviço, é permitido recolocar o mesmo curativo sobre a ferida — mas apenas no Templo, onde essa necessidade específica do serviço justifica a leniência; no resto do país, a mesma ação é proibida, por temor de que a pessoa acabe alisando o curativo sobre a pele, uma forma de trabalho proibido. Mas colocar um curativo pela primeira vez, que nunca esteve ali antes, é proibido em qualquer lugar, pois isso não tem relação alguma com a necessidade do serviço.

Amarra-se a corda do instrumento no Templo, mas não no resto do país; se é pela primeira vez, é proibido em ambos os lugares.quando a corda de um instrumento usado no canto dos levitas se rompe durante o serviço, e não havia como prevê-lo e prepará-lo na véspera, é permitido amarrá-la no Templo, para que o canto que acompanha o sacrifício diário não seja interrompido; essa permissão não se aplica fora do Templo, e tampouco vale para colocar uma corda que nunca esteve ali, pois nesse caso a falta de preparo prévio não era inevitável.

Corta-se a verruga no Templo, mas não no resto do país; se é com um instrumento, é proibido em ambos os lugares.uma verruga sobre um animal destinado ao altar é um defeito que o desqualifica para o sacrifício; um sacerdote pode removê-la com a própria mão no Templo, para tornar o animal apto ao serviço, mas essa ação continua sendo apenas tolerada por decreto — permitida quando feita à mão, de modo incomum, mas nunca com um instrumento cortante, o que constituiria a própria transgressão de tosquiar ou cortar, proibida tanto no Templo quanto no resto do país.

מַחֲזִירִין רְטִיָּה בַמִּקְדָּשׁ, אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה. אִם בַּתְּחִלָּה, כָּאן וְכָאן אָסוּר. קוֹשְׁרִין נִימָא בַמִּקְדָּשׁ, אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה. אִם בַּתְּחִלָּה, כָּאן וְכָאן אָסוּר. חוֹתְכִין יַבֶּלֶת בַּמִּקְדָּשׁ, אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה. וְאִם בִּכְלִי, כָּאן וְכָאן אָסוּר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 22:22
עַוֶּרֶת אוֹ שָׁבוּר אוֹ־חָרוּץ אוֹ־יַבֶּלֶת אוֹ גָרָב אוֹ יַלֶּפֶת לֹא־תַקְרִיבוּ אֵלֶּה לַיהוָה וְאִשֶּׁה לֹא־תִתְּנוּ מֵהֶם עַל־הַמִּזְבֵּחַ לַיהוָה׃
Cego, ou quebrado, ou mutilado, ou com verruga, ou com sarna, ou com impigem — não ofereceis estes ao Eterno, e oferenda de fogo deles não dareis sobre o altar ao Eterno.

É Vayikra 22:22 que dá origem ao próprio problema desta mishná: a "yabelet" (verruga) é um dos defeitos que a Torá lista explicitamente como desqualificadores de um animal para o altar. Um sacerdote que descobre uma verruga num animal já designado para o serviço tem interesse direto em removê-la — não por capricho, mas porque a própria oferta a Deus depende disso; é essa necessidade ligada ao "serviço do Alto" que justifica a leniência rabínica de permitir cortá-la à mão no Templo, ainda que a mesma ação seja proibida fora dele. O mesmo vale, por extensão, para o curativo do sacerdote ferido e a corda do instrumento levítico: em todos os três casos, "em todas as vossas habitações" (Vayikra 23:3) continua vedando o trabalho comum, mas as necessidades específicas do serviço no Templo justificam um tratamento diferenciado, sempre limitado ao mínimo indispensável.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam preserva o princípio geral de que a proteção rabínica do "shevut" não se aplica ao Templo, base comum aos três casos desta mishná.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 10:16 (parafraseado)
כָּל דָּבָר שֶׁאָסוּר מִשּׁוּם שְׁבוּת, אִם הָיָה בּוֹ צֹרֶךְ עֲבוֹדַת הַמִּקְדָּשׁ, מֻתָּר; וְאִם אֵין בּוֹ אֶלָּא צֹרֶךְ עַצְמוֹ שֶׁל אָדָם, אֵין הֶפְרֵשׁ בֵּין מִקְדָּשׁ לִמְדִינָה:

Toda coisa que é proibida por decreto de "shevut" — se havia nela necessidade do serviço do Templo, é permitida; mas se não há nela senão a necessidade própria da pessoa, não há diferença entre o Templo e o resto do país.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam identifica cada objeto e sua função no serviço; Bartenura explica por que a proibição do curativo vale mesmo no Templo quando não há necessidade do serviço; Rashi, na Guemará, detalha o mecanismo de cada caso.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Eruvin 10:13
מַחֲזִירִין רְטִיָּה בַמִּקְדָּשׁ אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה כו': קוֹשְׁרִין נִימָא בַמִּקְדָּשׁ אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה כו': חוֹתְכִין יַבֶּלֶת בַּמִּקְדָּשׁ אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה כו': רְטִיָּה הִיא חֲתִיכָה שֶׁל בֶּגֶד שֶׁפּוֹשְׁטִין עָלָיו הַמִּשְׁחָה לָתֵת אוֹתָהּ עַל הַמַּכָּה; וּכְשֶׁנָּפְלָה מִן הַמַּכָּה, אוֹ שֶׁפֵּרְשָׁהּ בְּיָדוֹ וּנְתָנָהּ עַל גַּבֵּי כְּלִי, מֻתָּר לוֹ לְהַחְזִירָהּ כָּל זְמַן שֶׁלֹּא נָפְלָה עַל גַּבֵּי קַרְקַע; אֲבָל כְּשֶׁנָּפְלָה עַל גַּבֵּי קַרְקַע, אָסוּר לְהַחְזִירָהּ אֶלָּא לְכֹהֵן בַּמִּקְדָּשׁ. וּנְתִינַת מִשְׁחָה עַל הַמַּכָּה לְכַתְּחִלָּה אָסוּר, בֵּין בַּמִּקְדָּשׁ בֵּין בַּמְּדִינָה. וְקוֹשְׁרִין נִימָא הוּא שֶׁקּוֹשְׁרִין יֶתֶר, כְּשֶׁנִּתַּק יֶתֶר מִיִּתְרֵי הַנְּבָלִים וְהַכִּנּוֹרוֹת וְדוֹמֵיהֶם מִן הַכֵּלִים שֶׁהָיוּ בַּמִּקְדָּשׁ, שֶׁהָיוּ אוֹמְרִים עֲלֵיהֶם הַשִּׁיר בְּכָל יוֹם, כַּאֲשֶׁר יִתְבָּאֵר בִּמְקוֹמוֹ. וְיַבֶּלֶת יָדוּעַ, וְהוּא כְּמוֹ רֹאשׁ מַסְמֵר בְּגוּף הָאָדָם, וְגַם כֵּן יָדוּעַ שֶׁהָעֲבוֹדָה אֵינָהּ מֻתֶּרֶת לְבַעֲלֵי יַבֶּלֶת.

"Recoloca-se o curativo no Templo, mas não no resto do país etc.": "Amarra-se a corda no Templo, mas não no resto do país etc.": "Corta-se a verruga no Templo, mas não no resto do país etc.": O curativo é um pedaço de tecido sobre o qual se espalha o unguento, para colocá-lo sobre a ferida; e quando cai da ferida, ou quando o retira com a mão e o coloca sobre um utensílio, é permitido recolocá-lo enquanto não caiu no chão; mas quando cai no chão, é proibido recolocá-lo, exceto a um sacerdote no Templo. E colocar unguento sobre a ferida pela primeira vez é proibido, tanto no Templo quanto no resto do país.

E "amarra-se a corda" é quando se amarra uma corda de instrumento, quando se rompe a corda das harpas, liras e semelhantes, dos utensílios que havia no Templo, com os quais entoavam o canto todos os dias, como se explicará em seu lugar. E "yabelet" é conhecida, é como a cabeça de um prego no corpo de uma pessoa; e também é sabido que o serviço não é permitido a quem tem verruga.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Eruvin 10:13
מַחֲזִירִין רְטִיָּה. כֹּהֵן שֶׁהֻצְרַךְ לַעֲבֹד עֲבוֹדָה בְּשַׁבָּת, וְנָטַל רְטִיָּה שֶׁהָיְתָה עַל גַּבֵּי מַכָּה שֶׁעַל יָדוֹ כְּדֵי שֶׁלֹּא תְּהֵא חוֹצֶצֶת בֵּין בְּשָׂרוֹ לָעֲבוֹדָה, מַחֲזִירָהּ עַל גַּבֵּי מַכָּתוֹ לְאַחַר הָעֲבוֹדָה, דְּאִי לֹא שָׁרֵית לֵיהּ לְהַחְזִירָהּ מִמְּנַע וְלֹא עֲבִיד עֲבוֹדָה: אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה. גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִמְרַח הָרְטִיָּה, וְחַיָּב מִשּׁוּם מְמָרֵחַ: וְאִם בַּתְּחִלָּה. שֶׁלֹּא הָיְתָה קְשׁוּרָה מִבְּעוֹד יוֹם וְכֹהֵן זֶה לֹא סִלְּקָהּ לְצֹרֶךְ עֲבוֹדָה: כָּאן וְכָאן אָסוּר. וְלֹא אָמְרִינַן הָכָא אֵין שְׁבוּת בַּמִּקְדָּשׁ, דְּלָאו צֹרֶךְ גָּבוֹהַּ הוּא אֶלָּא צֹרֶךְ עַצְמוֹ: קוֹשְׁרִין נִימָא. נִימַת כִּנּוֹר שֶׁל שִׁיר הַלְּוִיִּים שֶׁנִּפְסְקָה בְּשַׁבָּת, דְּקָסָבַר מַכְשִׁירֵי מִצְוָה שֶׁלֹּא יָכוֹל לַעֲשׂוֹתָם מֵאֶתְמוֹל דּוֹחִין אֶת הַשַּׁבָּת. וְדַוְקָא כְּשֶׁנִּפְסְקָה בָּאֶמְצַע, שֶׁאֵינוֹ קוֹשְׁרָהּ אֶלָּא לְפִי שָׁעָה: יַבֶּלֶת. הִיא מוּם בַּקָּדָשִׁים, שֶׁנֶּאֱמַר "אוֹ יַבֶּלֶת", וְחוֹתְכִים אוֹתָהּ בַּמִּקְדָּשׁ בַּיָּד, דְּאֵין בָּזֶה אֶלָּא מִשּׁוּם שְׁבוּת, דְּכִלְאַחַר יָד הוּא. אֲבָל לֹא בִּכְלִי, דִּמְלָאכָה גְּמוּרָה הִיא:

"Recoloca-se o curativo" — sacerdote que precisou realizar o serviço em Shabat, e retirou o curativo que estava sobre uma ferida em sua mão para que não interpusesse entre sua carne e o serviço, recoloca-o sobre a ferida depois do serviço, pois, se não lhe permitissem recolocá-lo, ele se absteria e não faria o serviço.

"Mas não no resto do país" — por decreto, para que não venha a alisar o curativo, sendo culpado por "alisar".

"Se é pela primeira vez" — que não estava amarrado desde a véspera, e este sacerdote não o retirou por necessidade do serviço.

"É proibido em ambos os lugares" — e não dizemos aqui "não há shevut no Templo", pois não é necessidade do Alto, mas necessidade própria.

"Amarra-se a corda" — corda de instrumento do canto dos levitas que se rompeu em Shabat, pois entende que os preparativos de um mandamento que não puderam ser feitos na véspera afastam o Shabat. E especificamente quando se rompeu no meio, que ele só a amarra temporariamente.

"Verruga" — é um defeito nos animais sagrados, como está dito "ou verruga", e cortam-na no Templo à mão, pois nisso há apenas "shevut", já que é feito de modo incomum; mas não com instrumento, pois isso é uma obra completa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Eruvin 102b, 103a
מַתְנִי' מַחֲזִירִין רְטִיָּה — כֹּהֵן שֶׁלָּקָה בְּיָדוֹ וְנָתַן עָלֶיהָ רְטִיָּה מִבְּעוֹד יוֹם וְהֻצְרַךְ לַעֲבֹד עֲבוֹדָה בְּשַׁבָּת אוֹ בְּיוֹם טוֹב, וְנָטַל רְטִיָּה מֵעַל יָדוֹ שֶׁלֹּא תְּהֵא חוֹצֶצֶת בֵּינוֹ וּבֵין יָדוֹ לָעֲבוֹדָה, מַחֲזִירָהּ בַּמִּקְדָּשׁ, דְּאִי לֹא שָׁרֵית לֵיהּ לְהַחְזִירָהּ לֹא שָׁקֵיל לֵיהּ מִיָּדֵיהּ וּמִמְּנַע וְלֹא עָבֵיד עֲבוֹדָה: אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה — גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִמְרַח הָרְטִיָּה, וּמֵרוּחַ הַיְינוּ מוֹחֵק הָאָמוּר בְּאָבוֹת מְלָאכוֹת שֶׁל שַׁבָּת: מַתְנִי' קוֹשְׁרִין נִימָא — נִימַת כִּנּוֹר שֶׁל שִׁיר הַלְּוִיִּים לַקָּרְבָּן, אִם נִפְסְקָה בְּשַׁבָּת, דְּקָסָבַר מַכְשִׁירֵי מִצְוָה שֶׁלֹּא הָיָה יָכוֹל לַעֲשׂוֹתָן מֵאֶתְמוֹל דּוֹחֶה אֶת הַשַּׁבָּת: מַתְנִי' יַבֶּלֶת — וְהוּא מוּם לַתָּמִיד שֶׁדּוֹחֶה אֶת הַשַּׁבָּת, כִּדְכְתִיב "אוֹ חָרוּץ אוֹ יַבֶּלֶת": חוֹתְכִין יַבֶּלֶת — בְּיָד קָאָמַר: אִם בִּכְלִי כָּאן וְכָאן אָסוּר — דְּאָב מְלָאכָה הֲוֵי, הוֹאִיל וְאֵינוֹ מְשַׁנֶּה מִכְּמוֹת שֶׁעוֹשִׂין בְּחֹל:

Sobre a mishná — "recoloca-se o curativo": sacerdote que foi ferido na mão e colocou sobre ela um curativo desde a véspera, e precisou realizar o serviço em Shabat ou Yom Tov, e retirou o curativo de sua mão para que não interpusesse entre ele e o serviço, recoloca-o no Templo, pois, se não lhe permitissem recolocá-lo, não o tiraria de sua mão e se absteria de fazer o serviço.

"Mas não no resto do país" — por decreto, para que não venha a alisar o curativo, sendo "alisar" uma das categorias principais de trabalho do Shabat.

Sobre a mishná — "amarra-se a corda": corda de instrumento do canto dos levitas para o sacrifício, se rompeu em Shabat, pois entende que os preparativos de um mandamento que não se pôde fazer na véspera afastam o Shabat.

Sobre a mishná — "verruga": e é um defeito no sacrifício diário que afasta o Shabat, como está escrito "ou mutilado, ou com verruga".

"Corta-se a verruga" — fala-se à mão.

"Se é com um instrumento, é proibido em ambos os lugares" — pois é categoria principal de trabalho, já que não se diferencia do modo como se faz em dia comum.