Testemunhou Rabi Nechunia ben Gudgeda sobre a surda-muda que seu pai deu em casamento, que ela sai com um documento de divórcio; e sobre a menor, filha de Israel, que se casou com um sacerdote, que ela come da teruma, e se morrer, seu marido a herda; e sobre a viga roubada que foi construída num edifício, que se paga seu valor; e sobre o sacrifício expiatório roubado que não se tornou conhecido do público, que ele expia — por causa da reparação do altar. — O Perek Zayin se encerra com quatro testemunhos distintos de um único sábio, Rabi Nechunia ben Gudgeda, unidos por um fio comum: em cada caso, a halachá opta por uma solução prática e branda, em vez de uma solução rigorosa que causaria dano desproporcional. Primeiro: uma mulher surda-muda, cujo casamento foi contraído por seu pai quando ela era menor — um casamento plenamente válido pela Torá —, pode ser divorciada com um documento de divórcio comum mesmo depois de adulta e ainda surda-muda, apesar de lhe faltar o discernimento pleno normalmente exigido para receber um get, porque uma mulher pode ser divorciada contra sua vontade, não sendo necessário seu consentimento consciente. Segundo: uma menina órfã, filha de israelita comum, cujo casamento com um sacerdote foi instituído apenas por decreto rabínico (não bíblico, por ser menor), ainda assim come da teruma sacerdotal — e, se morrer, seu marido a herda como qualquer esposa legítima —, pois os Sábios não estenderam suas próprias restrições a ponto de negar-lhe os privilégios que o mesmo decreto rabínico lhe concede. Terceiro: se alguém rouba uma viga de madeira e a constrói na estrutura de um grande edifício, não é obrigado a demolir toda a construção para devolver a viga original — basta pagar seu valor em dinheiro —, por causa de uma "reparação para os que se arrependem" (takanat hashavim): exigir a demolição desencorajaria o ladrão arrependido de sequer tentar reparar seu erro. Quarto: se um animal roubado foi oferecido como sacrifício expiatório (chatat) sem que o roubo se tornasse conhecido publicamente, o sacrifício ainda assim expia e não precisa ser repetido — por causa da "reparação do altar" (tikkun hamizbeach): pois, se cada sacerdote tivesse que temer retroativamente que a carne que comeu era de origem roubada, os sacerdotes se afastariam do serviço, e o altar ficaria ocioso. Em todos os quatro casos, a preocupação pragmática com a continuidade da vida comunitária — o casamento, a família sacerdotal, o arrependimento do ladrão, o funcionamento do Templo — prevalece sobre a aplicação mais estrita da lei.
Rambam explica que, sendo esse casamento um casamento válido segundo a Torá — pois foi o pai quem a deu em casamento —, mesmo que ela não tenha discernimento pleno por ser surda-muda, sai com um documento de divórcio, e esse divórcio é um divórcio completo e válido. Quanto à "viga": trata-se de uma grande viga sobre a qual se apoiam as vigas do teto; e a lei geral é que todo objeto roubado sobre o qual o ladrão já realizou uma transformação irreversível — de modo que não pode devolver a coisa roubada tal como era — deve pagar ao dono o valor daquilo que roubou, para facilitar aos que se arrependem. Já expusemos anteriormente o essencial destes testemunhos, todos claros, no quinto capítulo do tratado Guitin.
Bartenura explica que, embora essa mulher seja plenamente casada — pois seu pai recebeu seu kidushin quando ela ainda era menor —, mesmo assim ela sai com um documento de divórcio e o recebe validamente já sendo surda-muda; e ainda que lhe falte discernimento, isso não impede o divórcio, porque a mulher pode ser divorciada contra sua vontade — portanto não é necessário seu discernimento consciente. Quanto à "menor, filha de Israel, que se casou com um sacerdote": sendo ela órfã, seu casamento é apenas de origem rabínica, e por isso come da teruma apenas por decreto dos Sábios — que não estenderam sua própria decisão sobre a teruma rabínica ao ponto de restringir também a teruma bíblica. Marish significa viga; birá significa casa grande. "Por causa da reparação dos que se arrependem" (takanat hashavim): pois, se exigisses que ele demolisse todo o edifício para devolver a própria viga, ele deixaria de fazer teshuvá. "Não se tornou conhecida do público": isto é, que era roubada. "Que ela expia": e não é preciso trazer outra em seu lugar. "Por causa da reparação do altar" (tikkun hamizbeach): para que os sacerdotes não fiquem angustiados por terem comido carne não sagrada abatida no pátio do Templo, o que faria o altar ficar ocioso, pois os sacerdotes se absteriam de realizar o serviço.