Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Zayin · Mishná 2 de 9

A salmoura dos gafanhotos impuros

הֵעִיד רַבִּי צָדוֹק עַל צִיר חֲגָבִים טְמֵאִים שֶׁהוּא טָהוֹר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Tzadok testemunha que a salmoura de gafanhotos impuros é, ela mesma, pura — ampliando o que a "primeira mishná" já havia dito sobre a mistura de gafanhotos

Testemunhou Rabi Tzadok sobre a salmoura de gafanhotos impuros, que ela é pura — pois a primeira mishná: gafanhotos impuros que foram conservados junto com gafanhotos puros não invalidaram sua salmoura.Esta mishná é breve, mas precisa: uma versão mais antiga da mishná ("mishná rishoná") já havia estabelecido que, quando gafanhotos impuros são conservados em salmoura junto com gafanhotos puros, a presença dos impuros não torna a salmoura proibida para consumo com os puros — porque gafanhotos, ao contrário de outros animais, não possuem sangue verdadeiro, apenas um líquido residual sem status de "sangue" que transmita impureza alimentar. Rabi Tzadok vai além dessa formulação: não apenas a salmoura mista permanece permitida, mas a salmoura de gafanhotos impuros sozinha, sem mistura alguma, é pura em si mesma. Esta é uma ampliação (não uma contradição) do ensinamento anterior — o testemunho de Rabi Tzadok esclarece que a razão da permissão não é a diluição pelos gafanhotos puros, mas a natureza mesma do líquido dos gafanhotos, que nunca chega a ter status de sangue capaz de transmitir impureza.

הֵעִיד רַבִּי צָדוֹק עַל צִיר חֲגָבִים טְמֵאִים, שֶׁהוּא טָהוֹר. שֶׁמִּשְׁנָה רִאשׁוֹנָה, חֲגָבִים טְמֵאִים שֶׁנִּכְבְּשׁוּ עִם חֲגָבִים טְהוֹרִים, לֹא פָסְלוּ צִירָן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 7:2
חֲגָבִים מִינֵי הָאַרְבֶּה, וְצִירָן הוּא הָרֹטֶב הַיּוֹצֵא מֵהֶם, וְאֵינוֹ אָסוּר וַאֲפִלּוּ מֵחֲגָבִים טְמֵאִין, לְפִי שֶׁאֵין הַחֲגָבִין מִבַּעֲלֵי הַדָּם...

Rambam explica que chagavim são espécies de gafanhotos, e sua tzir (salmoura) é o líquido que deles se exsuda. Este líquido não é proibido, mesmo quando exsudado de gafanhotos impuros, porque os gafanhotos não pertencem à categoria de animais "que têm sangue" — isto é, seu líquido corporal não tem o status halárico de sangue capaz de transmitir impureza a outros alimentos. E do mesmo modo, este líquido em si mesmo é puro para consumo — não é como líquidos impuros que transmitem impureza. E isto é o que disseram: "o que é puro para permitir [a mistura], também é puro para não transmitir impureza a nada" — pois a impureza alimentar, quando existe, se aplica a qualquer quantidade mínima. E a lei segue este testemunho, já antecipado no décimo capítulo do tratado Terumot.

Bartenura · Eduyot 7:2
לֹא פָסְלוּ אֶת צִירָן. דְּהֵקֵלּוּ בְּצִיר שֶׁל חֲגָבִים טְמֵאִים שֶׁאֵינוֹ אוֹסֵר תַּעֲרָבְתּוֹ, מִפְּנֵי שֶׁאֵין לָהֶם דָּם וְאֵינוֹ אֶלָּא לַחְלוּחִית בְּעָלְמָא...

Bartenura explica que os Sábios foram leves quanto à salmoura de gafanhotos impuros, não a proibindo mesmo quando misturada com salmoura de gafanhotos puros, porque os gafanhotos não têm sangue verdadeiro — o que deles escorre é mera umidade, sem status halárico de sangue. Esta era a "primeira mishná" (a versão anterior, mais antiga, do ensinamento). O testemunho de Rabi Tzadok acrescenta a essa primeira mishná: não bastava dizer que a salmoura mista não é proibida — ele afirma que a própria salmoura, mesmo isolada dos gafanhotos puros, é pura em si mesma.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.