Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Hei · Mishná 6 de 7

Akavya ben Mahalalel e o banimento

עֲקַבְיָא בֶּן מַהֲלַלְאֵל הֵעִיד אַרְבָּעָה דְבָרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Um dos relatos mais citados da tradição rabínica sobre integridade intelectual e o preço da opinião minoritária

Akavya ben Mahalalel testemunhou quatro coisas. Disseram-lhe: Akavya, retrata-te das quatro coisas que costumavas dizer, e te faremos av beit din de Israel. Disse-lhes ele: É melhor para mim ser chamado tolo por todos os meus dias, do que tornar-me, por uma única hora, ímpio diante do Onipresente — para que não digam: por causa de um cargo de autoridade ele se retratou.

Ele costumava declarar impuro o cabelo depositado e o sangue verde. E os Sábios declaram puro. Ele costumava permitir a lã de um primogênito com defeito que caiu e foi colocada num nicho, e depois [o animal] foi abatido. E os Sábios proíbem. Ele costumava dizer: não se dão a beber as águas amargas nem à convertida nem à liberta. E os Sábios dizem: dá-se a beber. Disseram-lhe: houve um caso com Karkemit, uma escrava liberta que estava em Jerusalém, e Shemaiá e Avtalion a fizeram beber. Disse-lhes ele: deram-lhe de beber um exemplo semelhante.

E o baniram, e ele morreu sob seu banimento, e o tribunal apedrejou seu caixão. Disse Rabi Yehuda: Deus me livre de dizer que Akavya foi banido! Pois o pátio [do Templo] nunca se fechou diante de nenhum homem de Israel tão grande em sabedoria e em temor do pecado quanto Akavya ben Mahalalel. Mas a quem, então, baniram? A Eliezer ben Chanoch, que pôs em dúvida a pureza das mãos. E quando ele morreu, o tribunal enviou [alguém] e colocaram uma pedra sobre seu caixão. Isso ensina que todo aquele que é banido e morre sob seu banimento, apedreja-se o seu caixão.Este é um dos textos morais mais lidos de toda a literatura tanaítica. Akavya ben Mahalalel sustentava quatro posições minoritárias em matéria de pureza ritual e de sotá (a mulher suspeita de adultério submetida às "águas amargas"). Quando lhe oferecem o mais alto cargo do tribunal de Israel em troca de retratação, ele recusa — não porque tenha certeza absoluta de suas posições, mas precisamente para que ninguém possa dizer, mais tarde, que ele trocou verdade por poder. Sua recusa lhe custa o nidui (banimento) e, segundo a leitura simples do texto, sua morte sob banimento e o apedrejamento simbólico de seu caixão — a marca mais severa de reprovação social na lei rabínica. Mas a mishná termina com uma reviravolta notável: Rabi Yehuda recusa-se a aceitar que um homem da estatura moral de Akavya tenha sido realmente banido, e revela que o verdadeiro banido foi outro sábio, Eliezer ben Chanoch, que duvidou publicamente da validade da própria instituição da pureza das mãos — um ato de desprezo pela autoridade rabínica, e não uma discordância halachica sincera como a de Akavya. A distinção é central: discordar com integridade, ainda que sozinho contra todos, não é o mesmo que zombar da tradição.

עֲקַבְיָא בֶּן מַהֲלַלְאֵל הֵעִיד אַרְבָּעָה דְבָרִים. אָמְרוּ לוֹ, עֲקַבְיָא, חֲזֹר בְּךָ בְּאַרְבָּעָה דְבָרִים שֶׁהָיִיתָ אוֹמֵר וְנַעֲשְׂךָ אַב בֵּית דִּין לְיִשְׂרָאֵל. אָמַר לָהֶן, מוּטָב לִי לְהִקָּרֵא שׁוֹטֶה כָּל יָמַי, וְלֹא לֵעָשׂוֹת שָׁעָה אַחַת רָשָׁע לִפְנֵי הַמָּקוֹם, שֶׁלֹּא יִהְיוּ אוֹמְרִים, בִּשְׁבִיל שְׂרָרָה חָזַר בּוֹ. הוּא הָיָה מְטַמֵּא שְׂעַר הַפִּקֻּדָּה וְדַם הַיָּרוֹק. וַחֲכָמִים מְטַהֲרִין. הוּא הָיָה מַתִּיר שְׂעַר בְּכוֹר בַּעַל מוּם שֶׁנָּשַׁר וְהִנִּיחוֹ בְּחַלּוֹן וְאַחַר כָּךְ שְׁחָטוֹ. וַחֲכָמִים אוֹסְרִים. הוּא הָיָה אוֹמֵר, אֵין מַשְׁקִין לֹא אֶת הַגִּיֹּרֶת וְלֹא אֶת הַמְשֻׁחְרֶרֶת. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, מַשְׁקִין. אָמְרוּ לוֹ, מַעֲשֶׂה בְּכַרְכְּמִית, שִׁפְחָה מְשֻׁחְרֶרֶת שֶׁהָיְתָה בִירוּשָׁלַיִם, וְהִשְׁקוּהָ שְׁמַעְיָה וְאַבְטַלְיוֹן. אָמַר לָהֶם, דֻּגְמָא הִשְׁקוּהָ. וְנִדּוּהוּ, וּמֵת בְּנִדּוּיוֹ, וְסָקְלוּ בֵית דִּין אֶת אֲרוֹנוֹ. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, חַס וְשָׁלוֹם שֶׁעֲקַבְיָא נִתְנַדָּה, שֶׁאֵין עֲזָרָה נִנְעֶלֶת בִּפְנֵי כָל אָדָם מִיִּשְׂרָאֵל בְּחָכְמָה וּבְיִרְאַת חֵטְא כַּעֲקַבְיָא בֶּן מַהֲלַלְאֵל. וְאֶת מִי נִדּוּ, אֱלִיעֶזֶר בֶּן חֲנוֹךְ, שֶׁפִּקְפֵּק בְּטָהֳרַת יָדָיִם. וּכְשֶׁמֵּת, שָׁלְחוּ בֵית דִּין וְהִנִּיחוּ אֶבֶן עַל אֲרוֹנוֹ. מְלַמֵּד שֶׁכָּל הַמִּתְנַדֶּה וּמֵת בְּנִדּוּיוֹ, סוֹקְלִין אֶת אֲרוֹנוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Vayikrá 13:10, 13:20 — a marca do cabelo branco na chaga da tzaraat
וְשֵׂעָר לָבָן הָפַךְ
"...e o pelo se tornou branco..."
É sobre a expressão "ela se tornou" (vehi hafcha), referida à própria mancha (bahéret), que se apoia a disputa sobre o "cabelo depositado" (se'ar hapikudá): se uma mancha que já causou a mudança do pelo para branco desaparece, e depois retorna no mesmo lugar, é a mesma mancha original — que já cumpriu a condição — ou uma nova, que ainda não a cumpriu? Akavya sustentava a primeira opinião; os Sábios, a segunda.
Bamidbar 5:21 — a fórmula das águas amargas, "em meio ao teu povo"
בְּתֵת ה' אֶת יְרֵכֵךְ נֹפֶלֶת וְאֶת בִּטְנֵךְ צָבָה לְאָלָה וְלִשְׁבֻעָה בְּתוֹךְ עַמֵּךְ
"...quando o Eterno fizer cair a tua coxa e inchar o teu ventre — para maldição e para juramento, em meio ao teu povo."
Bartenura cita esta expressão — "em meio ao teu povo" — como o fundamento textual da posição de Akavya: a convertida e a liberta, não fazendo parte do povo de nascença, estariam excluídas do rito das águas amargas. Os Sábios discordaram dessa leitura, e o caso de Karkemit foi trazido como suposto precedente contrário — que Akavya reinterpretou como um simples exemplo demonstrativo, não como a aplicação real do rito.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 5:6
איזהו שער הפקודה מי שהיתה בו בהרת ובו שער לבן והפכה הבהרת והניחה שער לבן במקומו וחזרה... וגזיזת הבכור אסור אמרה תורה לא תגוז בכור צאנך...

Rambam explica: "cabelo depositado" é o caso de alguém que tinha uma mancha (bahéret) com cabelo branco dentro dela; a mancha desapareceu, deixando o cabelo branco em seu lugar, e depois a mancha retornou. Akavya entende que o próprio cabelo já foi "invertido" pela mancha original, e por isso a nova mancha — que reencontra o mesmo cabelo já branco — é considerada como se ela mesma o tivesse invertido; os Sábios entendem que só se considera "ela inverteu o cabelo" quando é a mesma mancha, sem interrupção, que causa a mudança — e não uma mancha que retorna depois de ter desaparecido.

Quanto à lã do primogênito com defeito: a Torá proíbe tosquiá-lo enquanto vivo ["não tosquiarás o primogênito do teu rebanho"], mas se parte da lã cai por si só antes do abate, Akavya permite usufruir dela depois do abate, pois, uma vez abatido, cessa a proibição sobre ele; os Sábios proíbem, por temor de que se acabe demorando o abate do animal só para que caia mais lã, chegando-se à própria tosquia proibida.

Bartenura · Eduyot 5:6
שְׂעַר פְּקֻדָּה. לְשׁוֹן פִּקָּדוֹן, שֶׁהִפְקִידָה הַבַּהֶרֶת אֶת הַשֵׂעָר... אֵין עֲזָרָה נִנְעֶלֶת... סוֹקְלִים אֶת אֲרוֹנוֹ. לָאו דַּוְקָא סוֹקְלִים, אֶלָּא מַנִּיחִים אֶבֶן בִּלְבַד לְהֶכֵּר...

Bartenura explica: "cabelo depositado" — linguagem de depósito (pikadon), pois a mancha "depositou" o cabelo na pele e se retirou, e depois retornou. Akavya declara impuro, pois, mesmo sendo a mancha atual diferente daquela que originalmente inverteu o cabelo, este continua branco; os Sábios declaram puro, apoiados na leitura de "e ela inverteu o cabelo" — foi ela, a mesma mancha, que o inverteu, e não outra.

Sobre "não sela a pátio diante de ninguém": Rabi Yehuda testemunha que jamais houve, entre todo o povo de Israel que se reuniu no pátio do Templo nas três rondas da noite pascal, ninguém igual a Akavya em sabedoria e temor do pecado — por isso é impensável que ele tenha sido banido. "Apedrejam seu caixão" não significa literalmente apedrejar, mas apenas colocar uma pedra sobre ele, como sinal de que seus colegas se distanciaram dele.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.