Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Hei · Mishná 7 de 7

As últimas palavras de Akavya

בִּשְׁעַת מִיתָתוֹ אָמַר לִבְנוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerramento do Perek Hei: o diálogo final entre Akavya e seu filho sobre a maioria, a tradição e a integridade

No momento de sua morte, disse a seu filho: Meu filho, retrata-te das quatro coisas que eu costumava dizer. Disse-lhe ele: E por que tu mesmo não te retrataste? Disse-lhe: Eu ouvi da boca da maioria, e eles ouviram da boca da maioria. Eu me mantive firme na tradição que ouvi, e eles se mantiveram firmes na tradição que ouviram. Mas tu ouviste da boca de um único indivíduo, e da boca da maioria. É melhor abandonar as palavras do indivíduo isolado e se apegar às palavras da maioria. Disse-lhe: Pai, recomenda-me aos teus colegas. Disse-lhe: Não te recomendarei. Disse-lhe: Acaso encontraste em mim alguma iniquidade? Disse-lhe: Não. Os teus próprios atos te aproximarão, e os teus próprios atos te afastarão.A última mishná do Perek Hei fecha o relato de Akavya ben Mahalalel com um ensinamento que se tornou clássico sobre o valor da tradição recebida e os limites da opinião individual. No leito de morte, Akavya pede ao próprio filho que abandone as quatro posições que ele — Akavya — jamais abandonara em vida. A pergunta do filho é natural: se seu pai nunca recuou, por que exige agora que ele o faça? A resposta de Akavya não é uma retratação disfarçada, mas uma distinção lógica precisa: ele mesmo recebeu sua tradição diretamente "da boca da maioria" — de muitos mestres, tanto quanto os que discordavam dele — e por isso tinha o mesmo direito de se manter firme nela que os Sábios tinham na sua. Mas seu filho recebeu a posição de Akavya apenas de um único indivíduo — o próprio pai — enquanto a posição da maioria lhe chega de muitas fontes; nesse caso, a balança pende claramente para a maioria. É um raciocínio sobre a força relativa das tradições, não sobre quem "tinha razão". Por fim, quando o filho pede uma recomendação pessoal aos colegas do pai, Akavya recusa — não por encontrar falha nele, mas porque, como diz a última frase da mishná e do próprio perek, são os atos de cada pessoa, e não o nome ou a recomendação de terceiros, que a aproximam ou a afastam da estima alheia.

בִּשְׁעַת מִיתָתוֹ אָמַר לִבְנוֹ, בְּנִי, חֲזֹר בְּךָ בְּאַרְבָּעָה דְבָרִים שֶׁהָיִיתִי אוֹמֵר. אָמַר לוֹ, וְלָמָּה לֹא חָזַרְתָּ בָּךְ. אָמַר לוֹ, אֲנִי שָׁמַעְתִּי מִפִּי הַמְרֻבִּים, וְהֵם שָׁמְעוּ מִפִּי הַמְרֻבִּים. אֲנִי עָמַדְתִּי בִּשְׁמוּעָתִי, וְהֵם עָמְדוּ בִּשְׁמוּעָתָן. אֲבָל אַתָּה שָׁמַעְתָּ מִפִּי הַיָּחִיד, וּמִפִּי הַמְרֻבִּין. מוּטָב לְהַנִּיחַ דִּבְרֵי הַיָּחִיד, וְלֶאֱחֹז בְּדִבְרֵי הַמְרֻבִּין. אָמַר לוֹ, אַבָּא, פְּקֹד עָלַי לַחֲבֵרֶיךָ. אָמַר לוֹ, אֵינִי מַפְקִיד. אָמַר לוֹ, שֶׁמָּא עֲוֶלָה מָצָאתָ בִּי. אָמַר לוֹ, לָאו. מַעֲשֶׂיךָ יְקָרְבוּךָ וּמַעֲשֶׂיךָ יְרַחֲקוּךָ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 5:7
אמר לו מוטב להניח דברי היחיד ולא אמר לו שזה הראוי לו ואתה יודע עיקר התורה אחרי רבים להטות...

Rambam observa uma sutileza na linguagem de Akavya: ele disse a seu filho "é melhor abandonar as palavras do indivíduo isolado" — e não disse que essa era, em termos absolutos, a obrigação halachica, embora o princípio da Torá seja "seguir a maioria". Akavya expressou-se assim porque também ele, o próprio Akavya, recebeu sua posição de uma pluralidade de mestres, como já foi dito; e não é condição necessária para que a tradição de alguém seja válida que ele próprio a tenha recebido "da maioria" — mas quando os que a receberam são muitos, e um único indivíduo recebeu de muitos [uma posição diferente], é mais adequado seguir as palavras daqueles que receberam da maioria, como o próprio Akavya explicou a seu filho. E fica claro que a lei não segue Akavya ben Mahalalel em nenhuma das quatro posições.

Bartenura · Eduyot 5:7
בְּאַרְבָּעָה דְבָרִים. שְׂעַר פְּקֻדָּה וְדַם הַיָּרוֹק וּשְׂעַר בְּכוֹר הַתָּלוּשׁ וְהַשְׁקָאַת גִּיֹּרֶת וּמְשֻׁחְרֶרֶת... וְאֵין הֲלָכָה כַּעֲקַבְיָא בֶּן מַהֲלַלְאֵל בְּכָל אַרְבָּעָה דְּבָרִים הַלָּלוּ:

Bartenura explica: "as quatro coisas" são o cabelo depositado, o sangue verde, a lã caída do primogênito, e o dar de beber as águas amargas à convertida e à liberta. "É melhor abandonar as palavras do indivíduo isolado" — pois também ele [Akavya] recebeu sua posição da maioria, e suas palavras equivaliam às palavras da maioria; por isso disse "é melhor", e não "é obrigatório" — pois, se assim não fosse, que sentido teria dizer "é melhor"? Não é a própria Torá que diz "seguir a maioria", obrigando a abandonar as palavras do indivíduo isolado ainda que contra sua vontade? A razão de dizer "é melhor", e não "é obrigatório", é justamente porque também ele recebeu de uma maioria, como se explicou. E a lei não segue Akavya ben Mahalalel em nenhuma destas quatro coisas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.