Um vaso de barro protege tudo [o que está dentro dele] — palavras de Beit Hilel. E Beit Shamai diz: não protege senão os alimentos, as bebidas e os vasos de barro. Disseram-lhes Beit Hilel: por que razão? Disseram-lhes Beit Shamai: porque ele está impuro por causa do am ha'aretz, e vaso impuro não interpõe. Disseram-lhes Beit Hilel: acaso não declarastes puros os alimentos e as bebidas que estão dentro dele? Disseram-lhes Beit Shamai: quando declaramos puros os alimentos e as bebidas que estão dentro dele, declaramos puro para ele mesmo; mas quando tu declaraste puro o vaso, declaraste puro para ti e para ele. Beit Hilel voltou atrás para ensinar segundo as palavras de Beit Shamai. — A mishná final do capítulo — e o terceiro e último caso de reversão de Beit Hilel — trata de um princípio da Torá (Bemidbar 19:15): um vaso aberto envolto numa "tampa bem ajustada" (tzamid patil) protege seu conteúdo da impureza do teto do morto. A questão é se essa proteção se estende a qualquer objeto dentro do vaso (posição original de Beit Hilel) ou apenas a alimentos, bebidas e outros vasos de barro (Beit Shamai). O argumento decisivo de Beit Shamai é sutil: como os pertences de um am ha'aretz (pessoa não versada nas leis de pureza) são presumidos impuros, e vaso impuro não protege nada, o vaso de barro de um am ha'aretz não poderia, a rigor, proteger coisa alguma — mas os Sábios permitiram, como leniência prática, declarar puros apenas os alimentos e bebidas que não têm purificação de outro modo, sem estender essa leniência a vasos que um erudito poderia pedir emprestado e usar por engano, pensando-os puros de fato.
Rambam parte do versículo (Bemidbar 19:15): "e todo vaso aberto que não tiver uma tampa bem ajustada sobre ele está impuro" — do que se conclui que, se tivesse tampa bem ajustada, protegeria tudo o que há dentro (alimentos, bebidas, vasos de barro e demais utensílios) tanto do teto do morto quanto do teto do réptil, como se explicará no nono capítulo do tratado Kelim. Por tradição, sabe-se que o vaso mencionado no versículo é especificamente o vaso de barro.
Rambam expõe o raciocínio completo de Beit Shamai: como tudo o que se encontra junto a um am ha'aretz é presumido impuro (por sua falta de conhecimento das leis de pureza), e vaso impuro não interpõe contra a impureza, o vaso de barro de um am ha'aretz — sendo ele mesmo presumido impuro — não deveria, a rigor, proteger nada. Mas, quanto a alimentos, bebidas e vasos de barro, que não têm purificação possível de outro modo (o vaso de barro só se purifica quebrando-se, e alimentos e bebidas impuros nunca mais se purificam), os Sábios permitiram dizer ao próprio am ha'aretz que estão puros — pois não há risco de um erudito (talmid chacham) vir pedi-los emprestados, já que ele sabe que são impuros e sem remédio.
Mas quanto aos demais vasos — de madeira, de metal, vestes — que o erudito poderia legitimamente pedir emprestados ao am ha'aretz (pois estes têm purificação no mikvê), há o risco real de que o erudito receba um vaso que na verdade esteve sob o teto do morto, pensando erroneamente que a tampa bem ajustada do am ha'aretz o protegeu, e o use em coisas sagradas sem a devida aspersão do terceiro e do sétimo dia. Por isso, para não distinguir entre o vaso do erudito e o do am ha'aretz, os Sábios decretaram uma única lei para todos: o vaso de barro protege apenas alimentos, bebidas e outros vasos de barro — precisamente aquilo que, de todo modo, já não se pede emprestado ao am ha'aretz.
Bartenura explica que um vaso de barro envolto em tampa bem ajustada protege tudo o que está dentro dele quando exposto ao teto do morto, com base no versículo "e todo vaso aberto que não tiver tampa bem ajustada sobre ele está impuro" (Bemidbar 19) — do que se conclui que, tendo tampa bem ajustada, ele é puro, e também o que está dentro dele, sem diferença entre utensílios, alimentos e bebidas.
"Não protege senão alimentos, bebidas e vasos de barro" porque, segundo Beit Shamai, tudo o que se encontra junto aos amei ha'aretz está em presunção de impureza — pois eles não são versados nas leis de pureza — e "vaso impuro não interpõe": só um vaso puro protege o que está dentro dele.
"Declaramos puro para ele mesmo": os Sábios permitiram declarar puros, apenas para o próprio am ha'aretz, os alimentos e bebidas que de outro modo jamais se purificariam — sem temer que um chaver [erudito observante das leis de pureza] venha usá-los, pois este naturalmente evita todo contato com os pertences do am ha'aretz. Mas quanto aos vasos laváveis — que o chaver poderia legitimamente pedir emprestados e mergulhar no mikvê, pensando erroneamente que a simples imersão bastaria para removê-los da impureza contraída sob o teto do morto (sem saber da necessidade da aspersão do terceiro e sétimo dia) — "declaraste puro para ti e para ele", pois o erudito viria de fato a usá-los. Por isso os Sábios estabeleceram uma lei única, igual para todos: nenhum vaso lavável se protege por tampa bem ajustada, seja do chaver seja do am ha'aretz.