Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Alef · Mishná 14 de 14

O vaso de barro que protege tudo o que está dentro dele

כְּלִי חֶרֶס מַצִּיל עַל הַכֹּל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Beit Hilel volta atrás: o alcance da proteção do vaso selado

Um vaso de barro protege tudo [o que está dentro dele] — palavras de Beit Hilel. E Beit Shamai diz: não protege senão os alimentos, as bebidas e os vasos de barro. Disseram-lhes Beit Hilel: por que razão? Disseram-lhes Beit Shamai: porque ele está impuro por causa do am ha'aretz, e vaso impuro não interpõe. Disseram-lhes Beit Hilel: acaso não declarastes puros os alimentos e as bebidas que estão dentro dele? Disseram-lhes Beit Shamai: quando declaramos puros os alimentos e as bebidas que estão dentro dele, declaramos puro para ele mesmo; mas quando tu declaraste puro o vaso, declaraste puro para ti e para ele. Beit Hilel voltou atrás para ensinar segundo as palavras de Beit Shamai.A mishná final do capítulo — e o terceiro e último caso de reversão de Beit Hilel — trata de um princípio da Torá (Bemidbar 19:15): um vaso aberto envolto numa "tampa bem ajustada" (tzamid patil) protege seu conteúdo da impureza do teto do morto. A questão é se essa proteção se estende a qualquer objeto dentro do vaso (posição original de Beit Hilel) ou apenas a alimentos, bebidas e outros vasos de barro (Beit Shamai). O argumento decisivo de Beit Shamai é sutil: como os pertences de um am ha'aretz (pessoa não versada nas leis de pureza) são presumidos impuros, e vaso impuro não protege nada, o vaso de barro de um am ha'aretz não poderia, a rigor, proteger coisa alguma — mas os Sábios permitiram, como leniência prática, declarar puros apenas os alimentos e bebidas que não têm purificação de outro modo, sem estender essa leniência a vasos que um erudito poderia pedir emprestado e usar por engano, pensando-os puros de fato.

כְּלִי חֶרֶס מַצִּיל עַל הַכֹּל, כְּדִבְרֵי בֵית הִלֵּל. וּבֵית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵינוֹ מַצִּיל אֶלָּא עַל הָאֳכָלִין וְעַל הַמַּשְׁקִין וְעַל כְּלֵי חָרֶס. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית הִלֵּל, מִפְּנֵי מָה. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, מִפְּנֵי שֶׁהוּא טָמֵא עַל גַּב עַם הָאָרֶץ, וְאֵין כְּלִי טָמֵא חוֹצֵץ. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית הִלֵּל, וַהֲלֹא טִהַרְתֶּם אֳכָלִים וּמַשְׁקִין שֶׁבְּתוֹכוֹ. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, כְּשֶׁטִּהַרְנוּ אֳכָלִים וּמַשְׁקִין שֶׁבְּתוֹכוֹ, לְעַצְמוֹ טִהַרְנוּ. אֲבָל כְּשֶׁטִּהַרְתָּ אֶת הַכְּלִי, טִהַרְתָּ לְךָ וָלוֹ. חָזְרוּ בֵית הִלֵּל לְהוֹרוֹת כְּדִבְרֵי בֵית שַׁמָּא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 1:14
אָמַר רַחֲמָנָא וְכָל כְּלִי פָתוּחַ אֲשֶׁר אֵין צָמִיד פָּתִיל עָלָיו טָמֵא הוּא...

Rambam parte do versículo (Bemidbar 19:15): "e todo vaso aberto que não tiver uma tampa bem ajustada sobre ele está impuro" — do que se conclui que, se tivesse tampa bem ajustada, protegeria tudo o que há dentro (alimentos, bebidas, vasos de barro e demais utensílios) tanto do teto do morto quanto do teto do réptil, como se explicará no nono capítulo do tratado Kelim. Por tradição, sabe-se que o vaso mencionado no versículo é especificamente o vaso de barro.

Rambam expõe o raciocínio completo de Beit Shamai: como tudo o que se encontra junto a um am ha'aretz é presumido impuro (por sua falta de conhecimento das leis de pureza), e vaso impuro não interpõe contra a impureza, o vaso de barro de um am ha'aretz — sendo ele mesmo presumido impuro — não deveria, a rigor, proteger nada. Mas, quanto a alimentos, bebidas e vasos de barro, que não têm purificação possível de outro modo (o vaso de barro só se purifica quebrando-se, e alimentos e bebidas impuros nunca mais se purificam), os Sábios permitiram dizer ao próprio am ha'aretz que estão puros — pois não há risco de um erudito (talmid chacham) vir pedi-los emprestados, já que ele sabe que são impuros e sem remédio.

Mas quanto aos demais vasos — de madeira, de metal, vestes — que o erudito poderia legitimamente pedir emprestados ao am ha'aretz (pois estes têm purificação no mikvê), há o risco real de que o erudito receba um vaso que na verdade esteve sob o teto do morto, pensando erroneamente que a tampa bem ajustada do am ha'aretz o protegeu, e o use em coisas sagradas sem a devida aspersão do terceiro e do sétimo dia. Por isso, para não distinguir entre o vaso do erudito e o do am ha'aretz, os Sábios decretaram uma única lei para todos: o vaso de barro protege apenas alimentos, bebidas e outros vasos de barro — precisamente aquilo que, de todo modo, já não se pede emprestado ao am ha'aretz.

Bartenura · Eduyot 1:14
כְּלִי חֶרֶס מַצִּיל עַל הַכֹּל. כְּלִי חֶרֶס הַמֻּקָּף צָמִיד פָּתִיל מַצִּיל עַל כָּל מַה שֶּׁבְּתוֹכוֹ...

Bartenura explica que um vaso de barro envolto em tampa bem ajustada protege tudo o que está dentro dele quando exposto ao teto do morto, com base no versículo "e todo vaso aberto que não tiver tampa bem ajustada sobre ele está impuro" (Bemidbar 19) — do que se conclui que, tendo tampa bem ajustada, ele é puro, e também o que está dentro dele, sem diferença entre utensílios, alimentos e bebidas.

"Não protege senão alimentos, bebidas e vasos de barro" porque, segundo Beit Shamai, tudo o que se encontra junto aos amei ha'aretz está em presunção de impureza — pois eles não são versados nas leis de pureza — e "vaso impuro não interpõe": só um vaso puro protege o que está dentro dele.

"Declaramos puro para ele mesmo": os Sábios permitiram declarar puros, apenas para o próprio am ha'aretz, os alimentos e bebidas que de outro modo jamais se purificariam — sem temer que um chaver [erudito observante das leis de pureza] venha usá-los, pois este naturalmente evita todo contato com os pertences do am ha'aretz. Mas quanto aos vasos laváveis — que o chaver poderia legitimamente pedir emprestados e mergulhar no mikvê, pensando erroneamente que a simples imersão bastaria para removê-los da impureza contraída sob o teto do morto (sem saber da necessidade da aspersão do terceiro e sétimo dia) — "declaraste puro para ti e para ele", pois o erudito viria de fato a usá-los. Por isso os Sábios estabeleceram uma lei única, igual para todos: nenhum vaso lavável se protege por tampa bem ajustada, seja do chaver seja do am ha'aretz.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.