Aquele que é metade escravo e metade livre trabalha para o seu senhor um dia, e para si mesmo um dia — palavras de Beit Hilel. Disseram-lhes Beit Shamai: consertastes [a situação] de seu senhor, mas a dele mesmo não consertastes: casar com uma escrava, ele não pode; com uma mulher livre, ele não pode. Deveria abster-se? Mas o mundo não foi criado senão para procriar e multiplicar-se, como está dito: "Não a criou caos, formou-a para ser habitada." Mas, por causa da correta ordem do mundo, obriga-se o seu senhor, e ele o torna livre, e escreve um documento sobre a metade de seu valor. Beit Hilel voltou atrás para ensinar como Beit Shamai. — Este é o segundo dos três casos em que Beit Hilel reconhece o erro de sua posição original. O cenário: um escravo pertencente a dois sócios que foi alforriado apenas por um deles (ou parcialmente alforriado pelo próprio senhor) fica em condição ambígua — metade livre, metade escravo. A solução original de Beit Hilel (trabalhar dias alternados para cada "metade" de si mesmo) resolve o problema do senhor, mas deixa o escravo incapaz de se casar legalmente com ninguém — nem com uma escrava (por seu lado livre) nem com uma mulher livre (por seu lado escravo). Beit Shamai invoca o propósito fundamental da criação, citando Isaías, para justificar uma solução mais drástica: forçar o(s) senhor(es) a completar a alforria, compensados por um documento de dívida pelo valor restante.
Beit Shamai invoca este versículo para fundamentar sua objeção à solução original de Beit Hilel: um mundo criado “para ser habitado” — isto é, para a procriação humana — não pode tolerar uma situação em que uma pessoa fique legalmente impedida de se casar com ninguém. O argumento é de propósito (tichlit habriá), não de proibição técnica direta: a Torá não fixa medida para este preceito, mas a existência mesma da criação testemunha sua centralidade, forçando os Sábios a uma solução prática (a alforria forçada) ainda que onerosa para o senhor.
Rambam esclarece que não há diferença entre o caso de um escravo de dois sócios em que um deles alforria sua parte, e o caso em que o senhor recebe do próprio escravo parte de seu valor e o alforria com esse dinheiro; e, do mesmo modo, se houvesse muitos senhores e apenas um deles alforriasse sua parte, obrigam-se todos os demais a completar a alforria. Esta halachá já foi explicada no quarto capítulo do tratado Guitin.
Bartenura explica que o caso típico é o de um escravo pertencente a dois sócios, sendo que um deles o alforriou — ou, igualmente, que o próprio senhor recebeu do escravo metade de seu valor e o alforriou com esse dinheiro.
"Consertastes a situação de seu senhor" — que não sofre nenhuma perda financeira com a solução de Beit Hilel. "Casar com uma escrava, ele não pode" — por causa do lado de liberdade que há nele; "com uma mulher livre, ele não pode" — por causa do lado de escravidão que há nele.
"Obriga-se o seu senhor e ele o torna livre" — e a mesma regra se aplica mesmo que o escravo pertencesse a cem sócios e apenas um deles o tivesse alforriado: obrigam-se todos os demais a completar sua alforria.