Seder Zeraim · Massechet Demai · Perek Vav · Mishná 7

Dois que colheram suas vinhas para um só lagar

שְׁנַיִם שֶׁבָּצְרוּ אֶת כַּרְמֵיהֶם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quando dois sócios de confiabilidade desigual misturam suas uvas num único lagar, o produto que sai já misturado exige uma nova análise: a parte do confiável é certa, mas a do outro continua sendo demai onde quer que se encontre

Dois que colheram suas vinhas para dentro de um só lagar, um dizima e o outro não dizima: aquele que dizima dizima sua própria parte, e a parte de seu sócio, onde quer que esteja, é demai.

שְׁנַיִם שֶׁבָּצְרוּ אֶת כַּרְמֵיהֶם לְתוֹךְ גַּת אַחַת, אֶחָד מְעַשֵּׂר וְאֶחָד שֶׁאֵינוֹ מְעַשֵּׂר, הַמְעַשֵּׂר מְעַשֵּׂר אֶת שֶׁלּוֹ, וְחֶלְקוֹ בְּכָל מָקוֹם שֶׁהוּא:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta Mishná retorna ao tema da mistura de produtos de confiabilidade diferente — um problema técnico central para todo o conceito de demai.

Vayikrá (Levítico) 27:30
וְכָל מַעְשַׂר הָאָרֶץ מִזֶּרַע הָאָרֶץ מִפְּרִי הָעֵץ לַה' הוּא, קֹדֶשׁ לַה'.
"E todo dízimo da terra, da semente da terra, do fruto da árvore, pertence ao Senhor; é sagrado para o Senhor" (Vayikrá 27:30) — a base bíblica geral da obrigação do dízimo, aqui aplicada a um caso em que dois volumes de uvas de proveniência diferente se fundem fisicamente num único lagar.

Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta. A obrigação de dizimar as uvas é bíblica; mas a questão específica aqui — o que ocorre quando dois sócios, um confiável quanto aos dízimos (ne'eman) e outro não confiável, colhem suas uvas separadamente e as despejam juntas num único lagar para prensagem — é puramente técnica e rabínica. Enquanto as uvas estavam ainda inteiras (não colhidas, ou colhidas mas não misturadas), cada parte era identificável fisicamente: a de cada sócio podia ser corrigida (ou não) segundo sua própria confiabilidade. Mas, uma vez que ambas as porções são despejadas juntas no lagar e se tornam mosto misturado, a Mishná ensina que aquele que é confiável em relação aos dízimos separa o correspondente à sua própria metade do total (a metade que originalmente lhe pertencia), e a outra metade — a do sócio não confiável — permanece demai, esteja onde estiver dentro do produto final misturado. O motivo é que, sem um mecanismo de "designação retroativa" (bererá) reconhecido para produtos já misturados e não separáveis fisicamente, teme-se que metade do que o sócio confiável tomou para si seja, na verdade, fisicamente a porção do sócio não confiável, e vice-versa — de modo que ele deve dizimar como demai a metade que ficou em suas mãos, ainda que já tenha corrigido integralmente sua própria porção original.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Nenhuma halachá equivalente foi localizada em Hilchot Maasserot ou Hilchot Terumot do Mishné Torá. Uma busca dirigida nesses dois livros de Sefer Zeraim — bem como no restante da obra — não encontrou codificação explícita deste caso específico de dois sócios de confiabilidade desigual que despejam suas uvas juntas num único lagar. Ao contrário das mishnayot 6:1 a 6:5 e 6:8 deste mesmo perek, cujo conteúdo o Rambam reproduz quase palavra por palavra em Hilchot Maasserot capítulo 6, este caso não aparece formulado ali nem em outro capítulo correlato. É possível que o Rambam tenha considerado esta regra já suficientemente abrangida pelos princípios gerais de ein bererá (ausência de designação retroativa em bens misturados) enunciados alhures, sem necessidade de repeti-la neste contexto específico. Registramos esta ausência honestamente, como já fizemos em mishnayot anteriores deste tratado quando a lei rabínica não foi codificada em capítulo específico do Mishné Torá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Demai 6:7
כְּבָר בֵּאַרְנוּ בַּגְּמָרָא גֶּמֶר זוֹ הַמִּשְׁנָה, וְאָמְרוּ הַמְעַשֵּׂר מְעַשֵּׂר אֶת שֶׁלּוֹ וַדַּאי, וְחֶלְקוֹ בְּכָל מָקוֹם שֶׁהוּא דְּמַאי. וְעִנְיַן הַדָּבָר: כִּי כְּשֶׁיִּבְצְרוּ הָעֲנָבִים, מוֹצִיא מַעֲשֵׂר וַדַּאי מֵחֶצְיוֹ, וּכְשֶׁיִּדְרֹךְ אוֹתָם עִם חֵלֶק חֲבֵרוֹ שֶׁאֵינוֹ מְעֻשָּׂר וְנִתְעָרֵב הַכֹּל וְלָקַח חֶלְקוֹ מִן הַתִּירוֹשׁ, חַיָּב לְהוֹצִיא מִמֶּנּוּ מַעֲשֵׂר דְּמַאי הַמְחֻיָּב לַחֲצִי מַה שֶּׁלָּקַח מִן הַתִּירוֹשׁ, לְפִי שֶׁהַסָּפֵק אֵינוֹ אֶלָּא בַּחֲצִי שֶׁל חֲבֵרוֹ שֶׁאֵינוֹ מְעֻשָּׂר. וְזֶה עִנְיַן מַה שֶּׁאָמַר "וְחֶלְקוֹ בְּכָל מָקוֹם שֶׁהוּא", רְצוֹנִי לוֹמַר חֵלֶק חֲבֵרוֹ שֶׁאֵינוֹ מְעֻשָּׂר בְּכָל מָקוֹם שֶׁהוּא מִמָּמוֹנוֹ, וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ מְיֻחָד וְהוּא מְעֹרָב, לְפִיכָךְ יוֹצִיא מַעֲשֵׂר דְּמַאי שֶׁנִּתְחַיֵּב בּוֹ אוֹתוֹ הַחֵלֶק.

Já explicamos, no comentário à Guemará que fecha esta Mishná (referindo-se ao Talmud Yerushalmi), que disseram: aquele que dizima, dizima sua própria parte com certeza (vadai), e a parte de seu sócio, onde quer que esteja, é demai. E o significado da questão é este: quando colhem as uvas, ele retira o dízimo certo de sua própria metade; e quando as prensa junto com a parte de seu sócio, que não está dizimada, e tudo se mistura, e ele toma sua parte do mosto, é obrigado a retirar dela o dízimo de demai correspondente à metade daquilo que tomou do mosto — pois a dúvida recai apenas sobre a metade que pertence ao sócio, ainda não dizimada.

E este é o sentido de "sua parte, onde quer que esteja": isto é, a parte de seu sócio não dizimada, onde quer que esteja dentro de seus próprios bens — e, embora não seja fisicamente identificável, estando misturada, ele deve, por isso, retirar o dízimo de demai a que aquela parte está sujeita.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Demai 6:7
אֶחָד מְעַשֵּׂר. נֶאֱמָן עַל הַמַּעַשְׂרוֹת. וְאֶחָד אֵינוֹ מְעַשֵּׂר. אֵינוֹ נֶאֱמָן עַל הַמַּעַשְׂרוֹת. הַמְּעַשֵּׂר מְעַשֵּׂר אֶת שֶׁלּוֹ. מְתַקֵּן הַחֵצִי מִכָּל מַה שֶּׁגָּדֵל בַּכֶּרֶם שֶׁל שְׁנֵיהֶם. וְחֶלְקוֹ בְּכָל מָקוֹם שֶׁהוּא. בַּיְרוּשַׁלְמִי מְפָרֵשׁ דְּהָכִי קָאָמַר, וְחֶלְקוֹ שֶׁל חֲבֵרוֹ דְּהַיְנוּ שֶׁל זֶה שֶׁאֵינוֹ מְעַשֵּׂר בְּכָל מָקוֹם שֶׁהוּא דְּמַאי הוּא. וּמִשּׁוּם דְּאֵין בְּרֵירָה חַיְשִׁינַן שֶׁמָּא חֲצִי חֶלְקוֹ שֶׁל הַמְּעַשֵּׂר בְּיַד חֲבֵרוֹ שֶׁאֵינוֹ מְעַשֵּׂר, וַחֲצִי חֵלֶק חֲבֵרוֹ בְּיָדוֹ. הִלְכָּךְ אַף עַל פִּי שֶׁכְּבָר תִּקֵּן הַחֵצִי מִכָּל מַה שֶּׁגָּדֵל בַּכֶּרֶם, חַיָּב לְתַקֵּן בְּתוֹרַת דְּמַאי חֲצִי חֵלֶק חֲבֵרוֹ שֶׁבְּיָדוֹ.

"Um dizima": é confiável quanto aos dízimos.

"E o outro não dizima": não é confiável quanto aos dízimos.

"Aquele que dizima dizima sua própria parte": corrige a metade de tudo o que cresceu na vinha de ambos.

"E sua parte, onde quer que esteja": no Talmud Yerushalmi se explica que a Mishná quer dizer: a parte de seu sócio — isto é, daquele que não dizima — onde quer que esteja, é demai. E, por não haver bererá (designação retroativa reconhecida para bens já misturados), tememos que metade da porção do sócio confiável esteja agora nas mãos do sócio não confiável, e metade da porção deste último esteja nas mãos do confiável. Por isso, ainda que já tenha corrigido a metade de tudo o que cresceu na vinha, ele é obrigado a corrigir, sob o regime de demai, a metade que pertence a seu sócio e que está em suas próprias mãos.

Massechet Demai não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.