Beit Shammai dizem: ninguém deve vender suas azeitonas senão a um chaver. Beit Hillel dizem: também a quem apenas dizima. E os recatados de Beit Hillel costumavam agir conforme as palavras de Beit Shammai.
Esta Mishná muda de assunto dentro do perek: já não trata da divisão de terumá e dízimo entre sócios, mas de uma questão de pureza ritual ligada à venda de azeitonas ainda não processadas.
Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta relacionada ao demai. Diferentemente das mishnayot anteriores deste perek, esta trata de uma questão de tumá vetahará (pureza e impureza ritual dos alimentos) e não, propriamente, de dízimo. As azeitonas recém-colhidas, ainda não "preparadas" para receber impureza (isto é, ainda não exsudaram o líquido que as torna suscetíveis à tumá), podem em princípio ser vendidas com segurança a qualquer pessoa quanto à impureza — mas Beit Shammai temiam que o comprador, mesmo não sendo confiável, pudesse deixá-las até que exsudassem o líquido, e então as pisasse em condição de impureza sem se importar, contaminando o azeite. Por isso, Beit Shammai exigiam que a venda só fosse feita a um chaver — alguém confiável tanto quanto à pureza ritual quanto ao dízimo. Beit Hillel permitiam vender também a quem apenas se comprometesse a dizimar, mesmo sem ser confiável quanto à pureza, pois sustentavam (segundo o Rambam) que é permitido causar impureza ritual a produto comum (chulin) dentro da terra de Israel. Esta Mishná é incluída aqui, no mesmo perek dedicado a parcerias e transações entre diferentes categorias de pessoas, por sua afinidade temática com as regras de confiança (chaver vs. am haaretz) que perpassam o restante do perek.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
Nenhuma halachá equivalente foi localizada em Hilchot Maasserot ou Hilchot Terumot do Mishné Torá. Isto se deve à própria natureza do assunto: a disputa entre Beit Shammai e Beit Hillel nesta Mishná não trata de uma obrigação de dízimo, mas de uma questão de pureza ritual das azeitonas antes de serem prensadas — matéria que o Rambam codifica em outra parte de sua obra, dentro de Sefer Tahará (o Livro da Pureza), especificamente em Hilchot Tumat Ochlin (Impureza dos Alimentos), e não em Hilchot Maasserot ou Hilchot Terumot, que tratam da separação de dízimos e terumá em si. Uma busca dirigida nesses dois livros de Sefer Zeraim não encontrou nenhuma menção à venda de azeitonas condicionada à confiabilidade do comprador quanto à pureza. Registramos esta ausência honestamente, como já fizemos em mishnayot anteriores deste tratado (por exemplo, 5:8 e 5:9) quando a lei rabínica tratada pela Mishná não foi codificada no âmbito das leis de dízimo propriamente ditas.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Já explicamos que o chaver é um erudito da Torá, confiável tanto quanto à impureza quanto à pureza. E Beit Shammai dizem que não se devem vender as azeitonas — pois estão destinadas a serem pisadas para extrair óleo — senão a quem for confiável quanto à impureza, para que não venha a manusear o óleo em estado de impureza.
E Beit Hillel dizem que é permitido vendê-las a quem for confiável quanto aos dízimos, mesmo que não seja confiável quanto à impureza, pois é opinião de Beit Hillel que é permitido causar impureza a produto comum (chulin) dentro da terra de Israel. E esta é a posição final adotada — que é permitido — e assim é a halachá.
"Os recatados de Beit Hillel": são os cautelosos nos preceitos, dentre o grupo de Hilel.
"Ninguém deve vender suas azeitonas": azeitonas colhidas da árvore que ainda não foram preparadas para receber impureza — como quando ainda não exsudaram o "suor do cesto" (a umidade que naturalmente as prepara para tornarem-se suscetíveis à impureza).
"Senão a um chaver": um erudito reconhecido como confiável em pureza ritual, e não a quem não é chaver, para que não as pise em estado de impureza.
"Também a quem apenas dizima": mesmo a quem só se comprometeu a dizimar, mas não a ser confiável em pureza, pode-se vender — pois, como ainda não foram preparadas, presume-se que talvez as coma antes de exsudarem (e portanto não há certeza de que se tornarão impuras).
O Rambam situa a disputa entre Beit Shammai e Beit Hillel nesta base: Beit Shammai entendem que é proibido causar impureza a produto comum dentro da terra de Israel; Beit Hillel entendem que é permitido.
"Os recatados de Beit Hillel": os veteranos cautelosos nos preceitos, dentre a escola de Hilel.