Aquele que vende frutos na Síria e diz que são da terra de Israel deve dizimá-los. Se diz "estão dizimados", é confiável, pois a boca que proibiu é a boca que permitiu. "São meus", deve dizimá-los; "estão dizimados", é confiável, pois a boca que proibiu é a boca que permitiu. E se é sabido que ele tem um campo na Síria, deve dizimá-los.
Esta Mishná introduz um novo território geográfico — a Síria, terra conquistada por Davi, mas de status intermediário — e o princípio geral de confiabilidade que percorre toda a lei rabínica.
Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta e completa. A obrigação de dizimar produtos da terra de Israel é bíblica; mas a Síria (Suryá) ocupa um status jurídico intermediário — nem plena terra de Israel, nem totalmente exterior — por ter sido conquistada pelo Rei David antes de a conquista da própria terra de Israel (delimitada pelas fronteiras bíblicas) estar completa. Por isso, os sábios impuseram sobre produtos cultivados na Síria a obrigação de terumá e dízimo apenas por decreto rabínico, não por lei bíblica plena — o que torna o produto de lá, quando de origem incerta, sujeito às mesmas regras de "demai" que regem produtos duvidosos da terra de Israel. A Mishná ensina que quando um vendedor na Síria afirma que seus frutos vêm da terra de Israel propriamente dita (onde a obrigação é bíblica e certa), ou que vêm de seu próprio campo sírio (onde a obrigação é certa por decreto), ele deve dizimá-los como certamente obrigados; mas se, tendo feito essa afirmação inicial (que os torna obrigados), ele complementa dizendo que já os dizimou, é confiável — porque "a boca que proibiu é a boca que permitiu" (hape she'assar hu hape shehitir): já que sua própria palavra criou a obrigação, sua própria palavra também pode dissolvê-la, por não haver testemunha externa contradizendo-o. A exceção final: se é sabido de antemão (independente da palavra do vendedor) que ele possui um campo na Síria, presume-se que os frutos vêm de lá, e sua afirmação posterior de que já os dizimou já não goza da mesma credibilidade automática — pois, nesse caso, ele não tinha alternativa mais favorável a alegar (não poderia ter dito "são de fora da terra"), retirando o fundamento lógico do princípio.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam dedica o primeiro capítulo inteiro de Hilchot Terumot à definição precisa dos três status territoriais — terra de Israel, Síria, e exterior — estabelecendo que a obrigação sobre produtos da Síria é sempre rabínica, nunca bíblica, e depende crucialmente de o produto vir da terra que o próprio israelita possui ali, e não de compra de terceiros. Esta distinção é exatamente o que fundamenta a Mishná: só quando o produto tem procedência certa de campo próprio na Síria (ou da terra de Israel) a obrigação (rabínica ou bíblica, respectivamente) é automática; produto meramente comprado de um gentio ali, sem vínculo com terra própria, é isento por completo.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
A Síria é a terra que foi conquistada e distribuída sob o reinado de David; não é como a terra de Israel, nem como o exterior, mas é como a terra de Israel em algumas leis e como o exterior em outros assuntos [...] E nestas terras — quero dizer, na Síria — não são obrigados ao dízimo senão aquele que ali comprou terra e se torna obrigado a retirar o dízimo daquilo que o campo produziu; mas quem comprou frutos de frutos da Síria não é obrigado a retirar demai deles.
E este é o princípio fundamental mencionado aqui: que a boca que proibiu é a boca que permitiu — princípio verdadeiro que se encontra vigente em todos os preceitos, os graves e os leves, e também em matéria de bens (mamonot): todo aquele que se obriga a si mesmo com alguma obrigação, e depois estabelece em suas próprias palavras uma condição que anula aquela obrigação, é confiável em tudo o que diz, já que não há testemunha contra ele.
"Síria": são as terras que David conquistou, que não eram da terra de Israel — como Aram Naharayim e Aram Tzová. E, como ainda não estava completa a conquista de toda a terra de Israel, essas terras não foram santificadas com a santidade plena da terra, ainda que tenha sido uma conquista pública (de toda a nação). E em alguns aspectos é como a terra de Israel, e em outros, como o exterior.
E aquele que compra frutos na Síria não é obrigado a separar demai deles, porque a maioria dos frutos vendidos na Síria vêm de fora da terra. Por isso, quando ele diz "estão dizimados", é confiável — pelo princípio de migo (já que, se quisesse, poderia ter dito que eram de fora da terra, e seria igualmente confiável, conforme ensinamos no primeiro perek [deste tratado]: "de Kezib para lá é confiável"), agora também, quando diz "são da terra de Israel e eu os dizimei", é confiável.