Os tropeiros de carga (chamarim) que entraram numa cidade, e um deles declarou: "o meu produto é novo, e o do meu companheiro é velho" — ou "o meu produto não está dizimado, e o do meu companheiro está dizimado" — não são confiáveis. Rabi Yehudá diz: são confiáveis.
Esta última Mishná do Perek Dalet encerra a série sobre confiabilidade (neemanut), tratando do caso em que a suspeita de conluio comercial pesa mais do que a leniência do demai.
Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta. Como em toda a série de mishnayot sobre neemanut neste perek, a questão não é a obrigação bíblica de dízimo, mas o critério rabínico de quando confiar na palavra de terceiros. Aqui, a diferença em relação à Mishná anterior (4:6) é sutil, mas decisiva: ali, o forasteiro perguntava e recebia indicações que, embora pudessem parecer favores recíprocos, eram aceitas como confiáveis por necessidade (chayei nefesh). Aqui, dois tropeiros comerciantes se elogiam mutuamente de forma não solicitada, num contexto onde ambos têm interesse comercial direto em vender seu próprio produto como superior — o que os sábios (exceto Rabi Yehudá) consideram uma conluio (kenunya) demasiado óbvio para merecer confiança. É a mesma lógica social de verificabilidade que percorre todo o perek, aplicada agora ao seu limite: quando o próprio interesse dos que se recomendam mutuamente é evidente demais, a leniência do demai não se sustenta.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam decide como os sábios anônimos (tana kama), e não como Rabi Yehudá — encerrando o Perek Dalet com o princípio de que, quando a suspeita de conluio comercial é razoável, a leniência do demai cede lugar à cautela, mesmo que isso prejudique o comércio.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Corrigido" (metukan) — significa "conhecido", isto é, já retirou dele os dízimos.
"Não é confiável" — ainda que pareça estar beneficiando o outro (e não a si mesmo), porque suspeitamos que estejam se retribuindo mutuamente, e combinaram entre si sobre o que trouxeram à cidade.
E Rabi Yehudá diz que são confiáveis neste caso, a fim de que tragam os frutos às cidades e haja entre eles fartura de frutos, bebidas e demais alimentos. E a lei não é como Rabi Yehudá.
"Os tropeiros de carga": os que trazem produção de um lugar barato para um lugar caro.
"Não são confiáveis": porque certamente estão se retribuindo mutuamente — um elogia o produto do companheiro nesta cidade, para que o companheiro elogie o seu numa outra cidade.
"Rabi Yehudá diz que são confiáveis": visto que a maioria dos am haaretz de fato dizima, no caso do demai os sábios foram leniente por causa da subsistência (chayei) dos moradores da cidade, para que os vendedores de produção e frutos continuassem vindo até ali com regularidade. E a lei não é como Rabi Yehudá.