Seder Zeraim · Massechet Demai · Perek Dalet · Mishná 6

"Aquele que entra numa cidade e não conhece ninguém"

הַנִּכְנָס לְעִיר וְאֵינוֹ מַכִּיר אָדָם שָׁם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O forasteiro em terra desconhecida: a leniência de confiar em indicações encadeadas

Aquele que entra numa cidade e não conhece ninguém ali, e pergunta: "quem aqui é confiável? quem aqui dizima?" — se alguém lhe respondeu "eu (sou confiável)", este não é confiável. Se lhe disse "fulano é confiável", este é confiável. Foi comprar dele, e lhe perguntou: "quem aqui vende produto velho?", e ele lhe respondeu: "quem te enviou até mim (sabe)" — ainda que pareçam estar se retribuindo favores mutuamente, são confiáveis.

הַנִּכְנָס לְעִיר וְאֵינוֹ מַכִּיר אָדָם שָׁם, אָמַר, מִי כָּאן נֶאֱמָן. מִי כָּאן מְעַשֵּׂר. אָמַר לוֹ אֶחָד, אֲנִי, אֵינוֹ נֶאֱמָן. אָמַר לוֹ, אִישׁ פְּלוֹנִי נֶאֱמָן, הֲרֵי זֶה נֶאֱמָן. הָלַךְ לִקַּח מִמֶּנּוּ, אָמַר לוֹ, מִי כָּאן מוֹכֵר יָשָׁן. אָמַר לוֹ, מִי שֶׁשְּׁלָחֲךָ אֶצְלִי, אַף עַל פִּי שֶׁהֵן כְּגוֹמְלִין זֶה אֶת זֶה, הֲרֵי אֵלּוּ נֶאֱמָנִין:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta Mishná continua o tema da confiabilidade sobre dízimos, aplicado agora ao caso extremo do viajante sem qualquer conhecimento prévio da população local.

Vayikrá (Levítico) 27:30-31
וְכָל מַעְשַׂר הָאָרֶץ מִזֶּרַע הָאָרֶץ מִפְּרִי הָעֵץ לַה' הוּא, קֹדֶשׁ לַה'.
"E todo dízimo da terra, da semente da terra, do fruto da árvore, é do Senhor; é santo ao Senhor" (Vayikrá 27:30).

Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta. Assim como na Mishná anterior, o que está em jogo aqui não é a obrigação bíblica de dizimar — plenamente vigente —, mas o mecanismo processual e social pelo qual se estabelece confiança sobre se o dízimo já foi separado. O caso do forasteiro é ainda mais extremo: ele não tem qualquer vínculo prévio com ninguém na cidade, e por isso os sábios permitiram uma leniência adicional em nome de "chayei nefesh" (a necessidade vital de se alimentar) — mesmo que a cadeia de recomendações mútuas ("fulano te enviou a mim") pareça um jogo de favores recíprocos, ela ainda é aceita como confiável, precisamente porque o forasteiro, sem qualquer alternativa, precisa poder confiar em alguém. Esta é uma leniência puramente prática, sem fundamento em texto bíblico algum, criada para viabilizar a vida do viajante numa terra desconhecida.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 12:7
הַנִּכְנָס לְעִיר וְאֵינוֹ מַכִּיר אָדָם שָׁם, וְאָמַר מִי כָּאן נֶאֱמָן מִי כָּאן מְעַשֵּׂר, וְאָמַר לוֹ אֶחָד אֲנִי, אֵינוֹ נֶאֱמָן. אָמַר לוֹ אִישׁ פְּלוֹנִי, הֲרֵי זֶה נֶאֱמָן, וְלוֹקֵחַ מֵאוֹתוֹ פְּלוֹנִי אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ מַכִּירוֹ, וְהוֹלֵךְ וְאוֹכֵל עַל פִּיו. הָלַךְ וְלָקַח מִמֶּנּוּ, וְשָׁאַל לוֹ מִי כָּאן מוֹכֵר יַיִן יָשָׁן, אָמַר לוֹ זֶה שֶׁשְּׁלָחֲךָ אֶצְלִי, אַף עַל פִּי שֶׁהֵן כְּגוֹמְלִין זֶה אֶת זֶה, הֲרֵי אֵלּוּ נֶאֱמָנִין.
Aquele que entra numa cidade e não conhece ninguém ali, e pergunta "quem aqui é confiável, quem aqui dizima", e alguém lhe disse "eu" — não é confiável. Disse-lhe "fulano" — este é confiável, e ele compra daquele fulano ainda que não o conheça, e vai e come com base em sua palavra. Foi comprar dele, e lhe perguntou "quem aqui vende vinho velho", e ele lhe respondeu "este que te enviou até mim" — ainda que pareçam estar se retribuindo favores mutuamente, são confiáveis.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 12:8-9
בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים בִּזְמַן שֶׁאֵינוֹ מַכִּיר אָדָם שָׁם, אֲבָל אִם מַכִּיר אָדָם שָׁם לֹא יִקַּח אֶלָּא מִן הַמֻּמְחֶה. וְאִם שָׁהָה שָׁם שְׁלֹשִׁים יוֹם, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ מַכִּיר אָדָם שָׁם, לֹא יִקַּח אֶלָּא מִן הַמֻּמְחֶה. וְלֹא הִתִּירוּ דְּבָרִים אֵלּוּ אֶלָּא בִּתְרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת, אֲבָל לְעִנְיַן פֵּרוֹת שְׁבִיעִית אוֹ לְעִנְיַן טָהֳרוֹת לֹא יִקַּח אֶלָּא מִן הַמֻּמְחֶה.
Em que caso se aplica isso? Quando não conhece ninguém ali. Mas se conhece alguém ali, não deve comprar senão de quem é especialista reconhecido (mumche). E se permaneceu ali trinta dias, ainda que não conheça ninguém, não deve comprar senão do especialista reconhecido. E essas leniências só foram permitidas quanto a terumot e dízimos, mas quanto a frutos de shemitá (sétimo ano) ou quanto a pureza ritual, não deve comprar senão do especialista reconhecido.

O Rambam amplia a Mishná com limites importantes: a leniência do forasteiro vale apenas enquanto ele é genuinamente estranho ao lugar (até trinta dias) e apenas para as leis de terumá e dízimo — nunca para shemitá ou pureza ritual, onde se exige sempre uma autoridade reconhecida.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Demai 4:6
וְהָעִקָּר אֶצְלֵנוּ: אֵין אָדָם חוֹטֵא וְלֹא לוֹ. וּלְפִיכָךְ לֹא יִשְׁלָחֶנּוּ לְאִישׁ שֶׁאֵינוֹ נֶאֱמָן, מִפְּנֵי שֶׁאֵין לוֹ הֲנָאָה בָּזֶה הֲנָאָה קְרוֹבָה מִיָּד. וְכָל זֶה כְּדֵי לְהָקֵל עָלָיו, מִפְּנֵי שֶׁהוּא גֵּר וְאֵינוֹ מַכִּיר אַנְשֵׁי הַמְּדִינָה.

E o princípio que temos é: ninguém transgride sem proveito próprio (ein adam chotei velo lo). E, por isso, ele não o enviaria a um homem que não é confiável, pois não teria nisso um benefício próximo e imediato. E tudo isso é para aliviar o fardo dele, porque é um forasteiro (ger, no sentido de estrangeiro de passagem) e não conhece os habitantes do lugar.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Demai 4:6
אִישׁ פְּלוֹנִי נֶאֱמָן הֲרֵי זֶה נֶאֱמָן. אַף עַל גַּב דְּלֹא הָיָה רָאוּי לְהַאֲמִינוֹ כֵּיוָן שֶׁהוּא עַצְמוֹ חָשׁוּד, קֻלָּא הִיא שֶׁהֵקֵלּוּ בְּאַכְסְנַאי מִשּׁוּם חַיֵּי נֶפֶשׁ. וְדַוְקָא כְּשֶׁאֵין מַכִּיר אָדָם שָׁם, אֲבָל אִם מַכִּיר אָדָם שָׁם, לֹא יִטֹּל אֶלָּא מִן הַמֻּמְחֶה. מִי כָּאן מוֹכֵר יָשָׁן. שֶׁיָּרֵא שֶׁמָּא יַאֲכִילוּהוּ חָדָשׁ קֹדֶם שֶׁיִּקְרַב הָעֹמֶר. וְרֹב עַמֵּי הָאָרֶץ אֵין חֲשׁוּדִים עַל הֶחָדָשׁ, וַהֲוֵי כִּדְמַאי דְּרֹב עַמֵּי הָאָרֶץ מְעַשְּׂרִים הֵן, הִלְכָּךְ לֹא הֶחְמִירוּ עֲלֵיהֶן כָּל כָּךְ דְּנֵימָא שֶׁהֵם גּוֹמְלִים חֶסֶד זֶה לָזֶה, תָּעִיד אַתָּה עָלַי וַאֲנִי אָעִיד עָלֶיךָ.

"Fulano é confiável, este é confiável": ainda que, em princípio, não fosse cabível confiar nesse mensageiro, já que ele mesmo é suspeito, trata-se de uma leniência que os sábios concederam ao viajante (achsenai) por causa da preservação da vida (chayei nefesh). E isso vale especificamente quando não conhece ninguém ali; mas se conhece alguém ali, não deve comprar senão do especialista reconhecido.

"Quem aqui vende produto velho": porque temia que lhe dessem produto novo antes que o Omer fosse oferecido. E a maioria dos am haaretz não são suspeitos quanto ao produto novo, e isso se assemelha ao demai, pois a maioria dos am haaretz de fato dizima. Por isso não foram tão rigorosos com eles a ponto de dizer "eles estão se retribuindo favores mutuamente, dize tu por mim e eu direi por ti".

Massechet Demai não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.