A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Mandar comprar "de quem é confiável" em geral não gera confiança; mandar comprar "de fulano" sim, pois há risco de ser desmentido
Aquele que diz a quem não é confiável quanto aos dízimos: "compra para mim de quem é confiável, e de quem dizima" — este (mensageiro) não é confiável. "De fulano (pessoa nomeada)" — este é confiável. Foi comprar dele, e disse-lhe: "não o encontrei, e comprei para ti de outro que é confiável" — este não é confiável.
הָאוֹמֵר לְמִי שֶׁאֵינוֹ נֶאֱמָן עַל הַמַּעַשְׂרוֹת, קַח לִי מִמִּי שֶׁהוּא נֶאֱמָן וּמִמִּי שֶׁהוּא מְעַשֵּׂר, אֵינוֹ נֶאֱמָן. מֵאִישׁ פְּלוֹנִי, הֲרֵי זֶה נֶאֱמָן. הָלַךְ לִקַּח מִמֶּנּוּ, וְאָמַר לוֹ לֹא מְצָאתִיו וְלָקַחְתִּי לְךָ מֵאַחֵר שֶׁהוּא נֶאֱמָן, אֵינוֹ נֶאֱמָן:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Esta Mishná retoma o tema da confiabilidade (neemanut) sobre dízimos, já discutido no Perek Bet, aplicando-o agora ao caso de um mensageiro que compra em nome de outro.
Vayikrá (Levítico) 27:30-31
וְכָל מַעְשַׂר הָאָרֶץ מִזֶּרַע הָאָרֶץ מִפְּרִי הָעֵץ לַה' הוּא, קֹדֶשׁ לַה'.
"E todo dízimo da terra, da semente da terra, do fruto da árvore, é do Senhor; é santo ao Senhor" (Vayikrá 27:30).
Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta. A obrigação bíblica de dizimar produto certamente sujeito é absoluta; o que esta Mishná discute é um refinamento puramente rabínico do sistema de confiança (neemanut) que sustenta o demai. Um mensageiro que não é confiável quanto aos dízimos, mandado comprar "de quem for confiável" (sem nome específico), não gera confiança sobre o produto que trouxer — porque ele mesmo escolhe de quem comprar, e ninguém pode verificá-lo depois. Mas quando o comprador nomeia especificamente "fulano" como fonte, o mensageiro sabe que pode ser questionado e desmentido pelo próprio "fulano" caso minta — esse temor de ser flagrado é o que sustenta a confiança nesse caso específico. É uma lógica de verificabilidade social, sem paralelo em preceito bíblico algum: a Torá exige o dízimo em si, mas não estabelece as regras processuais de quando confiar na palavra de terceiros sobre se ele foi pago.
Halachot · הֲלָכוֹת
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 12:6
הָאוֹמֵר לְמִי שֶׁאֵינוֹ נֶאֱמָן עַל הַמַּעַשְׂרוֹת, קַח לִי מִמִּי שֶׁהוּא מְעַשֵּׂר, וְהָלַךְ וְלָקַח וְהֵבִיא לוֹ, אֵינוֹ נֶאֱמָן. וְאִם אָמַר לוֹ קַח לִי מֵאִישׁ פְּלוֹנִי, הֲרֵי זֶה נֶאֱמָן לוֹמַר "מִמֶּנּוּ לָקַחְתִּי", שֶׁהֲרֵי מִתְיָרֵא שֶׁמָּא יִשְׁאָלֶנּוּ. הָלַךְ לִקַּח לוֹ מֵאוֹתוֹ פְּלוֹנִי, וְאָמַר לוֹ "לֹא מְצָאתִיו וְלָקַחְתִּי לְךָ מֵאַחֵר שֶׁהוּא נֶאֱמָן", אֵינוֹ נֶאֱמָן.
Aquele que diz a quem não é confiável quanto aos dízimos "compra para mim de quem dizima", e ele foi, comprou e trouxe para ele — não é confiável. Mas se lhe disse "compra para mim de fulano" (pessoa nomeada), este é confiável ao dizer "comprei dele", pois teme que possa ser questionado. Foi comprar dele, daquele fulano, e disse-lhe "não o encontrei, e comprei para ti de outro que é confiável" — não é confiável.
O Rambam transcreve a Mishná quase verbatim como halachá final, sem controvérsia registrada — o raciocínio da verificabilidade (o temor de ser desmentido por quem foi nomeado) é aceito sem discordância entre os sábios.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Demai 4:5
מַה שֶּׁאָמַר "נֶאֱמָן" אֵינוֹ רְצוֹנוֹ לוֹמַר נֶאֱמָן עַל הַמַּעַשְׂרוֹת לְפִי שֶׁהוּא הַמְעַשֵּׂר, אֲבָל פֵּרוּשׁ "נֶאֱמָן" הוּא אִישׁ נֶאֱמָן עַל טֻמְאָה וְטָהֳרָה, שֶׁאֵינוֹ מַאֲכִיל אִסּוּר וְלֹא טָמֵא. וְהַטַּעַם שֶׁהוּא נֶאֱמָן בְּאָמְרוֹ "מִפְּלוֹנִי קַח לִי", כִּי בְּוַדַּאי אֵינוֹ לוֹקֵחַ מֵאַחֵר, לְפִי שֶׁהוּא מִתְיָרֵא שֶׁמָּא יִשְׁאַל הָאִישׁ הַהוּא וְיֹאמַר לוֹ אִם בָּא אֵלֶיךָ פְּלוֹנִי אִם לֹא.
O que disse "confiável" não significa confiável quanto aos dízimos — pois é ele mesmo quem dizima —, mas o sentido de "confiável" aqui é: pessoa confiável quanto à pureza e à impureza (tumá e taharah), que não alimenta com o proibido nem com o impuro.
E a razão pela qual ele é confiável ao dizer "de fulano, compra para mim" é porque certamente ele não comprará de outro, pois teme que aquela pessoa (fulano) seja questionada e diga se fulano veio até ele ou não.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Demai 4:5
אֵינוֹ נֶאֱמָן. דַּאֲפִלּוּ יִמָּצֵא שֶׁלָּקַח מִמִּי שֶׁאֵינוֹ נֶאֱמָן, מָצֵי לְאִשְׁתַּמּוּטֵי וְלוֹמַר בְּעֵינַי הָיָה נֶאֱמָן. אֲבָל כִּי אָמַר לֵיהּ "מֵאִישׁ פְּלוֹנִי", לֹא מָצֵי לְאִשְׁתַּמּוֹטֵי, דְּהָא אֵינוֹ רַשַּׁאי לִקַּח מֵאַחֵר.
"Não é confiável": porque, mesmo que se descubra depois que comprou de quem não é confiável, ele pode se esquivar e dizer "aos meus olhos ele parecia confiável". Mas quando lhe disseram "compra de fulano", ele não pode se esquivar dessa forma, pois não tinha permissão de comprar de outra pessoa.
Massechet Demai não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.