Seder Zeraim · Massechet Demai · Perek Dalet · Mishná 3

"Rabi Eliezer diz: não precisa nomear o maasser ani"

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אֵין אָדָם צָרִיךְ לִקְרוֹת שֵׁם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O debate sobre a necessidade de nomear o dízimo do pobre dentro do demai

Rabi Eliezer diz: uma pessoa não precisa nomear (dar nome a) o maasser ani (dízimo do pobre) do demai. Mas os sábios dizem: deve nomeá-lo, mas não precisa separá-lo.

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אֵין אָדָם צָרִיךְ לִקְרוֹת שֵׁם לְמַעְשַׂר עָנִי שֶׁל דְּמַאי. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, קוֹרֵא שֵׁם וְאֵינוֹ צָרִיךְ לְהַפְרִישׁ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta Mishná trata do maasser ani (dízimo do pobre) dos anos terceiro e sexto do ciclo shemitá, aplicado ao produto de demai.

Devarim (Deuteronômio) 14:28-29
מִקְצֵה שָׁלֹשׁ שָׁנִים תּוֹצִיא אֶת כָּל מַעְשַׂר תְּבוּאָתְךָ בַּשָּׁנָה הַהִוא, וְהִנַּחְתָּ בִּשְׁעָרֶיךָ. וּבָא הַלֵּוִי כִּי אֵין לוֹ חֵלֶק וְנַחֲלָה עִמָּךְ, וְהַגֵּר וְהַיָּתוֹם וְהָאַלְמָנָה אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ, וְאָכְלוּ וְשָׂבֵעוּ.
"Ao fim de três anos, tirarás todo o dízimo da tua produção naquele ano, e o depositarás dentro das tuas portas. E virá o levita, pois não tem parte nem herança contigo, e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão e se fartarão" (Devarim 14:28-29).

Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta. O maasser ani em si tem base plenamente bíblica: nos anos terceiro e sexto do ciclo de shemitá, em vez do maasser sheni (segundo dízimo, que se come em Jerusalém), separa-se o dízimo do pobre, entregue diretamente aos necessitados. O que esta Mishná discute não é a obrigação bíblica em si, mas seu procedimento formal quando aplicado ao demai: como o demai é apenas uma dúvida rabínica sobre se o produto já foi dizimado, os sábios já haviam decretado (como vimos na Mishná 3:1) que não se separa fisicamente o maasser ani do demai — apenas a terumat maasser é retirada, por ser transgressão grave (pena de morte, se comida por um não-cohen). A questão aqui é puramente processual: mesmo sem separar fisicamente o maasser ani, é preciso ao menos "nomeá-lo" verbalmente (declarar que uma porção equivale a ele), a fim de que o maasser sheni correspondente seja validamente designado? Esse é um debate interno à administração rabínica do sistema, sem fonte bíblica direta.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 9:2
וְהִתְקִינוּ שֶׁלֹּא יְהֵא אָדָם מַפְרִישׁ מִן הַדְּמַאי אֶלָּא תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא עֲוֹן מִיתָה. וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי, שֶׁאֵין בָּזֶה הֶפְסֵד שֶׁהֲרֵי בְּעָלָיו אוֹכְלִין אוֹתוֹ. אֲבָל מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וּמַעֲשַׂר עָנִי אֵין מַפְרִישׁ מִן הַדְּמַאי, מִפְּנֵי שֶׁהוּא סָפֵק וְהַמּוֹצִיא מֵחֲבֵרוֹ עָלָיו הָרְאָיָה.
E decretaram que ninguém deveria separar do demai senão a terumat maasser, porque ela é transgressão de pena de morte; e o maasser sheni, porque nele não há perda, já que seus próprios donos o consomem. Mas o maasser rishon (primeiro dízimo) e o maasser ani (dízimo do pobre) não se separam do demai, porque é dúvida, e sobre aquele que quer retirar de seu amigo recai o ônus da prova.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 9:3
אַף עַל פִּי שֶׁאֵין מַפְרִישִׁין מַעֲשַׂר עָנִי מִן הַדְּמַאי, צָרִיךְ לִקְרוֹת לוֹ שֵׁם וְאֵינוֹ מַפְרִישׁ, וְאוֹמֵר "עִשּׂוּר מַה שֶּׁיֵּשׁ כָּאן מַעֲשַׂר עָנִי", כְּדֵי לִקְבֹּעַ מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, שֶׁמַּעֲשַׂר עָנִי בַּשְּׁלִישִׁית וּבַשִּׁשִּׁית בִּמְקוֹם מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁל שְׁאָר שְׁנֵי הַשָּׁבוּעַ.
Ainda que não se separe o maasser ani do demai, é preciso nomeá-lo, sem separá-lo — dizendo "o dízimo que há aqui é maasser ani" —, a fim de fixar o maasser sheni, pois o maasser ani, no terceiro e no sexto ano, ocupa o lugar do maasser sheni dos demais anos do septênio.

O Rambam decide como os sábios, e não como Rabi Eliezer: é necessário ao menos nomear verbalmente o maasser ani, mesmo sem separá-lo fisicamente, para que o processo de correção do demai fique tecnicamente completo e o maasser sheni (ou seu equivalente) esteja devidamente fixado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Demai 4:3
כְּבָר בֵּאַרְנוּ שֶׁדְּמַאי אֵינוֹ חַיָּב לְהוֹצִיא מִמֶּנּוּ מַעְשַׂר עָנִי בַּשָּׁנִים שֶׁמַּפְרִישִׁין מַעֲשַׂר עָנִי בִּמְקוֹם מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, וְזֶהוּ בַּשָּׁנָה הַשְּׁלִישִׁית מִן הַשְּׁמִטָּה וְהַשִּׁשִּׁית, כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר. וּבְאֵלּוּ הַשָּׁנִים אֵינָם מַפְרִישִׁין מִן הַדְּמַאי אֶלָּא תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר בִּלְבַד. לְפִיכָךְ אוֹמֵר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר: אַחַר שֶׁלֹּא יַפְרִישׁוּ מַעֲשַׂר עָנִי, לֹא יִקְרָא לוֹ שֵׁם. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: יִקְרָא לוֹ שֵׁם. וְהוּא שֶׁיֹּאמַר אַחַר שֶׁיַּפְרִישׁ תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר עֲשִׂירִית, מַה שֶּׁנִּשְׁאָר הוּא מַעְשַׂר עָנִי, וְלֹא יַפְרִישֶׁנּוּ. וְדַעַת חֲכָמִים בָּזֶה כְּדֵי שֶׁיִּתְקַיֵּם מַעֲשֵׂר שֵׁנִי הַמְחֻיָּב לַדְּמַאי, וְיֵדַע שֶׁצָּרִיךְ עַל כָּל פָּנִים לְהוֹצִיאוֹ אַחַר תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר, לְפִי שֶׁמַּעְשַׂר עָנִי הוּא בִּמְקוֹם מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר.

Já explicamos que o demai não é obrigado a que se retire dele o maasser ani nos anos em que se separa o maasser ani no lugar do maasser sheni — isto é, no terceiro ano da shemitá e no sexto, como se explicará. E nesses anos não se separa do demai senão apenas a terumat maasser.

Por isso diz Rabi Eliezer: já que não separarão o maasser ani, não se lhe deve dar nome. E os sábios dizem: deve-se dar-lhe nome — isto é, deve-se dizer, depois de separar o décimo da terumat maasser, que o que resta é maasser ani, sem separá-lo. E a razão dos sábios nisso é para que se estabeleça o maasser sheni devido ao demai, e se saiba que de qualquer modo é preciso retirá-lo depois da terumat maasser, pois o maasser ani ocupa o lugar do maasser sheni, como se explicará. E a lei não é como Rabi Eliezer.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Demai 4:3
אֵין צָרִיךְ לִקְרוֹת שֵׁם לְמַעְשַׂר עָנִי שֶׁל דְּמַאי. דְּלֹא נֶחְשְׁדוּ עַמֵּי הָאָרֶץ עַל מַעְשַׂר עָנִי, שֶׁהֵם יוֹדְעִים שֶׁפֵּרוֹת הַטְּבוּלִים לְמַעְשַׂר עָנִי הֵם בְּמִיתָה, וּמַפְרִישִׁים אוֹתוֹ וְלוֹקְחִים אוֹתוֹ לְעַצְמָן. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים. אַף עַל פִּי כֵן קוֹרֵא לוֹ שֵׁם, שֶׁהֲרֵי אֵינוֹ מַפְסִיד כְּלוּם בָּזֶה, דְּאֵינוֹ צָרִיךְ לְהַפְרִישׁ וְלִתֵּן לֶעָנִי, מִשּׁוּם דְּעָנִי הֲוֵי בָּזֶה מוֹצִיא מֵחֲבֵרוֹ, וְהַמּוֹצִיא מֵחֲבֵרוֹ עָלָיו הָרְאָיָה.

"Não precisa nomear o maasser ani do demai": porque os am haaretz não são suspeitos quanto ao maasser ani, pois sabem que os frutos ainda sujeitos ao maasser ani implicam pena de morte, e por isso o separam e o guardam para si mesmos.

"Mas os sábios dizem": mesmo assim, ele nomeia — pois com isso não perde nada, já que não precisa separá-lo e entregá-lo ao pobre, visto que, quanto a isso, o próprio pobre estaria retirando de seu amigo, e sobre aquele que retira de seu amigo recai o ônus da prova.

Massechet Demai não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.