Seder Zeraim · Massechet Demai · Perek Dalet · Mishná 2

"Aquele que faz voto a seu amigo que coma junto dele"

הַמַּדִּיר אֶת חֲבֵרוֹ שֶׁיֹּאכַל אֶצְלוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A leniência da confiança dura apenas no primeiro Shabat do voto, nunca no segundo

Aquele que faz voto a seu amigo que coma junto dele, e este não confia nele quanto aos dízimos — come com ele no primeiro Shabat, ainda que não confie nele quanto aos dízimos, desde que ele lhe diga "estão dizimados". Mas no segundo Shabat, ainda que tenha feito voto de não se beneficiar dele, não deve comer até que dizime.

הַמַּדִּיר אֶת חֲבֵרוֹ שֶׁיֹּאכַל אֶצְלוֹ, וְהוּא אֵינוֹ מַאֲמִינוֹ עַל הַמַּעַשְׂרוֹת, אוֹכֵל עִמּוֹ בַּשַּׁבָּת הָרִאשׁוֹנָה, וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ מַאֲמִינוֹ עַל הַמַּעַשְׂרוֹת, וּבִלְבַד שֶׁיֹּאמַר לוֹ מְעֻשָּׂרִין הֵן. וּבְשַׁבָּת שְׁנִיָּה, אַף עַל פִּי שֶׁנָּדַר מִמֶּנּוּ הֲנָיָה, לֹא יֹאכַל עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta Mishná combina duas instituições distintas: o voto (neder), que tem base bíblica plena quanto à sua força obrigatória, e o demai, leniência rabínica sobre dízimo duvidoso.

Bamidbar (Números) 30:3
אִישׁ כִּי יִדֹּר נֶדֶר לַה', אוֹ הִשָּׁבַע שְׁבֻעָה לֶאְסֹר אִסָּר עַל נַפְשׁוֹ, לֹא יַחֵל דְּבָרוֹ, כְּכָל הַיֹּצֵא מִפִּיו יַעֲשֶׂה.
"Quando um homem fizer um voto ao Senhor, ou jurar juramento, obrigando-se por obrigação sobre sua alma, não violará sua palavra; fará conforme tudo o que saiu de sua boca" (Bamidbar 30:3).

Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta para o caso do demai. A força vinculante do voto (neder) é plenamente bíblica — quem jura não se beneficiar de outro, a menos que coma em sua casa, está sob obrigação da Torá de cumprir sua palavra. O problema que esta Mishná resolve é o conflito entre essa obrigação e a incerteza sobre o dízimo do anfitrião, que não é confiável. Os sábios permitiram, apenas no primeiro Shabat — quando recusar-se a comer poderia gerar inimizade grave (eivá) logo no início da relação —, confiar na palavra do anfitrião mesmo sem ele ser geralmente confiável. Mas essa é uma leniência limitada no tempo: no segundo Shabat, já não há mais o risco imediato de quebra de relação, e a obrigação plena de dizimar antes de comer volta a vigorar, mesmo que isso signifique violar tecnicamente o voto de não se beneficiar do anfitrião — pois a proibição de comer produto não dizimado prevalece sobre a obrigação do voto.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 12:3
הַנִּשְׁבָּע עַל חֲבֵרוֹ שֶׁיֹּאכַל עִמּוֹ בְּשַׁבָּת וְהוּא אֵינוֹ מַאֲמִינוֹ עַל הַמַּעַשְׂרוֹת, שׁוֹאֵל וְאוֹכֵל עַל פִּיו בַּשַּׁבָּת הָרִאשׁוֹנָה בִּלְבַד. אֲבָל בְּשַׁבָּת שְׁנִיָּה, אַף עַל פִּי שֶׁנָּדַר מִמֶּנּוּ הֲנָאָה אִם לֹא יֹאכַל אֶצְלוֹ, לֹא יֹאכַל עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר דְּמַאי.
Aquele que jura a seu amigo que comerá com ele no Shabat, e este não confia nele quanto aos dízimos, consulta-o e come com base em sua palavra apenas no primeiro Shabat. Mas no segundo Shabat, ainda que tenha feito voto de que sofrerá dano se não comer em sua casa, não deve comer até que dizime como demai.

O Rambam transcreve a Mishná quase verbatim como halachá, sem controvérsia registrada — o próprio texto da Mishná já expressa consenso, e a razão prática (evitar inimizade apenas no início de uma nova relação) é evidente por si.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Demai 4:2
הַמַּדִּיר אֶת חֲבֵרוֹ. רְצוֹנוֹ לוֹמַר הַנִּשְׁבָּע עַל חֲבֵרוֹ. בְּשַׁבָּת רִאשׁוֹנָה. הַשַּׁבָּת הָרִאשׁוֹנָה שֶׁיִּקְרְאוּ לֶאֱכֹל עִמּוֹ, וְהִתִּירוּ זֶה מִפְּנֵי דַּרְכֵי שָׁלוֹם. וּמַה שֶּׁאָמַר "אַף עַל פִּי שֶׁנָּדַר הֵימֶנּוּ הֲנָיָה", רְצוֹנוֹ לוֹמַר אַף עַל פִּי שֶׁזָּכַר לוֹ בִּכְלַל שְׁבוּעָתוֹ שֶׁלֹּא יֵהָנֶה מִמֶּנּוּ אִם לֹא יֹאכַל אֶצְלוֹ, שֶׁצָּרִיךְ לוֹ לַעֲשׂוֹת כֵּן לְחַזֵּק הַחֶבְרָה וּלְהַרְחִיק הָאֵיבָה שֶׁתִּפֹּל בֵּינֵיהֶם אִם לֹא יֹאכַל עִמּוֹ, אַף עַל פִּי כֵן אֵינוֹ רַשַּׁאי לֶאֱכֹל עִמּוֹ עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר הוּא בְּעַצְמוֹ אוֹ יְעַשְּׂרוּ לְפָנָיו.

"Aquele que faz voto a seu amigo": quer dizer, aquele que jura sobre seu amigo. "No primeiro Shabat": o primeiro Shabat em que o convidarem para comer com ele — e isso foi permitido por causa dos caminhos da paz (darchei shalom).

E o que disse "ainda que tenha feito voto de não se beneficiar dele" — quer dizer: ainda que tenha mencionado, dentro do seu juramento, que não se beneficiaria dele caso não comesse em sua casa — pois é necessário agir assim para fortalecer a amizade e afastar a inimizade que cairia entre eles se ele não comesse com ele — ainda assim, ele não tem permissão de comer com ele até que ele próprio dizime, ou dizimem diante dele.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Demai 4:2
הַמַּדִּיר אֶת חֲבֵרוֹ שֶׁיֹּאכַל עִמּוֹ. דְּאָמַר לֵיהּ קוֹנָם מַה שֶּׁאַתָּה נֶהֱנֶה לִי אִם אֵין אַתָּה סוֹעֵד אֶצְלִי. שַׁבָּת הָרִאשׁוֹנָה. שֶׁל סְעֻדַּת נִשּׂוּאִין לְבָחוּר שֶׁנָּשָׂא בְתוּלָה, הִתִּירוּ לוֹ לֶאֱכֹל עִמּוֹ מִשּׁוּם אֵיבָה.

"Aquele que faz voto a seu amigo que coma junto dele": isto é, disse-lhe "que me seja proibido tudo que te beneficiares de mim, se não comeres em minha refeição junto a mim".

"No primeiro Shabat": trata-se do banquete de núpcias de um rapaz que desposou uma jovem virgem — permitiram-lhe comer com ele por causa da inimizade (eivá) que surgiria caso ele recusasse participar da celebração logo no início.

Massechet Demai não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.