Seder Zeraim · Massechet Demai · Perek Guimel · Mishná 6

"Aquele que dá à sua sogra"

הַנּוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ, מְעַשֵּׂר אֶת שֶׁהוּא נוֹתֵן לָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A sogra suspeita de trocar apenas o que estraga, e a exceção dos produtos do ano sabático

Aquele que dá produtos à sua sogra (para preparar) deve dizimar tanto o que lhe dá quanto o que dela recebe de volta, porque ela é suspeita de trocar aquilo que se estraga. Disse Rabi Yehudá: ela deseja o bem-estar de sua filha, e tem vergonha diante do genro. Rabi Yehudá concorda, quanto a dar à sogra produtos do ano sabático (shemitá), que ela não é suspeita de trocá-los e dar à filha para comer produtos do ano sabático.

הַנּוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ, מְעַשֵּׂר אֶת שֶׁהוּא נוֹתֵן לָהּ, וְאֶת שֶׁהוּא נוֹטֵל מִמֶּנָּה, מִפְּנֵי שֶׁהִיא חֲשׁוּדָה לַחֲלֹף אֶת הַמִּתְקַלְקֵל. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, רוֹצָה הִיא בְתַקָּנַת בִּתָּהּ וּבוֹשָׁה מֵחֲתָנָהּ. מוֹדֶה רַבִּי יְהוּדָה בְּנוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ שְׁבִיעִית, שֶׁאֵינָהּ חֲשׁוּדָה לְהַחֲלִיף לְהַאֲכִיל אֶת בִּתָּהּ שְׁבִיעִית:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta Mishná conclui o par que começou na Mishná anterior, aplicando a mesma lógica de suspeita de troca a um caso doméstico — mas com uma nuance que a diferencia radicalmente da pousadeira. Sem base bíblica direta.

Devarim (Deuteronômio) 14:22 e Vayikrá (Levítico) 25:6-7
עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר אֵת כָּל תְּבוּאַת זַרְעֶךָ. וְהָיְתָה שַׁבַּת הָאָרֶץ לָכֶם לְאָכְלָה... וְלִבְהֶמְתְּךָ וְלַחַיָּה אֲשֶׁר בְּאַרְצֶךָ תִּהְיֶה כָל תְּבוּאָתָהּ לֶאֱכֹל.
"Certamente dizimarás toda a produção da tua semente" (Devarim 14:22). "E o produto sabático da terra será para vós, para comer... e para o teu animal e para a fera que está em tua terra será toda a sua produção, para comer" (Vayikrá 25:6-7).

Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta. À primeira vista, a Mishná parece tratar a sogra como a pousadeira da Mishná anterior — suspeita de troca, exigindo dízimo duplo. Mas Rabi Yehudá introduz uma distinção crucial, baseada não em lei, mas em psicologia social: a pousadeira troca por interesse próprio (quer o melhor prato para si), enquanto a sogra, mesmo que troque, fá-lo por amor à filha (quer que a filha coma o que estragou, e reserva o melhor para o genro) — e, mais ainda, sente vergonha diante do genro de lhe servir algo estragado. Isso limita a suspeita da sogra apenas ao produto que efetivamente estragou durante o preparo — e não é uma suspeita de fraude ampla como a da pousadeira. A conclusão final e mais notável da Mishná é a exceção do ano sabático (shemitá): mesmo quem suspeitasse da sogra quanto ao dízimo comum concorda que ela jamais arriscaria alimentar a própria filha com produtos de shemitá sem a santidade adequada (que exige cuidados especiais de consumo, conforme Vayikrá 25:6-7) — pois a severidade dessa proibição é tão grande que nem mesmo o desejo de poupar a filha de comer o produto estragado a levaria a esse risco. Todo esse raciocínio é uma análise fina de motivação humana dentro do sistema já rabínico do demai, sem qualquer base textual bíblica direta.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 11:12
אֲבָל הַנּוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ, בֵּין שֶׁנָּשָׂא בִּתָּהּ בֵּין שֶׁאֵרְסָהּ, אוֹ לִשְׁכֶנְתּוֹ, פַּת לֶאֱפוֹת וְתַבְשִׁיל לְבַשֵּׁל, אֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ לֹא מִשּׁוּם מַעֲשֵׂר וְלֹא מִשּׁוּם שְׁבִיעִית, מִפְּנֵי שֶׁאֵינָהּ חֲשׁוּדָה לְהַחְלִיף. בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים? בִּזְמַן שֶׁנָּתַן לָהּ שְׂאוֹר לְעִיסָה וְתַבְלִין לִקְדֵרָה. אֲבָל אִם לֹא נָתַן, חוֹשֵׁשׁ מִשּׁוּם מַעַשְׂרוֹת וְחוֹשֵׁשׁ מִשּׁוּם שְׁבִיעִית. וּלְפִיכָךְ אִם הָיְתָה שְׁנַת שְׁמִטָּה, אָסוּר, שֶׁמָּא הַשְּׂאוֹר מִסְּפִיחֵי שְׁבִיעִית הוּא.
Mas aquele que dá à sua sogra — quer tenha desposado sua filha, quer apenas a tenha noivado — ou à sua vizinha, pão para assar e guisado para cozinhar, não precisa se preocupar nem quanto ao dízimo nem quanto ao ano sabático, porque ela não é suspeita de trocar. Em que caso se disse isso? Quando ele lhe deu o fermento para a massa e os temperos para a panela. Mas se não deu, deve se preocupar quanto aos dízimos e quanto ao ano sabático — e por isso, se era ano de shemitá, é proibido, pois talvez o fermento seja de brotos espontâneos (sfichin) do ano sabático.

É importante notar uma diferença sutil entre a decisão do Rambam aqui e o texto simples da Mishná. A Mishná, na opinião final de Rabi Yehudá (que prevalece como lei, segundo o Bartenura), concorda apenas quanto ao ano sabático que a sogra não é suspeita — implicando que, quanto ao dízimo comum, ainda haveria a exigência de dizimar duas vezes. O Rambam, porém, isenta a sogra (e a vizinha) completamente, tanto do dízimo quanto da shemitá, mas apenas na condição de que o próprio chaver tenha fornecido o fermento e os temperos — um detalhe que refina, mas não contradiz, a leniência de Rabi Yehudá, adaptando-a às circunstâncias práticas do preparo caseiro de pão e guisado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Demai 3:6
הַמִּתְקַלְקֵל. נִפְסָד וְנִשְׁחָת, רְצוֹנוֹ לוֹמַר כְּשֶׁיִּשָּׁחֵת לָהּ תַּבְשִׁיל אוֹ לֶחֶם, תִּקַּח הִיא זֶה הַנִּשְׁחָת לְעַצְמָהּ, וְתַחְלִיפֶנּוּ בְּאַחֵר טוֹב מִמֶּנּוּ. וְרַבִּי יְהוּדָה אֵינוֹ חוֹלֵק עַל מַה שֶּׁהֻקְדַּם, אֶלָּא הוּא מְבָאֵר טַעַם הַדָּבָר. וְרָאָיָה לְךָ עַל זֶה מַה שֶּׁאָמַר "אָמַר רַבִּי יְהוּדָה" וְלֹא אָמַר "רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר", וְיִהְיֶה תִּקּוּן דְּבַר הַמִּשְׁנָה כָּךְ: מִפְּנֵי שֶׁהִיא חֲשׁוּדָה לַחֲלֹף אֶת הַמִּתְקַלְקֵל, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה, שֶׁרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר רוֹצָה הִיא בְּתַקָּנַת בִּתָּהּ וְכוּ'. וְרַבִּי יְהוּדָה חוֹלֵק בְּמַה שֶּׁאָמַר כָּאן עַל דִּבְרֵי רַבִּי יוֹסֵי שֶׁהִקְדַּמְנוּ, כִּי רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מְעַשֵּׂר זֶה שֶׁהוּא נוֹתֵן לָהּ, כִּי הוּא שׁוֹמֵר שֶׁלֹּא יִגְרֹם לָהּ מִכְשׁוֹל, וְרַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר אֵין אָנוּ אַחֲרָאִים לָרַמָּאִים. וּלְפִיכָךְ אָמַר שֶׁרַבִּי יְהוּדָה מוֹדֶה לְרַבִּי יוֹסֵי בְּפֵרוֹת שְׁבִיעִית, רְצוֹנוֹ לוֹמַר שֶׁהֻתַּר לוֹ לְתִתָּן לַחֲמוֹתוֹ שֶׁתְּבַשֵּׁל לוֹ, וְלֹא נָחוּשׁ שֶׁיִּגְרֹם לָהּ מִכְשׁוֹל, שֶׁמָּא תִקָּחֵם וְתַחְלִיף הַנִּשְׁחָת וְתֹאכְלֵם שֶׁלֹּא בִּקְדֻשַּׁת שְׁבִיעִית. שֶׁאֵינָהּ, לְדַעַת רַבִּי יְהוּדָה, חֲשׁוּדָה שֶׁתַּחְלִיף פֵּרוֹת שְׁבִיעִית, מִפְּנֵי שֶׁהוּא דָּבָר חָמוּר וְהָיוּ נִזְהָרִים בּוֹ מְאֹד, לְפִיכָךְ אֵין לָנוּ לָחוּשׁ שֶׁתַּאֲכִיל לְאַנְשֵׁי בֵּיתָהּ פֵּרוֹת שְׁבִיעִית שֶׁלֹּא בִּקְדֻשַּׁת שְׁבִיעִית, אֲבָל נֹאמַר מַה שֶּׁנָּתַן לָהּ מִפֵּרוֹת שְׁבִיעִית תַּחֲזִיר, וַאֲפִלּוּ יִהְיֶה נִפְסָד. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה בִּשְׁנֵי הַמַּאֲמָרִים שֶׁחֲכָמִים מוֹדִים לוֹ.

"O que estraga" (hamitkalkel): perdido e danificado — quer dizer, quando lhe estraga um guisado ou pão, ela mesma toma o que estragou para si e o troca por outro melhor.

E Rabi Yehudá não discorda do que foi dito antes, mas apenas explica o motivo da questão. E a prova disso está em que se disse "disse Rabi Yehudá" e não "Rabi Yehudá diz" — sinal de que ele apenas comenta, não discorda. E a correção do texto da Mishná deve ser lida assim: "porque ela é suspeita de trocar o que estraga — palavras de Rabi Yehudá", pois é Rabi Yehudá quem diz "ela deseja o bem-estar de sua filha", etc.

E Rabi Yehudá discorda, no que diz aqui, das palavras de Rabi Yosei que adiantamos (na Mishná anterior): pois Rabi Yehudá diz que se dizima o que se dá a ela, porque isso é uma proteção para que não lhe cause tropeço; enquanto Rabi Yosei diz "não somos responsáveis pelos enganadores".

E por isso disse que Rabi Yehudá concorda com Rabi Yosei quanto aos frutos do ano sabático — quer dizer, que é permitido dar à sogra para que ela cozinhe, sem receio de causar-lhe tropeço, de que ela tome o produto e troque o que estragou, e o coma sem a santidade da shemitá. Pois ela não é, segundo Rabi Yehudá, suspeita de trocar frutos de shemitá, porque isso é assunto grave, e todos eram muito cuidadosos com ele; por isso não precisamos temer que ela alimente sua própria família com frutos de shemitá sem a santidade devida — mas diremos que o que lhe foi dado dos frutos de shemitá, ela devolverá, mesmo que estejam estragados.

E a lei é como Rabi Yehudá, em ambas as afirmações, pois os sábios concordam com ele.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Demai 3:6
הַמִּתְקַלְקֵל. פַּת אוֹ תַּבְשִׁיל שֶׁנִּתְקַלְקֵל. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה. בַּיְרוּשַׁלְמִי מְפָרֵשׁ דְּקָמַיְתָא נַמִּי מִלְּתֵיהּ דְּרַבִּי יְהוּדָה הִיא, וְהָכִי קָאָמַר: מִפְּנֵי שֶׁהִיא חֲשׁוּדָה לְהַחְלִיף אֶת הַמִּתְקַלְקֵל, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה, שֶׁרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר רוֹצָה הִיא בְּתַקָּנַת בִּתָּהּ וְכוּ'. בְּנוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ שְׁבִיעִית. בְּנוֹתֵן לָהּ לֶאֱפוֹת וּלְבַשֵּׁל בַּשָּׁנָה הַשְּׁבִיעִית. שֶׁאֵינָהּ חֲשׁוּדָה לְהַאֲכִיל אֶת בִּתָּהּ שְׁבִיעִית. דַּחֲמִירָא לְהוּ שְׁבִיעִית, וַאֲפִלּוּ אִם יִתְקַלְקֵל לֹא תַחְלִיפֶנּוּ בְּפֵרוֹת שְׁבִיעִית. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"O que estraga": pão ou guisado que se estragou.

"Disse Rabi Yehudá": no Talmud Yerushalmi se explica que a primeira parte também é palavra de Rabi Yehudá, e o sentido é: "porque ela é suspeita de trocar o que estraga — palavras de Rabi Yehudá, pois Rabi Yehudá diz: ela deseja o bem-estar de sua filha", etc.

"Dar à sogra produtos do ano sabático": quando lhe dá para assar e cozinhar no sétimo ano.

"Não é suspeita de alimentar sua filha com produtos do ano sabático": porque a shemitá é grave para eles, e mesmo que o produto estrague, ela não o trocará por frutos de shemitá.

E a lei é como Rabi Yehudá.

Massechet Demai não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.