Aquele que dá produtos a uma pundekita (pousadeira) para preparar, deve dizimar tanto o que lhe dá quanto o que dela recebe de volta, porque ela é suspeita de trocar. Disse Rabi Yosei: não somos responsáveis pelos enganadores; ele deve dizimar apenas o que dela recebe.
Esta Mishná introduz um novo nível de cautela — não apenas quanto ao status do produto que sai da mão de terceiros, mas quanto ao próprio produto que a pessoa entregou — sem base bíblica direta.
Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta. Esta Mishná introduz uma nuance que vai além do que se viu no Perek Bet a respeito do am haaretz em geral: ali, o am haaretz não era suspeito de trocar fisicamente o produto de um cliente pelo de outro (apenas de não separar corretamente seus próprios dízimos); mas a pousadeira profissional, que administra o vaivém constante de comida entre vários clientes, é presumida capaz de confundir ou trocar deliberadamente os ingredientes de cada um — favorecendo a si mesma com o que é melhor. Por isso, um chaver que lhe entrega produto para preparar deve dizimar não apenas o que recebe de volta (regra geral do demai), mas também o que originalmente lhe entregou — pois um chaver não pode "soltar de sua mão" algo não corrigido, sob pena de a pousadeira ficar com o produto correto e devolver ao chaver o produto trocado, sem que ele saiba. Rabi Yosei relaxa essa exigência adicional: a responsabilidade de quem entrega o produto não se estende à fraude alheia — o chaver só precisa se preocupar com o que efetivamente entra em sua própria posse. Toda essa análise é aplicação prática do princípio geral de "lifnei ivêr" e da integridade do chaver, sem correspondência bíblica direta a este caso específico.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam decide como o tana kama (o sábio anônimo) da Mishná, e não como Rabi Yosei: a exigência de dizimar o que se entrega à pousadeira permanece — não pela preocupação de que ela mesma o consuma sem dizimar (já que o Rambam explica o motivo como "tropeço para outros", não "responsabilidade pela fraude dela"), mas para prevenir que produto não corrigido circule através dela para terceiros desavisados.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Não somos responsáveis pelos enganadores": quer dizer, não recai sobre nós a responsabilidade dos enganadores, a ponto de dizermos que não deve dar-lhe senão produto já dizimado, para que, se ela o trocar, não haja tropeço para ele, e ela o coma já corrigido.
"Pundekita" (pousadeira): é a dona da hospedaria; e o costume dos viajantes é dar-lhe a farinha, a carne e o guisado, cada um sua própria comida e seu próprio pão.
E a lei não é como Rabi Yosei.
"Pundekita": guardiã da hospedaria, junto à qual os viajantes se hospedam.
"Deve dizimar o que lhe dá": porque um chaver não solta de sua mão algo que não está corrigido.
"E o que dela recebe": porque, embora o am haaretz não seja suspeito de trocar, como dissemos acima, a pousadeira é suspeita de trocar — pois tem boa intenção, e dá o seu próprio, que é mais saboroso, ao chaver, dizendo em seu coração: "convém que eu alimente com o meu, que está quente e é bom para o chaver, e eu ficarei com o dele, frio e pior."
"Não somos responsáveis pelos enganadores": ou seja, não recai sobre nós a responsabilidade de proteger os enganadores de comerem algo não dizimado; por isso, ele não dizima o que lhe dá, e se a pousadeira o tomar para si e o comer sem estar corrigido, isso não é da conta do chaver — ele só dizima o que efetivamente recebe dela.
E Rabi Yosei entende que sua intenção é roubar. E a lei não é como Rabi Yosei.