Alimentam-se os pobres com demai, e a achsanyá (tropa hospedada) com demai. Rabán Gamliel costumava alimentar seus trabalhadores com demai. Quanto aos coletores de caridade (gabaei tzedaká): Bet Shamai diz que devem dar o já dizimado a quem não dizima, e o não dizimado a quem dizima — assim, resultará que todos comerão produto corrigido. Mas os sábios dizem: eles coletam sem discriminar e distribuem sem discriminar, e quem quiser corrigir, que corrija.
Esta Mishná abre o Perek Guimel tratando de uma leniência puramente rabínica dentro do sistema do demai: a permissão de alimentar os pobres e os hóspedes com produtos de dízimo duvidoso, sem exigir a separação prévia.
Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta. A Torá estabelece dois sistemas distintos e paralelos: de um lado, os presentes agrícolas destinados diretamente aos pobres (leket, shichechá, peá) e o maasser ani (dízimo do pobre, nos anos terceiro e sexto do ciclo shemitá), que são produtos que a Torá isenta desde a origem da obrigação regular de dízimo; de outro, a obrigação geral de terumá e maasser sobre toda a produção certa de Israel. O demai não é nenhum desses — é a dúvida rabínica sobre se um produto comprado de um am haaretz já foi dizimado. Esta Mishná ensina que, precisamente por ser uma obrigação de origem apenas rabínica (e não bíblica), os sábios permitiram, como leniência adicional, alimentar os pobres e os hóspedes com demai sem exigir dízimo prévio — poupando aos necessitados o fardo de separar produto que, muito provavelmente, já estava corrigido. É uma leniência sobre uma leniência: o próprio decreto de demai já é mais brando que a obrigação bíblica plena, e agora se abre uma exceção adicional em favor de quem recebe caridade. O debate entre Bet Shamai e os sábios sobre os coletores de caridade não envolve texto bíblico algum — é puramente uma questão de como administrar, na prática, essa leniência already rabínica.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam decide como os sábios, e não como Bet Shamai: os coletores de caridade não precisam separar produtos dizimados de não dizimados para distribuí-los seletivamente — a prática mais simples de coletar e distribuir indiscriminadamente prevalece, deixando a cada beneficiário a opção de dizimar por conta própria.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
É permitido aos pobres comer demai, a fim de aliviar-nos o fardo da caridade. E achsanyá são os hóspedes, e isso foi feito para reforçar o preceito da hospedagem em nossa religião, a fim de aliviar aos donos de casa que hospedam. E o que disse "e quem quiser corrigir, que corrija" — quer dizer, quem quiser corrigir aquilo que lhe deram, e retirar dele os dons do demai, que o faça.
E talvez isso lhe pareça difícil, e você diga: já que permitimos aos pobres comer demai, por que se diz sobre os que recebem a caridade "quem quiser corrigir, que corrija" — sendo ele um pobre? E isso não deve lhe parecer difícil, porque o que permitimos aos pobres quanto ao demai é quando lhes é dada uma única refeição, pelo motivo que mencionamos; mas quando a cesta de caridade é dividida entre eles, e cabe a cada um uma boa porção que entra em sua posse, ele se obriga a retirar dela sua obrigação de demai. Não vês que disseram "alimentam-se os pobres" e não disseram "os pobres comem"?
E a lei é como os sábios, e não como Rabán Gamliel.
"Alimentam-se os pobres com demai": mesmo que sejam chaverim. E é preciso avisá-los, e quem quiser dizimá-los, que os dizime.
"E a achsanyá": tropa do rei de Israel que passa de um lugar para outro, e cabe aos moradores do lugar sustentá-la — alimentam-nos com demai, enquanto ela está de passagem; mas se pernoitarem ali durante a noite, são obrigados a corrigir (dizimar).
"Rabán Gamliel costumava alimentar seus trabalhadores com demai": eram pobres. E a lei não é como Rabán Gamliel, pois, sendo ele obrigado ao sustento deles, resulta que está pagando sua dívida com demai.
"E o não dizimado a quem dizima": e lhe dão mais do que o necessário para seus dízimos, resultando que todas as pessoas comem produto corrigido. E Bet Shamai segue seu próprio raciocínio, que diz que não se alimentam os pobres com demai.
"E quem quiser corrigir, que corrija": pois o demai só foi permitido aos pobres quando comem uma única refeição junto ao dono da casa; mas os produtos que chegarem às suas próprias mãos, eles são obrigados a dizimá-los como demai. Isso se confirma também pela precisão do texto, que ensina "alimentam-se os pobres com demai" e não ensina "os pobres comem demai". Assim escreveu o Rambam.