A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Usos e casos que isentam o demai
Quem compra grão para semente ou para alimento animal, farinha para couros, óleo para lâmpada, ou óleo para untar utensílios, está isento das leis de demai. O que vem de Cheziv e para além é isento das leis de demai. A chalá de um am haaretz, o produto misturado com terumá (o medumá), o produto comprado com dinheiro de maasser sheni, e os restos das minchot (oferendas de farinha) são isentos das leis de demai. Óleo perfumado — a Escola de Shamai o considera obrigado; mas a Escola de Hilel o isenta.
הַלּוֹקֵחַ לְזֶרַע וְלִבְהֵמָה, קֶמַח לְעוֹרוֹת, שֶׁמֶן לְנֵר, שֶׁמֶן לָסוּךְ בּוֹ אֶת הַכֵּלִים, פָּטוּר מִן הַדְּמַאי. מִכְּזִיב וּלְהַלָּן, פָּטוּר מִן הַדְּמַאי. חַלַּת עַם הָאָרֶץ, וְהַמְדֻמָּע, פָּטוּר מִן הַדְּמַאי. חַלַּת עַם הָאָרֶץ, וְהַלָּקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, וְשִׁירֵי הַמְּנָחוֹת, פְּטוּרִין מִן הַדְּמַאי. שֶׁמֶן עָרֵב, בֵּית שַׁמַּאי מְחַיְּבִין, וּבֵית הִלֵּל פּוֹטְרִין:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
A relação com a Torá aqui é indireta: cada isenção listada decorre da definição bíblica de quem é obrigado a dizimar, e de qual território está sujeito às mitzvot dependentes da Terra.
Devarim (Deuteronômio) 14:22-23
עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר אֵת כָּל תְּבוּאַת זַרְעֶךָ, הַיֹּצֵא הַשָּׂדֶה שָׁנָה שָׁנָה. וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה׳ אֱלֹהֶיךָ... מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
"Certamente dizimarás toda a produção da tua semente, que o campo produzir a cada ano. E comerás perante o Eterno teu Deus... o dízimo do teu cereal, do teu vinho novo e do teu azeite."
Por que esta Mishná não tem fonte bíblica direta. A obrigação bíblica de dízimo recai sobre "a produção da tua semente" — isto é, sobre o produto agrícola destinado ao consumo humano como alimento. Por isso, quando o produto é destinado a outro fim (semente para plantar de novo, ração animal, curtume, iluminação), ele nunca entra na categoria de "tevu'á" (produção alimentar) sujeita ao dízimo desde o início — e, consequentemente, também não pode ficar sujeito à dúvida do demai, que pressupõe justamente essa obrigação básica. Quanto ao limite geográfico a partir de Cheziv, o Rambam explica que o próprio decreto de demai, quando promulgado pelos sábios, foi aplicado apenas à porção da Terra de Israel que foi conquistada e ocupada pelos que retornaram da Babilônia — a área sujeita, por decreto rabínico, às mitzvot agrícolas dependentes da Terra. Cheziv marca essa fronteira: além dela, a "presunção" é que o produto vem de terra não sujeita ao decreto, e por isso está isento.
Halachot · הֲלָכוֹת
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 13:3, 13:14
כְּשֶׁגָּזְרוּ עַל הַדְּמַאי לֹא גָּזְרוּ אֶלָּא עַל פֵּרוֹת הָאָרֶץ שֶׁהֶחֱזִיקוּ בָּהּ עוֹלֵי בָּבֶל בִּלְבַד, שֶׁהוּא מִכְּזִיב וְלִפְנִים, וּכְזִיב עַצְמָהּ כְּלַחוּץ... וְאֵלּוּ דְּבָרִים שֶׁלֹּא גָּזְרוּ עֲלֵיהֶן בְּשָׁעָה שֶׁגָּזְרוּ עַל הַדְּמַאי: הַלּוֹקֵחַ פֵּרוֹת לִזְרִיעָה אוֹ לְהַאֲכִיל לִבְהֵמָה, קֶמַח לְעוֹרוֹת אוֹ לִמְלוּגְמָא אוֹ לִרְטִיָּה, שֶׁמֶן לְהַדְלָקַת הַנֵּר אוֹ לָסוּךְ בּוֹ אֶת הַכֵּלִים... וְחַלַּת עַם הָאָרֶץ, וְהַמְדֻמָּע, וְהַלָּקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, וּשְׁיָרֵי הַמְּנָחוֹת... כָּל אֵלּוּ פְּטוּרִים מִן הַדְּמַאי.
Quando os sábios decretaram sobre o demai, não decretaram senão sobre o produto da terra que os que retornaram da Babilônia ocuparam — que vai de Cheziv para dentro; e a própria Cheziv é considerada como se estivesse fora... E estas são as coisas que não foram incluídas no decreto de demai: quem compra frutos para plantio ou para alimentar animais, farinha para couros, para cataplasma ou para curativo, óleo para acender lâmpada ou para untar utensílios... e a chalá de um am haaretz, o produto misturado (medumá), o comprado com dinheiro de maasser sheni, e os restos das oferendas de farinha — todos estes estão isentos do demai.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Demai 1:3
קֶמַח לְעוֹרוֹת. לְעַבֵּד בָּהֶם הָעוֹרוֹת. וּכְזִיב. שֵׁם מָקוֹם, וְהוּא הַמַּפְרִישׁ בֵּין אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל שֶׁהֶחֱזִיקוּ עוֹלֵי בָבֶל וּבֵין שֶׁהֶחֱזִיקוּ בָּהּ עוֹלֵי מִצְרַיִם, וַאֲשֶׁר הֶחֱזִיקוּ בָּהּ עוֹלֵי מִצְרַיִם הֵם לְעִנְיַן דְּמַאי כְּמוֹ חוּץ לָאָרֶץ. וְהָעִקָּר שֶׁיֵּשׁ אֶצְלֵנוּ, חֶזְקַת אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל חַיָּב עַד שֶׁיִּוָּדַע שֶׁהוּא פָּטוּר, וְעַל כֵּן יִתְחַיֵּב בָּהּ הַדְּמַאי בַּדִּינִין אֲשֶׁר זָכַרְנוּ, וְחֶזְקַת חוּצָה לָאָרֶץ פָּטוּר עַד שֶׁיִּוָּדַע לְךָ שֶׁהוּא חַיָּב. וְהַמְדֻמָּע הוּא דָּבָר הַמְעֹרָב מֵחֻלִּין וּתְרוּמָה... וְשִׁירֵי הַמְּנָחוֹת, הוּא הַנּוֹתָר מִן הַמִּנְחָה אַחַר שֶׁיַּקְרִיב מִמֶּנָּה מְלֹא קֻמְצוֹ, וְהַנּוֹתָר הַהוּא אוֹכְלִים אוֹתוֹ הַכֹּהֲנִים.
"Farinha para couros": para curtir com ela os couros. "E de Cheziv": nome de um lugar, que é o marco divisor entre a Terra de Israel que ocuparam os que retornaram da Babilônia e a que ocuparam os que retornaram do Egito; e a que ocuparam os que retornaram do Egito é, para efeito de demai, como se fosse fora da Terra. E o princípio que temos é: a presunção da Terra de Israel é de obrigação, até que se saiba que é isenta; por isso, ela fica obrigada ao demai nas regras que mencionamos. E a presunção de fora da Terra é de isenção, até que se saiba que é obrigada.
E o "medumá" é aquilo que está misturado de produto comum com terumá... E "os restos das minchot" é o que sobra da oferenda de farinha depois que se oferece dela um punhado cheio; e esse restante os cohanim o comem, como a Torá lhes ordena a respeito. E disseram na Guemará (do Yerushalmi): na hora em que decretaram sobre o demai, não decretaram sobre estas coisas.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Demai 1:3
הַלּוֹקֵחַ לְזֶרַע. לָקַח תְּבוּאָה לְזָרְעָהּ, פָּטוּר בִּדְמַאי, דְּאִלּוּ טֶבֶל וַדַּאי אָסוּר לִזְרֹעַ. וְלִבְהֵמָה. לָקַח מִתְּחִלָּה לְהַאֲכִיל לִבְהֵמָה, פָּטוּר מִן הַדְּמַאי. אֲבָל לָקַח מִתְּחִלָּה לְאָדָם וְנִמְלַךְ עָלֶיהָ לִבְהֵמָה, חַיָּב לְעַשֵּׂר בִּדְמַאי. מִכְּזִיב וּלְהַלָּן. כְּזִיב הוּא סוֹף הַמָּקוֹם שֶׁכָּבְשׁוּ עוֹלֵי בָּבֶל, וּמִשָּׁם וּלְהַלָּן כָּבְשׁוּ עוֹלֵי מִצְרַיִם וְלֹא כָבְשׁוּ עוֹלֵי בָּבֶל, וְלֹא נִתְחַיְּבוּ בִּדְמַאי אֶלָּא הָאֲרָצוֹת שֶׁכָּבְשׁוּ עוֹלֵי בָּבֶל בִּלְבַד. וְהַמְדֻמָּע. עַם הָאָרֶץ שֶׁנָּפְלָה לוֹ סְאָה שֶׁל תְּרוּמָה לְפָחוֹת מִמֵּאָה סְאִין שֶׁל חֻלִּין, שֶׁנַּעֲשָׂה הַכֹּל מְדֻמָּע.
"Quem compra para semente": comprou cereal para semeá-lo — está isento do demai, ao passo que um tevel certo (não dizimado) é proibido de ser semeado. "E para animal": comprou desde o início para alimentar um animal — está isento do demai. Mas se comprou desde o início para pessoa e depois mudou de ideia para dá-lo a um animal — fica obrigado a dizimar como demai.
"De Cheziv e para além": Cheziv é o fim do território que os que retornaram da Babilônia conquistaram; dali para além conquistaram os que retornaram do Egito, e não os que retornaram da Babilônia — e não ficaram obrigados no demai senão as terras conquistadas pelos que retornaram da Babilônia.
E o "medumá": um am haaretz a quem caiu uma medida de terumá em menos de cem medidas de produto comum, de modo que tudo se tornou medumá (misturado com terumá).
Massechet Demai não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.