O demai não tem quinto (acréscimo de um quinto na redenção); e não tem biur (obrigação de remoção ao fim de três anos); é comido pelo onen (enlutado no dia da morte); entra em Jerusalém e sai; e permitem que se perca uma pequena parte dele nos caminhos; e o dão a um am haaretz e comem o equivalente em Jerusalém; e redimem prata por prata, cobre por cobre, prata por cobre, e cobre por produto — desde que depois se redima o produto por dinheiro, palavras de Rabi Meir. Mas os sábios dizem: o próprio produto deve ser levado e comido em Jerusalém.
Esta Mishná contrasta as regras do maasser sheni verdadeiro (de origem bíblica) com as leniências concedidas ao maasser sheni de demai (instituição rabínica), por isso cada leniência aqui listada pressupõe o versículo que rege o caso "certo".
Por que esta Mishná gira em torno destes versículos. Cada uma das seis leniências desta Mishná é definida por oposição a uma regra que a Torá estabelece para o maasser sheni verdadeiro (vadai): a Torá exige o acréscimo de um quinto quando o próprio dono redime seu maasser sheni (Vayicrá 27:31); exige que ele seja totalmente removido de casa ao fim de três anos, no "biur" (Devarim 26:13); proíbe que o onen o coma (Devarim 26:14); e — como explica o Rambam — proíbe que se perca no caminho ou que se entregue a um am haaretz, presumido impuro. Como o demai é uma instituição dos sábios sobre um caso de dúvida, e não uma obrigação bíblica certa, os sábios dispensaram, no caso do demai, cada uma dessas restrições que a Torá impõe ao maasser sheni certo — porque a razão de cada restrição (evitar perda do que é sagrado, evitar impureza) se aplica com menos força quando a própria obrigação de dizimar já é apenas uma dúvida.
Como os princípios gerais do maasser sheni, contrastados com o demai, foram codificados pelo Rambam.
O Rambam codifica estas restrições — válidas para o maasser sheni certo — em Hilchot Maasser Sheni veNeta Reva, capítulo 3. As leniências específicas que a Mishná concede ao maasser sheni de demai, por contraste, não recebem capítulo formal próprio no Mishné Torá: o Rambam as trata, junto com o restante das leis de demai, em seu comentário à Mishná, como decorrência natural do caráter duvidoso — e não certo — da obrigação.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Quer dizer que o maasser sheni de demai tem leis leves, e não está sujeito ao que está sujeito o maasser sheni verdadeiro. E isto porque o maasser sheni verdadeiro, quando seu dono o redime para si mesmo, deve acrescentar o quinto ao seu valor...
E "onen" é o homem a quem morreu um parente e que se torna obrigado ao luto por causa dele; e no dia de seu enterro é onen por lei da Torá, enquanto não for enterrado, até o fim do dia do enterro... E, enquanto é chamado onen, é proibido a ele comer maasser sheni... E tudo isso foi permitido no maasser sheni de demai, como se verá.
E o que disse "e coma o equivalente" — quer dizer que os frutos de maasser sheni de demai, que permitimos entregar ao am haaretz, exigirão que se retire de seus próprios bens conforme o valor deles, e os coma em Jerusalém como se fossem moedas de maasser sheni.
"O demai não tem quinto": quem redime o maasser sheni de demai não paga o quinto, porque a maioria dos amei haaretz de fato dizima. Por isso, o "capital" (o valor principal), que impede por lei da Torá, aqui existe apenas por decreto rabínico; e o "quinto", que não impede por lei da Torá, pode ser comido sem ele.
"E não tem biur": ao fim de três anos, quando se é obrigado a remover todos os dízimos de casa, como está escrito "já tirei da minha casa a coisa sagrada" — os sábios não instituíram isto para o demai.
"E o dão a um am haaretz": para que o coma em Jerusalém, mesmo sendo ele suspeito de comê-lo em impureza — o que não ocorre no maasser sheni verdadeiro, cujo dono não pode entregá-lo a um am haaretz, pois este não se cuida de comê-lo em pureza.