Seder Moed · Massechet Chaguigá · Perek Guimel · Mishná 2 de 8

Utensílios acabados em pureza e a força de unir do recipiente

כֵּלִים הַנִּגְמָרִין בְּטָהֳרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua a lista de diferenças de rigor entre o sagrado e a oferenda sacerdotal, agora tratando de utensílios recém-fabricados, da força do recipiente para unir seu conteúdo, e da impureza que se transmite de mão em mão.

Utensílios acabados em pureza precisam de imersão para o sagrado, mas não para a oferenda sacerdotal. O utensílio une o que está dentro dele para o sagrado, mas não para a oferenda sacerdotal. O quarto grau é desqualificado no sagrado, e o terceiro na oferenda sacerdotal. E na oferenda sacerdotal, se uma de suas mãos ficou impura, a outra permanece pura. E no sagrado, imerge-se as duas, pois a mão contamina a outra mão no sagrado, mas não na oferenda sacerdotal.A mishná apresenta mais três diferenças de rigor. Primeiro: mesmo um utensílio fabricado do início ao fim por um artesão cuidadoso, sem nunca ter tocado nada impuro, ainda precisa de imersão antes de ser usado para o sagrado — por temor de que, durante sua fabricação, alguém do povo comum o tenha tocado sem que o artesão percebesse — mas essa mesma precaução não se aplica à oferenda sacerdotal. Segundo: quando várias porções de alimento estão reunidas dentro de um mesmo utensílio, o próprio recipiente as une numa só unidade de pureza para fins do sagrado, de modo que a impureza de uma porção contamina todas as demais; mas para a oferenda sacerdotal, cada porção mantém sua pureza independente. Terceiro: a cadeia de transmissão de impureza avança um grau a mais no sagrado do que na oferenda sacerdotal — o quarto grau de impureza já desqualifica o sagrado, enquanto para a oferenda sacerdotal basta chegar ao terceiro grau. E por fim, a mishná trata da impureza das mãos: para a oferenda sacerdotal, se uma das mãos da pessoa ficou impura por contato com algo que só contamina as mãos, a outra mão permanece pura e utilizável; mas para o sagrado, essa impureza se propaga de uma mão para a outra, exigindo que ambas sejam imersas.

כֵּלִים הַנִּגְמָרִין בְּטָהֳרָה, צְרִיכִין טְבִילָה לַקֹּדֶשׁ, אֲבָל לֹא לַתְּרוּמָה. הַכְּלִי מְצָרֵף מַה שֶּׁבְּתוֹכוֹ לַקֹּדֶשׁ, אֲבָל לֹא לַתְּרוּמָה. הָרְבִיעִי בַּקֹּדֶשׁ פָּסוּל, וְהַשְּׁלִישִׁי בַּתְּרוּמָה. וּבַתְּרוּמָה, אִם נִטְמֵאת אַחַת מִיָּדָיו, חֲבֶרְתָּהּ טְהוֹרָה. וּבַקֹּדֶשׁ, מַטְבִּיל שְׁתֵּיהֶן, שֶׁהַיָּד מְטַמָּא אֶת חֲבֶרְתָּהּ בַּקֹּדֶשׁ, אֲבָל לֹא בַּתְּרוּמָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vaicrá (Levítico) 11:33
וְכָל־כְּלִי־חֶרֶשׂ אֲשֶׁר־יִפֹּל מֵהֶם אֶל־תּוֹכוֹ כֹּל אֲשֶׁר בְּתוֹכוֹ יִטְמָא
E todo utensílio de barro em cujo interior cair algo deles, tudo o que estiver em seu interior ficará impuro.

Esse versículo, que descreve a impureza de um utensílio de barro contaminando tudo o que está em seu interior, é a base bíblica que a Guemará associa à regra de que “o utensílio une o que está dentro dele” quanto ao sagrado — tudo o que compartilha o mesmo recipiente é tratado como uma única unidade de pureza. A mesma lógica que o texto aplica à impureza — o que está dentro do utensílio compartilha seu destino de impureza — a tradição estende, no caso do sagrado, também à pureza compartilhada de várias porções reunidas: se uma parte se torna impura, todo o conteúdo do recipiente é considerado contaminado, um rigor que não se estende à oferenda sacerdotal, onde cada porção conserva sua condição independente.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o motivo pelo qual utensílios recém-fabricados precisam de imersão antes do uso sagrado, e detalha a regra da mão que contamina a outra mão.

Rambam · Perush HaMishná, Chaguigá 3:2
ואפילו היה העושה אותן תלמיד חכם על כל פנים צריכים טבילה ואינן צריכין הערב שמש וזה לקדש.
Rambam explica que, mesmo que o próprio artesão que fabricou o utensílio seja um sábio cuidadoso com a pureza, ainda assim o utensílio precisa de imersão antes de ser usado para o sagrado — embora, nesse caso, não seja necessário esperar o pôr do sol depois da imersão, como se exige em outras formas de purificação. Rambam explica que a impureza temida aqui é apenas de nível rabínico, motivada pela possibilidade remota de contato acidental durante a fabricação.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o receio concreto por trás da exigência de imersão para utensílios novos; Rashi, na Guemará, detalha a lógica da propagação de impureza entre as mãos.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chaguigá 3:2
וסמכו זה לאמרו כף אחת עשרה זהב הכתוב עשה כל מה שבכף אחת... וכשנטמאה ידו בדברים המטמאין את הידים... יהיה באותה היד הטמאה לחלוחית מיד נטמאת ידו השנית לקדש.

Rambam confirma que o versículo sobre a colher de incenso do Templo é a base para a regra de que o utensílio une seu conteúdo numa única unidade de pureza quanto ao sagrado. Sobre a impureza que passa de uma mão para a outra, explica que isso só ocorre quando há umidade na mão impura no momento do contato — se a mão impura estiver seca, a outra mão só se torna impura ao tocá-la diretamente.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chaguigá 3:2
כֵּלִים הַנִּגְמָרִים בְּטָהֳרָה. שֶׁגְּמָרָן חָבֵר, וְנִזְהַר בָּהֶם... חָיְשִׁינַן שֶׁמָּא נִתַּז רֹק מִפִּי עַם הָאָרֶץ עַל הַכְּלִי בְּשָׁעָה שֶׁהָיָה הֶחָבֵר אוֹחֵז בּוֹ.

Bartenura explica o receio concreto por trás da exigência: mesmo que o artesão cuidadoso tenha terminado o utensílio com todo o cuidado, teme-se que, num momento em que ele o segurava, alguém do povo comum, não cuidadoso com a pureza, tenha cuspido inadvertidamente sobre o utensílio — e mesmo que naquele momento o objeto ainda não estivesse pronto para receber impureza, a saliva poderia ter permanecido úmida até que ele fosse concluído, contaminando-o retroativamente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Chaguigá 24a
מחוסר כפורים כשר לתרומה ופסול לקדש - ביבמות ילפינן לה מקראי בפרק הערל: שלישי שפסול בתרומה - כדנפקא לן ק"ו במסכת סוטה, ומה טבול יום שמותר במעשר אסור בתרומה שני שפסול במעשר אינו דין שיעשה שלישי בתרומה.

Rashi confirma a origem da escala progressiva de graus de impureza entre dízimo, oferenda sacerdotal e sagrado, derivada por um raciocínio a fortiori (kal vachomer): se aquele que imergiu no mesmo dia, mas ainda aguarda o anoitecer, já está desqualificado para o dízimo, com maior razão o terceiro grau de impureza deve desqualificar a oferenda sacerdotal — e, por extensão desse mesmo raciocínio, o quarto grau desqualifica o sagrado.