Não se ensinam os segredos das relações proibidas a três pessoas, nem a obra da criação a duas, nem a Merkavá a um só, a menos que fosse sábio e entendesse por sua própria compreensão. Todo aquele que contempla quatro coisas, melhor lhe seria não ter vindo ao mundo: o que há em cima, o que há embaixo, o que há adiante e o que há atrás. E todo aquele que não teve consideração pela honra de seu Criador, melhor lhe seria não ter vindo ao mundo. — A mishná estabelece três graus decrescentes de audiência para três áreas de ensino cada vez mais profundas. Os segredos das relações proibidas — leituras que dependem de dedução, não expressas diretamente no texto — não podem ser ensinados a três pessoas de uma vez, porque, enquanto o mestre fala com uma delas, as outras duas podem se distrair conversando entre si e perder o sentido exato da proibição, arriscando-se a tratá-la com leviandade. A obra da criação, mais profunda ainda, não pode ser ensinada nem a duas pessoas juntas — apenas a um único aluno de cada vez. E a obra da Merkavá, a visão da Carruagem Divina revelada a Ezequiel, é a mais restrita de todas: não pode ser ensinada nem a um único aluno, a menos que ele já seja um sábio capaz de compreender o essencial por sua própria inteligência, precisando apenas de breves indicações iniciais. A mishná conclui com uma advertência mais ampla: quem se volta para contemplar o que está acima da criação, abaixo dela, antes dela ou depois dela — extrapolando os limites daquilo que a mente humana pode legitimamente abarcar — seria melhor que não tivesse vindo ao mundo, pois esse tipo de especulação sem freio não honra devidamente seu Criador.
A Guemará deriva do singular gramatical desse versículo — “pergunta agora”, no singular, e não no plural — a regra de que a obra da criação só pode ser ensinada a um único aluno de cada vez, nunca a dois simultaneamente. O verbo “sha'al”, pergunta, dirigido a uma só pessoa, ensina que quem deseja aprender os segredos dos dias primordiais da criação deve fazê-lo a sós com o mestre, sem a presença de um segundo aluno que possa dividir a atenção do ensinamento ou distorcer, em conversa paralela, algo tão delicado quanto os primeiros atos da existência do mundo.
Rambam distingue as três áreas restritas da mishná e explica o que entende por “obra da criação” e “obra da Merkavá” — a sabedoria da natureza e a sabedoria divina.
Bartenura detalha os três graus de restrição e discute o próprio sentido de “obra da Merkavá”; Rashi, na Guemará, localiza as quatro coisas vedadas à contemplação.
Rambam explica que é proibido ensinar os segredos das relações proibidas quando há três ou mais ouvintes, pois, enquanto um deles questiona o mestre, os outros dois podem se envolver em discussão entre si, distraindo o pensamento e impedindo a compreensão correta e cuidadosa de uma matéria tão delicada. Ele acrescenta que, por serem esses assuntos objeto de forte desejo humano, um mal-entendido nessa área tende a levar as pessoas a se inclinarem para a leniência quando surge alguma dúvida sobre o que ouviram do mestre.
Bartenura identifica a Merkavá com a visão da Carruagem Divina contemplada por Ezequiel e por Isaías. Ele cita a explicação de Rambam — que associa a obra da Merkavá à sabedoria divina em geral, incluindo a existência de Deus, os anjos, a alma e o destino após a morte — mas discorda, observando que, se fosse esse o sentido, a mishná teria usado a expressão “sabedoria da Merkavá” em vez de “obra da Merkavá”. Para Bartenura, o termo designa algo mais específico: um uso místico da invocação dos nomes sagrados, através do qual os iniciados contemplam as ordens angelicais em seus postos, de modo semelhante àqueles que percebem através do espírito profético.
Rashi esclarece a contagem de pessoas em cada nível: “não se ensina a três” significa dois alunos mais o mestre; “a duas” significa um aluno mais o mestre; “a um só” significa que não há ninguém além do próprio aluno sozinho, como a Guemará detalha adiante. Sobre as quatro coisas vedadas à contemplação, Rashi as localiza espacialmente em relação ao firmamento que paira sobre a cabeça das criaturas celestiais da visão de Ezequiel: o que está acima desse firmamento, o que está abaixo delas, o que está além do limite oriental do firmamento, e o que está além do seu limite ocidental.