Seder Moed · Massechet Chaguigá · Perek Bet · Mishná 2 de 7

As cinco gerações de pares e a controvérsia da semichá

יוֹסֵי בֶּן יוֹעֶזֶר אוֹמֵר שֶׁלֹּא לִסְמֹךְ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná recorda a cadeia de cinco gerações de pares de sábios que discordaram sobre se é permitido apoiar as mãos sobre a cabeça do animal oferecido em dia festivo — uma controvérsia que atravessou a liderança do povo desde a época dos primeiros Zugot até Hilel e Shamai, encerrando com a distinção entre Nassi e Av Beit Din.

Iossê ben Ioézer diz que não se apoia; Iossê ben Iochanan diz que se apoia. Iehoshua ben Perachiá diz que não se apoia; Nitai, o Arbelita, diz que se apoia. Iehudá ben Tabai diz que não se apoia; Shimon ben Shatach diz que se apoia. Shemaiá diz que se apoia; Avtalion diz que não se apoia. Hilel e Menachem não discordaram. Menachem saiu, entrou Shamai. Shamai diz que não se apoia; Hilel diz que se apoia. Os primeiros eram Nessiim, e os segundos deles eram chefes do tribunal.A mishná registra cinco gerações sucessivas de pares de sábios — os Zugot — que discordaram sobre uma única questão prática: se é permitido, no dia festivo, apoiar as mãos com todo o peso do corpo sobre a cabeça do animal antes de oferecê-lo, um ato que envolve o uso de um ser vivo e certo esforço físico, o que poderia conflitar com a proibição de trabalho no yom tov. Em cada par, um sábio proibia o apoio e o outro o permitia, exceto no quarto par, em que ambos concordavam em permitir. A mishná narra ainda um episódio de transição: Hilel formava par com Menachem sem que jamais discordassem, mas quando Menachem se retirou para servir ao rei, Shamai ocupou seu lugar e discordou de Hilel sobre exatamente essa questão. A mishná fecha explicando a estrutura hierárquica desses pares: o primeiro sábio mencionado em cada par ocupava o cargo de Nassi, o líder principal, enquanto o segundo ocupava o cargo de Av Beit Din, o chefe do tribunal, a segunda posição de autoridade.

יוֹסֵי בֶּן יוֹעֶזֶר אוֹמֵר שֶׁלֹּא לִסְמוֹךְ, יוֹסֵי בֶּן יוֹחָנָן אוֹמֵר לִסְמוֹךְ. יְהוֹשֻׁעַ בֶּן פְּרַחְיָה אוֹמֵר שֶׁלֹּא לִסְמוֹךְ, נִתַּאי הָאַרְבֵּלִי אוֹמֵר לִסְמוֹךְ. יְהוּדָה בֶּן טַבַּאי אוֹמֵר שֶׁלֹּא לִסְמוֹךְ, שִׁמְעוֹן בֶּן שָׁטָח אוֹמֵר לִסְמוֹךְ. שְׁמַעְיָה אוֹמֵר לִסְמוֹךְ. אַבְטַלְיוֹן אוֹמֵר שֶׁלֹּא לִסְמוֹךְ. הִלֵּל וּמְנַחֵם לֹא נֶחְלְקוּ. יָצָא מְנַחֵם, נִכְנַס שַׁמַּאי. שַׁמַּאי אוֹמֵר שֶׁלֹּא לִסְמוֹךְ, הִלֵּל אוֹמֵר לִסְמוֹךְ. הָרִאשׁוֹנִים הָיוּ נְשִׂיאִים, וּשְׁנִיִּים לָהֶם אַב בֵּית דִּין:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vaicrá (Levítico) 1:4
וְסָמַךְ יָדוֹ עַל רֹאשׁ הָעֹלָה וְנִרְצָה לוֹ לְכַפֵּר עָלָיו
E apoiará sua mão sobre a cabeça da oferenda de ascensão, e lhe será aceita para expiar por ele.

A Torá exige o apoio das mãos sobre a cabeça do animal em toda oferenda de ascensão, com todo o peso do corpo — um gesto que, em dia comum, não gera dúvida alguma. A controvérsia dos Zugot nasce especificamente do choque entre esse preceito bíblico e a proibição rabínica de usar animais vivos como se fossem instrumentos de trabalho em dia festivo: como a semichá exige apoiar-se com toda a força sobre o animal, alguns sábios a equipararam a um uso proibido de ser vivo no yom tov, enquanto outros insistiram em preservar o cumprimento pleno do mandamento bíblico mesmo no dia de festa.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam identifica o episódio de Menachem e fixa a halachá final, seguindo a opinião de Hilel.

Rambam · Perush HaMishná, Chaguigá 2:2
אמרו יצא מנחם רצה לומר יצא מבית המדרש לעבודת המלך ולא שמענו לו דעת בסמיכה ביום טוב. ופסק ההלכה מביאין עולות ראייה ושלמי חגיגה ביו״ט וסומכין עליהן.
Rambam explica que a expressão “Menachem saiu” significa que ele deixou a casa de estudo para servir na corte do rei, razão pela qual não chegou a se registrar sua opinião sobre a questão da semichá em dia festivo. Rambam fixa a halachá final segundo a posição de Hilel: trazem-se as oferendas de ascensão de apresentação e as oferendas de paz da chagigá em dia festivo, e apoia-se as mãos sobre elas normalmente.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o motivo da proibição e o episódio da saída de Menachem; Rashi, na Guemará, discute a lógica por trás da controvérsia.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chaguigá 2:2
יוסי בן יועזר אומר שלא לסמוך וכו׳: אמרו יצא מנחם רצה לומר יצא מבית המדרש לעבודת המלך ולא שמענו לו דעת בסמיכה ביום טוב.

Rambam confirma que a expressão da mishná sobre Menachem se refere à sua saída da casa de estudo para o serviço do rei, o que explica por que sua posição pessoal sobre a semichá em dia festivo nunca chegou a ser registrada — diferentemente de todos os demais pares, cujas duas opiniões opostas ficaram preservadas.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chaguigá 2:2
יוֹסֵי בֶּן יוֹעֶזֶר אוֹמֵר שֶׁלֹּא לִסְמֹךְ. בְּיוֹם טוֹב. מִפְּנֵי שֶׁמִּשְׁתַּמֵּשׁ בְּבַעֲלֵי חַיִּים, שֶׁבְּכָל כֹּחוֹ הוּא סוֹמֵךְ. וְזוֹ הַמַּחֲלֹקֶת הָיְתָה בֵּין הַנְּשִׂיאִים וּבֵין אֲבוֹת בֵּית דִּין, דּוֹר אַחַר דּוֹר: יָצָא מְנַחֵם. לַעֲבוֹדַת הַמֶּלֶךְ, וּפָרַשׁ מִלִּהְיוֹת חֲבֵרוֹ שֶׁל הִלֵּל.

Bartenura explica que a proibição de Iossê ben Ioézer se refere especificamente ao dia festivo, pois quem apoia as mãos com todo o seu peso está fazendo uso de um ser vivo de modo próximo a trabalho. Ele observa que essa controvérsia se repetiu, de geração em geração, entre quem ocupava o posto de Nassi e quem ocupava o posto de Av Beit Din. Sobre Menachem, esclarece que ele deixou a casa de estudo para o serviço do rei, afastando-se de sua parceria com Hilel, e Shamai então tomou seu lugar como Av Beit Din, discordando de Hilel nessa questão.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Chaguigá 16a
משנה. יוסי בן יועזר אומר שלא לסמוך: מפני שמשתמש בבעלי חיים, וכל כחו הוא סומך, ודמי למלאכה ביום טוב. הראשונים היו נשיאים - שהיו מן הראשונים המנויים בכל זוג נשיא, והשני אב בית דין.

Rashi confirma que o fundamento da proibição de Iossê ben Ioézer é o uso do animal com toda a força do corpo, o que se assemelha a um tipo de trabalho vedado no dia festivo. Sobre a estrutura hierárquica final da mishná, Rashi explica que, em cada um dos pares mencionados, o sábio citado em primeiro lugar ocupava o cargo de Nassi, a liderança principal do povo, enquanto o segundo ocupava o cargo de Av Beit Din, o chefe do tribunal rabínico, a segunda posição de autoridade na hierarquia.