A permissão dos votos flutua no ar e não tem em que se apoiar. As leis do Shabat, das oferendas festivas e dos usos indevidos são como montanhas suspensas por um fio de cabelo, pois têm pouco texto bíblico e muitas leis. Os julgamentos, os serviços do Templo, as purezas, as impurezas e as relações proibidas têm em que se apoiar — estes e estes são os corpos essenciais da Torá. — A mishná classifica a Torá Oral em três níveis, segundo sua relação com o texto escrito. No primeiro nível está a permissão de anular votos: um sábio pode desfazer o voto de outra pessoa, mas essa autoridade quase não tem apoio explícito na Torá escrita, sustentando-se quase inteiramente na tradição transmitida oralmente. No segundo nível estão áreas como as leis do Shabat, das oferendas festivas e do uso indevido de bens consagrados — temas em que a Torá escrita oferece apenas breves alusões, enquanto a halachá desenvolvida a partir delas é vasta e detalhada, como uma montanha imensa que parece pender de um único fio de cabelo. No terceiro nível estão os julgamentos civis, os serviços do Templo, as leis de pureza e impureza e as relações proibidas — áreas em que o próprio texto bíblico já é extenso e detalhado, dando amplo apoio direto à halachá. A mishná conclui, porém, que essa diferença de fundamentação textual não torna nenhuma área menos essencial: todas, das mais alicerçadas às mais alusivas, são igualmente parte do corpo central da Torá.
As leis do Shabat, citadas pela mishná como exemplo central de área “suspensa por um fio de cabelo”, derivam de um texto bíblico breve — poucos versículos que simplesmente proíbem “trabalho” sem definir sua extensão — enquanto a tradição oral desenvolveu a partir dele as trinta e nove categorias detalhadas de labor proibido. Esse é precisamente o fenômeno que a mishná descreve: um mikra muat, pouco texto escrito, sustentando halachot merubot, uma estrutura legal vasta e minuciosa — e por isso a mishná escolhe o Shabat, junto com as leis de chagigá e meilá, como exemplo paradigmático dessa categoria intermediária.
Rambam lê a expressão final da mishná — “estes e estes” — como incluindo igualmente todas as categorias descritas, sem hierarquia de importância entre elas.
Bartenura detalha cada categoria mencionada pela mishná; Rashi, na Guemará, confirma os mesmos termos técnicos e a leitura unificadora da frase final.
Rambam confirma a estrutura de três níveis da mishná — a permissão de votos sem apoio algum, as leis de Shabat e afins com pouco apoio textual e muita halachá desenvolvida, e as leis de julgamentos, serviço do Templo e pureza com apoio textual amplo — concluindo que a expressão final unifica todas essas categorias como igualmente centrais à Torá.
Bartenura explica que as leis de Shabat, chagigá e meilá contêm regras que dependem apenas de leve alusão no texto, como uma montanha inteira pendendo de fios de cabelo. Sobre “as avodot”, esclarece que se referem às leis do serviço sacrificial no Templo. E sobre a conclusão “estas e estas são corpos essenciais da Torá”, ele confirma, seguindo a Guemará, que a intenção é incluir tanto as leis pouco fundamentadas quanto as bem fundamentadas — todas igualmente centrais.
Rashi confirma que a autoridade dos sábios para anular votos se apoia quase inteiramente na tradição oral, com pouquíssimo respaldo direto no texto escrito. Sobre a frase final, Rashi nota que a própria Guemará questiona sua formulação — perguntando se as leis mais fundamentadas textualmente não seriam também, obviamente, corpos essenciais da Torá — reforçando que a intenção da mishná é justamente afirmar a igual centralidade de todas as categorias, independentemente de seu grau de apoio explícito no texto.