As oferendas de ascensão do Chol HaMoed vêm de bens não sagrados, e as oferendas de paz vêm do dízimo. No primeiro dia festivo de Pessach, a Casa de Shamai diz: de bens não sagrados; e a Casa de Hilel diz: do dízimo. — Quando alguém traz, durante os dias intermediários da festa, uma oferenda de ascensão por voto ou doação voluntária, o dinheiro deve vir necessariamente de bens comuns, nunca do segundo dízimo — pois toda obrigação fixa deve ser cumprida com recursos próprios, não com dinheiro já consagrado. Já as oferendas de paz trazidas por alegria podem vir do dinheiro do segundo dízimo, que de qualquer forma precisa ser gasto em Jerusalém com comida. A exceção é a chagigá do primeiro dia festivo de Pessach, que, sendo uma obrigação fixa da própria festa, gera a disputa: Beit Shamai insiste que, como toda obrigação, ela só pode vir de bens comuns; Beit Hilel permite que venha também do dízimo, desde que a primeira porção consumida seja de bens comuns, cumprindo assim a obrigação básica antes de recorrer ao dízimo para o restante.
O primeiro dia da festa de Pessach recebe o status especial de “santa convocação” — e é essa distinção que explica por que a mishná dedica atenção específica a ele, isolando sua chagigá das demais oferendas trazidas ao longo do Chol HaMoed. Por ser o dia em que a obrigação da festa nasce e se torna fixa, a oferenda de paz desse dia tem características de dever incondicional, gerando a disputa sobre se pode ou não vir do dinheiro do segundo dízimo — diferentemente das oferendas trazidas nos dias intermediários, sobre cuja origem não há dúvida.
Rambam reconstrói o texto da mishná, que considera elíptico, e explica o motivo por trás da disputa quanto ao primeiro dia de Pessach.
Bartenura reconstrói o raciocínio por trás da mishná resumida; Rashi, na Guemará, esclarece o motivo de o texto citar especificamente Pessach entre as festas.
Rambam explica por que a mishná menciona especificamente Pessach: porque há também uma chagigá trazida na véspera, no dia catorze, que não é obrigatória — servindo apenas para que o cordeiro pascal seja comido com fartura por um grupo grande. A mishná, esclarece Rambam, não trata dessa chagigá voluntária de véspera, mas exclusivamente da chagigá obrigatória do próprio primeiro dia festivo.
Bartenura confirma que o texto da mishná é elíptico e precisa ser completado: oferendas de votos e doações vêm apenas no Chol HaMoed, nunca em Yom Tov; a oferenda de ascensão vem mesmo em Yom Tov, sempre de bens comuns, pois sua obrigação principal recai sobre o primeiro dia; já as oferendas de paz da alegria podem vir do dinheiro do segundo dízimo, já que esse dinheiro de qualquer forma deve ser gasto em Jerusalém com alimento.
Rashi confirma o princípio geral de que toda obrigação fixa só pode vir de bens comuns, nunca de dinheiro consagrado do dízimo — princípio já estabelecido em outro lugar do Talmud. Sobre a menção específica a Pessach, Rashi remete à discussão da Guemará mais adiante, que explica por que a mishná escolheu justamente essa festa como exemplo, e não outra das três festas de peregrinação.